“Falemos sobre economia”. “Não quero saber, isto é mais importante, a economia já sabemos que vai ficar bem”. A troca de palavras entre o apresentador da Fox News, Sean Hannity, e o Presidente Donald Trump marcou o tom daquela que foi a primeira entrevista do chefe de Estado desde que regressou à Casa Branca para um segundo mandato. Ou pelo menos a primeira parte, uma vez que o canal não transmitiu a entrevista na íntegra. Sem questões sobre política externa ou economia, Trump passou os olhos pelo TikTok e pela imigração e saltou entre outros temas, repetindo críticas ora a Joe Biden, ora ao governador da Califórnia, Gavin Newsom.

A entrevista, gravada na Sala Oval esta quarta-feira e transmitida à noite (madrugada em Portugal), começou com uma tentativa de Hannity inspirar uma reflexão sobre o que mudou desde a última vez que Donald Trump a tinha ocupado. O Presidente respondeu com um guião que já lhe serviu muitas vezes e elencou as deficiências das “políticas da esquerda radical” que atribui à administração Biden, com referências ao alegado aumento de crime no país e aos “criminosos” que a Venezuela “despeja” nos Estados Unidos.

O apresentador tentou uma nova abordagem e questionou o Presidente pelas boas vindas que o seu antecessor, Joe Biden, lhe deu e a carta que deixou na Sala Oval. “Se me deu as boas vindas? Não sei, talvez” — as palavras “não sei” viriam a ouvir-se repetidamente ao longo dos 50 minutos seguintes. Demarcando-se uma vez mais da anterior administração, Trump garantiu que todos os “problemas têm solução, com esforço, tempo e dinheiro”. “Se não tivéssemos ganho, o país estaria perdido para sempre“, declarou, aproveitando a oportunidade para pôr em cima da mesa outro tema recorrente: a eleição “manipulada” de 2020 e o número absoluto de votos em Trump.

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Os “inocentes” do 6 de Janeiro, os indultos de Biden e o “olho por olho, dente por dente”

A eleição de 2020 voltou a surgir quando se falou sobre indultos presidenciais. Apesar das críticas, Donald Trump defendeu a sua decisão de perdoar todos os envolvidos na insurreição do Capitólio do 6 de Janeiro. “Já estiveram [na prisão] muito tempo e foram tratados como os piores criminosos da História. A maior parte das pessoas era inocente”, justifica. Questionado sobre os manifestantes que atacaram as forças policiais — o que resultou em dezenas de feridos e um polícia morto –, Trump respondeu que os incidentes com as autoridades não foram significativos e que há criminosos mais perigosos “em Los Angeles e Filadélfia”.

O veredito final? A insurreição foi um “ato de patriotismo” contra um “embuste político”, outro termo pouco mascarado para as eleições. Sobre o tema dos indultos, Donald Trump notou que “sempre disse que o faria”. Por oposição, criticou Joe Biden, por ter concedido indultos preventivos à família, depois de ter dito que não o faria.

“Foi-me dada a opção [de conceder indultos incluindo a ele próprio] e eu disse que não, porque não fizemos nada de mal. Depois, este tipo [Biden] veio e deu um indulto a toda a gente. A parte engraçada — talvez seja triste — é que não deu um a ele mesmo e tudo tem que ver com ele”, considera o chefe de Estado. “O congresso devia investigar?”, pergunta Hannity.

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Trump não responde diretamente, mas quando o apresentador volta a insistir na questão, momentos mais tarde, a resposta é mais elucidativa. “Sempre fui contra [“a instrumentalização do Departamento de Justiça”], até com a Hillary [Clinton]. Mas passei quatro anos no inferno por causa dessa escumalha. Gastei milhões em questões legais. E ganhei, mas de maneira difícil. É-me muito difícil dizer que eles não deviam passar pelo mesmo”, afirma.

É o momento mais aceso da entrevista. Donald Trump sugere que alguém aconselhou Biden a não se auto-perdoar. “Biden sempre recebeu maus conselhos: sobre a Ucrânia, Israel, o Afeganistão”. É aqui que Hannity tenta conduzir a entrevista para questões sobre economia. Donald Trump não deixa. Talvez na segunda parte, que será transmitida esta quinta-feira, o tema seja abordado.

