Três semanas depois da operação policial no Martim Moniz, marcada pela divulgação de imagens de dezenas de imigrantes encostados à parede para serem revistados pelas autoridades, Lisboa partiu-se em duas e refletiu um país político dividido sobre o binómio segurança/imigração. De um lado, quase três quilómetros percorridos e um protesto que juntou os partidos de esquerda e milhares de pessoas; do outro, uma vigília organizada pelo Chega e que teve em André Ventura o grande protagonista.
Mesmo à distância, Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos também não ficaram indiferentes às duas manifestações. Em Ovar, a partir do congresso dos Autarcas Sociais-Democratas, o primeiro-ministro, que foi acusado simultaneamente de ter perdido a “coragem” e de ter uma agenda “securitária”, tentou colocar-se rigorosamente ao centro, equiparando os dois protestos e dizendo que os “extremos” tinham saído à rua. “Nós somos o elemento de moderação”, afirmou o social-democrata
Em Braga, na apresentação das candidaturas autárquicas do PS ao distrito, Pedro Nuno Santos defendeu o mérito da manifestação em defesa dos imigrantes, apontou o dedo à “extrema-direita” e fez questão de sublinhar que o partido não está contra a polícia; está antes contra a instrumentalização da PSP em nome de uma agenda securitária, numa crítica indireta a Luís Montenegro e ao Governo da Aliança Democrática.
No final do dia, pouco mais de 300 metros separaram as duas manifestações, ainda que tenha ficado ainda mais evidente a fratura que vai existindo entre esquerda e direita mais radical sobre esta matéria, e a pressão a que vai estando sujeito o Governo da Aliança Democrática para resistir às críticas dos dois blocos.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Esquerda acusa Governo de ter cedido a agenda do Chega
“Fascistas, racistas, chegou a vossa hora. Os imigrantes ficam e vocês vão embora.” Foi ao som de cânticos como este que a manifestação “Não nos encostem à parede” arrancou na tarde deste sábado da Alameda. Pelas três da tarde, a hora marcada para o início da descida até ao Martim Moniz, as várias organizações e partidos políticos já estavam alinhados na Avenida Almirante Reis à espera da ordem para avançar.
Enquanto milhares de manifestantes começavam a erguer cartazes como “Encostem o racismo a parede”, “Imigrantes bem-vindos, fachos fora” e “O problema é a xenofobia, não a imigração”, um outro grupo, bem mais pequeno, formava-se nos jardins da Alameda. Com faixas onde se lia racismo é “não ter segurança no país” ou “não ter médico de família”, o Ergue-te juntou umas poucas dezenas de pessoas, o que gerou alguma indignação dos restantes manifestantes — a PSP teve especial em cuidado em acompanhar as duas manifestações para evitar eventuais provocações de parte a parte.
A marcha arrancou à hora prevista com a presença de vários representantes de partidos de esquerda. “É uma celebração de coragem e solidariedade”, resumiu Mariana Mórtágua, uma das primeiras líderes partidárias a falar aos jornalistas. “É importante estarmos aqui com comunidades de imigrantes, com associações de imigrantes, com outros partidos políticos, com pessoas que se querem juntar nesta celebração”, afirmou, de cravo ao peito, ladeada pela antiga líder do Bloco, Catarina Martins, e pelo líder parlamentar, Fabian Figueiredo.
Questionada sobre a vigília organizada pelo Chega, a coordenadora do BE defendeu que o “importante” é a “capacidade de uma democracia se unir”, juntando diversos partidos e setores que “têm coragem e orgulho no antirracismo”. “Estamos aqui para celebrar esse orgulho. O único receio que devemos ter é o receio de ficar calados, em silêncio. É o receito do medo. Quem tem a coragem da solidariedade, quem tem orgulho nessa posição de união, de antifascismo, de solidariedade, de democracia, não tem receito de nada. A democracia é tudo o que vale a pena defender”, acrescentou.
Várias figuras do PS juntaram-se uns metros mais à frente, atrás de uma faixa vermelha com as palavras “Aqui todos, todos”. “Estamos aqui a manifestar-nos contra as divisões e pelos valores do Estado de direito democrático, da democracia, com a liberdade, com a igualdade, com a não discriminação, como a segurança, a dignidade da pessoa humana para todos, igual em direitos e em deveres, contra discursos divisivos que servem apenas para tirar a areia para os problemas”, defendeu a líder parlamentar socialista, Alexandra Leitão.
Durante as intervenções ao longo da marcha, a socialista deixaria ainda claro que “a mensagem do PS é que esta não é uma manifestação contra ninguém” e que a polícia “não deve ser instrumentalizada por discursos” de divisão “que não fazem nada para resolver os problemas dos portugueses” — mensagem que seria repetida, horas depois, quase ipsis verbis por Pedro Nuno Santos, sinal claro de que o PS está a ter um especial cuidado para, defendendo a comunidade imigrante e denunciando uma alegada deriva autoritária do Governo, não hostilizar abertamente a polícia e os eleitores do centro moderado, que se preocupam, naturalmente, com as questões de segurança.
