Joe Biden e Donald Trump costumam estar nos lados opostos da mesma moeda. Porém, numa rara intersecção de interesses, encontraram um ponto em comum: os reféns que estão há mais de um ano nas mãos do Hamas, em Gaza. Os dois acreditavam que a libertação dos que estão em cativeiro poderia e deveria ficar acordada antes da transição oficial do poder norte-americano, com a tomada de posse do Presidente eleito marcada para dia 20 de janeiro.
Horas após ter sido anunciado um acordo (que ainda tem de ser votado e aprovado pelo governo israelita), Biden lembrou que desenhou os termos do documento em maio, enquanto Trump disse que só tinha sido possível porque venceu as eleições presidenciais norte-americanas em novembro. Apesar da troca de ‘galhardetes’, as duas administrações trabalharam juntas.
Aquando do anúncio de que o cessar-fogo tinha recebido “luz verde”, representantes das duas administrações encontravam-se em Doha, no Qatar. A cooperação foi esta quarta-feira descrita por um alto funcionário do governo de Joe Biden à CNN como um feito “quase sem precedentes”.
Brett McGurk, conselheiro de Joe Biden para o Médio Oriente, estava na capital do Qatar há várias semanas. Nos últimos dias juntou-se Steve Witkoff, enviado de Trump ao Médio Oriente, para um esforço final por parte dos norte-americanos para alcançar um cessar-fogo e a libertação dos reféns antes do dia 20 de janeiro. Para pressionar Israel e o Hamas a aceitarem um acordo, os dois responsáveis dividiram-se entre reuniões.
A CNN conta que, por exemplo, Steve Witkoff manteve conversações descritas como “cruciais” com Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, na semana passada, às quais Brett McGurk se juntou virtualmente (por telefone). Enquanto o enviado de Trump se concentrava em expressar a vontade de ter um acordo finalizado até à tomada de posse do Presidente eleito, o conselheiro de Biden focava-se nos parâmetros que o documento devia incluir.
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Após o acordo ter sido anunciado, Benjamin Netanyahu não hesitou em telefonar aos líderes norte-americanos. Primeiro ligou a Donald Trump, agradeceu-lhe e combinaram uma reunião em Washington. Depois, telefonou a Joe Biden, também para agradecer.
Segundo a CNN, em conversações com as equipas de segurança nacional (a de Biden, em fim de mandato, e a de Trump, que se prepara para tomar posse) ficou sempre claro que, embora permanecessem em lados opostos, as duas administrações queriam trabalhar juntas na libertação dos reféns do Hamas.
Para a o resultado final o timing foi essencial. Os conselheiros de Trump queriam um acordo após a vitória do republicano nas eleições de novembro, mas antes da tomada de posse para que pudesse começar a sua segunda presidência centrado em cumprir promessas que fez em campanha, relacionadas com imigração ou tarifas, nomeadamente a importações da China. Já para Biden assegurar um entendimento entre Israel e o Hamas validaria os esforços que dedicou aos reféns durante a sua presidência.
Com este deadline acordado na conversa que Trump e Biden tiveram, as equipas intensificaram os esforços nesta derradeira semana, com reuniões a prolongarem-se até às três da manhã. Até conseguirem o tão desejado acordo.