As cidades santuário, as bacias hídricas e os incêndios de Gavin Newsom

Apesar de todas as críticas à administração Biden, o maior alvo desta parte da entrevista foi outro democrata: o governador da Califórnia, Gavin Newsom. Foi Donald Trump que mencionou Los Angeles (LA), quando se falava sobre a necessidade de dialogar com ambos os partidos, apesar da maioria conseguida pelo Partido Republicano nas duas câmaras do Congresso, para obter maiorias seguras nas votações. “LA mudou tudo, porque os democratas vão querer dinheiro para lá”, declarou.

Hannity equipara o caso de Los Angeles, devastado por incêndios, ao da Carolina do Norte, devastado pelo furacão Helene, mas Trump descarta a comparação. “Os democratas não querem saber da Carolina do Norte”, acusa. As críticas viram-se depois para a FEMA (Agência Federal de Gestão de Emergências) — “A FEMA só complica tudo, não fez o seu trabalho. Os estados devem resolver os seus problemas“, sugere, apresentando o Oklahoma como um exemplo de sucesso. “E o governo só ajuda com o dinheiro”.

Mas se Trump está disposto a abrir os bolsos do governo federal para ajudar a Carolina do Norte, põe um travão à ideia de o fazer também para a Califórnia. O Presidente responsabiliza Newsom pela incapacidade de fazer frente aos incêndios que lavram em LA, que atribui ao facto de “milhões de litros de água serem desviados para o Oceano Pacífico”, e considera que a má gestão de recursos hídricos devia ser motivo para suspender financiamento.

Acho que não devíamos dar dinheiro nenhum à Califórnia até deixarem a água circular do norte para o sul. Eles falam de um peixe que está em vias de extinção”, atira. “Mas não acredito que seja o peixe, são motivos políticos”. As autoridades californianas já tinham posto de lado a possibilidade de os esforços de conservação deste animal no norte do estado possa estar a prejudicar o combate aos incêndios no sul.

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Porém, não é só nas questões ambientais que Donald Trump considera cortar a torneira do financiamento à Califórnia. Questionado sobre se estaria disposto a cortar fundos a cidades santuário que se recusem a acatar as novas ordem executivas relativas à imigração, o Presidente não pôs a opção de lado. “Talvez tenha de o fazer“, respondeu.

Foi esta a única referência à imigração nesta parte da entrevista — uma crítica ao facto de a Califórnia ser um estado santuário, que protege imigrantes das autoridades federais para a imigração, para impedir, em muitos casos, a sua deportação. “As pessoas não querem cidades santuário, mas o radical de esquerda do Newsom quer. Eu perguntei-lhe porquê e ele não soube responder. É um idiota”, proclamou.

A fé em Deus, o TikTok e a morte de JFK

Deslizando entre um tópico e outro, pouco se falou sobre o futuro da administração Trump ou de como serão operacionalizadas as ordens executivas que já foram assinadas até esta quarta-feira. Sean Hannity voltou a pôr os olhos no passado para falar sobre a tentativa de assassinato de que Trump foi alvo em Butler, na Pensilvânia e perguntar ao Presidente se isso o tinha mudado.

“Não acho que mudei, mas aumentou a minha fé em Deus. Estatisticamente, eu não devia estar aqui“, respondeu o republicano, voltando a repetir a ideia de intervenção divina.

As atenções só se viraram para o futuro em dois temas concretos. Em primeiro lugar, quando Trump voltou a defender o TikTok e o adiamento da decisão do Supremo Tribunal para a suspender. “É assim tão importante para a China estar a espiar jovens e crianças a ver vídeos loucos?”, questiona o Presidente. Hannity responde que não quer a China a espiar ninguém, preocupação que Trump desvaloriza que possa ser levada a cabo numa aplicação. “Eles fazem os telefones e computadores e muitas outras coisas. Isso não é uma ameaça maior?”, sugere.

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A transmissão da primeira parte da entrevista termina com a renovação de uma outra promessa de Donald Trump — a de tornar públicos os documentos relativos ao assassinato de JFK. “Mike Pompeo [Secretário de Estado da primeira administração Trump] pediu que não o fizesse porque não era boa altura. Eles são profissionais e eu respeito-os. Mas vou torná-los públicos”, garantiu.

Durante menos de uma hora, Sean Hannity tentou, sem sucesso, manter as rédeas da primeira entrevista a Donald Trump no regresso à Casa Branca. O Presidente regressou sempre a chavões bem conhecidos e que se revelaram bem-sucedidos na campanha eleitoral e não levantou o véu sobre os próximos passos que irá dar. A segunda parte da entrevista será transmitida esta quinta-feira.