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Do PS estiveram também figuras como Fernando Medina, ex-presidente da Câmara de Lisboa, Eduardo Ferro Rodrigues, antigo presidente da Assembleia da República, Ana Mendes Godinho, ex-ministra do Trabalho, e Eurico Brilhantes Dias. Este último, aliás, apontou diretamente a Luís Montenegro. “O trigger foi a AD ter procurado associar-se às intervenções policiais, o que é profundamente negativo e de alguma forma ter dado a ideia de que perfilhava algumas das aproximações da extrema-direita num discurso muito pouco moderado”, sublinhou o antigo líder parlamentar do PS.
Marcando presença ao lado da Juventude Comunista, João Ferreira, ex-eurodeputado e vereador do partido em Lisboa, sugeriu que o Governo está a instrumentalizar as forças de segurança, “um caminho muito perigoso” que o PCP diz não aceitar. “Os direitos da Constituição têm de ser para todos. Quem pensa que é instrumentalizando a polícia que se defende os direitos da polícia está enganado”, acrescentou o dirigente comunista.
Para lá das bandeiras vermelhas da juventude comunista, as de cor verde do Livre erguiam-se mais à frente, num cortejo liderado por Rui Tavares e onde também esteve presente o cabeça de lista do partido às europeias, Francisco Paupério. “A nossa presença explica-se muito facilmente pela frase que trazemos nesta faixa que orgulhosamente empunhamos: Unidos somos mais livres. Um país coeso, que no respeito, na solidariedade, na entreajuda consegue construir comunidade, é um país mais forte e livre, contra aquilo que muitos querem fazer, criar divisão, ódio e lucrar muito dinheiro com isso”, afirmou.
Na mesma linha, o porta-voz do Livre também criticou Luís Montenegro, dizendo que o atual Executivo está a tentar instrumentalizar as forças de segurança. “Este Governo, ao invés do não é não que nos prometeram, está a correr atrás do prejuízo porque sentem que alguns fazem um discurso do ódio que gera atenção e que, gerando atenção, o Governo vai atrás”, lamentou.
Do PAN, Inês de Sousa Real referiu que o partido não podia deixar de se solidarizar com as pessoas que participaram na manifestação a “pedir mais igualdade, mais inclusão e menos discriminação”. Lamentou também o “aproveitamento político que o Governo fez” da operação policial de 19 de dezembro.
“A PSP não é do Chega nem da AD”
Pela avenida, com cravos e com palavras emprestadas do Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso, seguiram também centenas de manifestantes. Entoou-se “Nu sta djunto, nu sta forti”, também em português e inglês, um cântico que já tinha marcado a manifestação de outubro pela Avenida da Liberdade na sequência da morte de Odair Moniz às mãos da polícia, que decorreu no mesmo dia que uma contra-manifestação do Chega.
A observar mais à margem, encostado a um poste, Orlando Gonçalves, de 75 anos, destaca-se pelo cartaz que traz ao peito: “A PSP é do povo! A PSP não é do Chega nem da AD. Os imigrantes são nossos irmãos”. “Os imigrantes devem ter tratamento igual ao que têm os portugueses”, defendeu, explicando que também ele foi imigrante, em 1973, na França, onde foi “bem acolhido.”
Rameen Mughal, uma estudante que imigrou dos Emirados Unidos com a família em busca de uma “vida melhor”, diz que ficou “sem palavras” ao ver as fotos da operação policial do Martim Moniz . “Foi desumano“, lamentou, criticando a atitude da polícia e do Governo. Ao seu lado, a portuguesa Fábia Rana, de 20 anos e com descendência no Bangladesh, viu o episódio com preocupação. “Mesmo eu, apesar de ser portuguesa, de ter os documentos todos, sinto que nunca vou ter segurança total, porque sei que há certos partidos políticos, que não vou aqui nomear, que vão sempre olhar para mim de uma forma diferente”, acredita.
Para José Santos, cabo-verdiano a trabalhar há dois em anos em Portugal e que fez questão de estar nesta manifestação, as palavras de ordem devem ser sempre “igualdade” e liberdade”. Mas a operação policial do Martim Moniz que motivou a manifestação não é uma situação excecional — e foi isso que levou às ruas da cidade este sábado. “Isso acontece com muitos negros e imigrantes todos os dias. Tem de acabar.”
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As pinturas anti-Chega, o luto em t-shirts e o Ergue-te ali perto
Ainda antes de as bandeiras de Portugal serem esticadas no palco-móvel, a Praça da Figueira, em Lisboa, a 300 metros do Martim do Moniz — e onde se juntaram algumas centenas de pessoas durante a tarde —, recebeu o Chega com frases escritas em paredes, na estátua de Dom João I e em paragens de autocarros: “Facho bom é facho morto”, “Morte à bófia” e “F*** Chega”.
Indiferente às mensagens, o Chega juntou mais pessoas do que o previsto, e até do que aquilo que tinha comunicado às autoridades. Além da publicidade nas redes sociais do partido, que são uma das grandes prioridades internas, juntaram-se ainda dois autocarros de Braga e dois do Porto — como o partido costuma fazer neste tipo de manifestações.
Ainda assim, perante a necessidade de encher a Praça da Figueira e de passar a imagem de um espaço bem composto, a organização do protesto tentou dispor os manifestantes de forma racional. Do palco, seguiam ordens bem claras: as pessoas deviam ficar no seu quadrado, a um braço da pessoa do lado, e quem tinha bandeiras deveria colocar-se do lado exterior da praça. Com mais ou menos dificuldade, os militantes lá se foram orientando e cumprindo as exigências.
Nas mãos de vários apoiantes do movimento, destacavam-se cartazes com mensagens: “Je Suis Polícia” ou “Je Suis Chega”. Para completar as mensagens que vinham de casa, a organização usou umas t-shirts pretas — para ajudar à ideia de luto — onde se lia a branco o mote da vigília “Pela autoridade contra a impunidade”.
Os deputados e dirigentes do Chega, que estavam em peso nas primeiras filas da vigília, vestiram-se a rigor. André Ventura fez exatamente o mesmo quando se chegou ao evento. Alguns apoiantes tinham chapéus alusivos a Donald Trump, onde se lia “Team Trump Captain”. Rui Fonseca e Castro e José Pinto Coelho, os dois representantes mais conhecidos do partido de extrema-direita Ergue-te, também participaram na vigília do Chega, ainda que não tenham tido lugar de destaque por parte da organização.
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Ventura carrega no discurso e ataca abertamente Montenegro
Para o final da tarde estava reservado o discurso de André Ventura. Se o “Não nos encostem à parede” serviu de lema à manifestação original, o líder do Chega utilizou a ideia oposta como fio condutor da sua intervenção, repetindo várias vezes a frase “Encostem-nos à parede” à medida que ia discursando e se referia a “eles” (presumivelmente imigrantes) como elementos da sociedade que têm de ser de alguma forma travados.
“Se eles são ilegais, encostem-nos à parede. Se eles forem pedófilos, se eles forem traficantes, se eles forem ilegais, se eles forem criminosos e bandidos, se eles assediarem e perseguirem as mulheres, se eles perseguirem os nossos moradores dos bairros, se eles derem cabo da nossa vida e dos nossos valores, se eles quiserem destruir a nossa identidade, se eles forem aqueles bandidos que querem sempre atacar a polícia, quem matam e atacam polícias. Encostem-nos à parede, uma e outra e outra vez, até perceberem que este país é nosso e que a lei é para cumprir em Portugal”, rematava o líder do Chega.
Num discurso focado na diferença entre o ‘nós’ e o ‘eles’, Ventura procurou distanciar-se dos outros partidos e tentar provar que é o único que está de “luto pelos polícias mortos e agredidos” e em solidariedade “com aqueles que vivem portas com portas com o crime” — um “drama num país que ficou meio esquizofrénico com esta questão”, foi sugerindo Ventura.
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Luís Montenegro, que veio reconhecer mais tarde que não gostara de ver a imagem daquelas pessoas encostadas à parede, também foi um dos alvos de Ventura, que acusou o primeiro-ministro e o Governo de terem cedido à pressão, que aproveitou as primeiras declarações aos jornalistas para atirar ao chefe de Governo.
“O primeiro-ministro devia ter tido a coragem, aliás, até podia estar aqui [na vigília] hoje. podia ter tido a coragem de dizer ‘quando se começa ao lado das forças de segurança, vai-se até ao fim’. Porque o que os portugueses precisam hoje é de políticos que vão até ao fim, que não tenham medo, que não cedam à pressão”, disse André Ventura.
Em cima do palco voltaria a repetir a ideia para dizer que Montenegro “perdeu a coragem, a força e a fibra de dizer ‘sim, estamos ao lado das forças de segurança para sempre’, o que levou André Ventura a concluir que “ninguém” — além do Chega — representa e defende os interesses das forças de segurança.
Durante a tarde, no palco ou nos ecrãs, o Chega foi passando testemunhos em vídeo de pessoas identificadas como sendo polícias, bombeiros, técnicos do INEM ou moradores de Lisboa que diziam sofrer com os efeitos da imigração, desde assaltos a desacatos e distúrbios em prédios. Ventura aproveitou a ação desta tarde para pedir “mais operações” como a do Martim Moniz e a defesa do papel das polícias.
O líder do Chega esforçou-se ainda por acusar todos os outros partidos de “cederam à pressão” do politicamente correto e da agenda da esquerda, garantindo que o seu partido vai fazer tudo para acabar com “o país da impunidade”. “A bandalheira acabou. [Os imigrantes] têm algum direito acima de nós, dos outros, dos que estão aqui, das pessoas normais? Não têm.”
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