Aplausos, gritos e euforia. Na reta final das celebrações da tomada de posse de Donald Trump, o Presidente norte-americano assinou oito ordens executivas. Na Capital One Arena, a multidão aplaudia sempre que o republicano terminava de assinar um dos documentos — fosse sobre a saída dos acordos de Paris, fosse sobre o fim do teletrabalho na administração pública. A meio, o novo líder dos Estados Unidos atirou: “Imaginam Joe Biden a fazer isto? Eu não imagino”.
Esta demonstração de poder não ia ficar por aqui. Quando terminou de assinar as oito ordens executivas, ao estilo de uma estrela de rock, Donald Trump atirou para a multidão as canetas que tinha à sua frente e com as quais assinou os documentos. A plateia ficou ainda mais eufórica.
Força, poder e autoridade. Foi isto que o novo Presidente tentou demonstrar na sua tomada de posse esta segunda-feira. Contrariamente a 2017, em que chegou como um outsider político à Casa Branca, Donald Trump reentra agora na presidência com experiência. E não só: tem metade do país a adorá-lo, tem o apoio de bilionários e tem o Partido Republicano na mão, que vê a fação Make America Great Again (MAGA) a assumir progressivamente a hegemonia.
Perante um Partido Democrata ainda a tentar recuperar da derrota em toda a linha de Kamala Harris, Donald Trump tem o caminho praticamente sem oposição para aplicar as medidas que entender, revertendo várias das políticas aplicadas pela administração Biden. Entre os republicanos, as vozes críticas (como a de Nikki Haley) ainda dão um voto de confiança ao novo Presidente. E muitos não sabem como responder à magnitude da vitória eleitoral do passado dia 5 de novembro, em que o partido conquistou não só a presidência, mas também a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado.
Não é de estranhar, por isso, a confiança demonstrada por Donald Trump na tomada de posse. Após as celebrações na Capital One Arena, no seu regresso à Sala Oval, onde assinou mais umas dezenas de ordens executivas, o novo Presidente disse ter experimentado uma “das melhores sensações” de sempre. Essa sensação pode ser lida como uma mistura de triunfo, de superação (principalmente dos processos judiciais de que foi alvo nos últimos tempos) e de poder.
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Mais experiente, rodeado de conselheiros leais e com uma lista de inimigos: as diferenças entre o primeiro e segundo mandato de Trump
Os especialistas ouvidos pelo Observador não têm dúvidas de que Donald Trump regressa à Casa Branca mais bem preparado do que em 2017. Em declarações o Observador, Andrew Wroe, professor na Universidade de Kent e especialista em política norte-americana, recorda o início do primeiro mandato do republicano.
“Foi caótico, particularmente nos primeiros 100 dias. Ele não tinha ideia do que queria alcançar em termos políticos, além de algumas noções vagas” sobre alguns tópicos, tais como a “redução da migração ilegal”, a “reversão do Obamacare,” o “corte de impostos” e uma “hostilidade em relação à generalidade das organizações internacionais”, lembra.
▲ Trump distribui canetas à multidão na Capital One Arena
The Washington Post via Getty Im
O diagnóstico que Andrew Wroe faz do início do primeiro mandato do republicano é de falta de experiência política, devido a ter sido empresário a vida toda: “Não tinha ideia de quais eram os níveis de poderes ou como utilizá-los”. Para o auxiliar, sublinha o professor universitário, Donald Trump recorreu a “republicanos experientes, do establishment, em vez de apoiantes mais leais”. Desejava igualmente “conceder à sua administração alguma legitimidade.”
Não sendo abertamente antissistema e defendendo posições menos “radicais”, esses republicanos de uma linha mais tradicional acabaram por ser uma espécie de “contrapoder” que “resistia a medidas mais radicais” que o Presidente queria implementar, afirma o professor.
▲ Trump reuniu-se de republicanos mais tradicionais em 2017
KEVIN DIETSCH / POOL/EPA
Em 2025, Donald Trump está livre dessas amarras. Não precisa mais dessa “legitimidade” — e sabe perfeitamente como a presidência norte-americana funciona. “Está mais bem preparado. Ele tem um plano sobre o que quer alcançar. Tem mais experiência e tem mais noções sobre como fazer as coisas”, afirma Andrew Wroe, acrescentando que a entourage do Presidente é também diferente da de 2017 — é sobretudo mais “leal”.
Ao longo dos últimos anos, o novo Presidente foi também angariando apoiantes políticos, mais alinhados com a sua mensagem antissistema do que os republicanos mais tradicionais. Ao Observador, Steven Smith, professor de Ciência Política na Universidade de Washington, diz que Donald Trump é a “mesma pessoa” e defende as mesmas bandeiras do que em 2017. Mas há diferenças, aponta o especialista. Uma delas é que o líder norte-americano ganhou “o apoio” de grupos que o ajudaram a preparar “dezenas de propostas políticas”.
Dito de outro modo, Donald Trump rodeou-se de conselheiros fiéis que o ajudam a definir a sua linha política. Dentro do Partido Republicano, a base eleitoral também acolheu com mais naturalidade a sua ideologia. E há outra diferença face a 2017, realça Steven Smith: o republicano ganhou um maior número de inimigos, sejam eles políticos, económicos ou oriundos da área judicial. “As suas queixas e vinganças vão ocupar-lhe mais tempo durante este mandato”, conjetura o professor universitário.
▲ Republicano ganhou um maior número de inimigos, sejam eles políticos, económicos ou oriundos da área judicial
Melina Mara / POOL/EPA
Não é de estranhar, por isso, que o republicano tenha assinado uma ordem executiva que termina com o que chama de “instrumentalização do governo federal”. Dando eco à teoria de que foi vítima de uma “caça às bruxas” que motivou a abertura de processos judiciais, Donald Trump acusou a administração Biden “de ter como alvo indivíduos que se opunham às políticas da antiga administração com numerosas investigações federais e recursos politicamente motivados”.
Trumpismo 2.0 volta com força — e Trump sente que ganhou voto de confiança na urnas
America First (América em Primeiro Lugar). Este é o lema que Donald Trump quer aplicar ao seu mandato e representa colocar o interesse norte-americano em primeiro lugar, independentemente das consequências que isso pode acarretar. Ao Observador, o professor de marketing político da Universidade de Nottingham, Christopher Pich, acredita que continuará a ser uma das imagens de marcas do trumpismo.
As bandeiras também continuarão a ser mesmas do primeiro mandato, enfatiza Pich. Donald Trump continuará a aplicar medidas de imigração mais restritivas, vai reverter políticas destinadas a combater as alterações climáticas e não vai ter pudor em aplicar taxas alfandegárias. As primeiras ordens executivas revelam exatamente isso: declarou o estado de emergência na fronteira com o México, voltou a retirar os EUA do Acordo de Paris e impôs uma taxa de 25% sobre os produtos mexicanos e canadianos.
▲ Medidas que Trump assinou nas últimas horas não destoam da sua bandeiras eleitorais de 2017
JIM LO SCALZO / POOL/EPA
“Estamos mais conscientes da sua agenda e sabemos o que esperar do segundo mandato porque já vivenciámos uma administração Trump”, assinala Christopher Pich. O facto de estar rodeado de aliados mais leais também demonstra que não existirá quem discorde do que pensa. “O Presidente Trump e os seus apoiantes também têm sido expressivos sobre o que podemos esperar do seu segundo mandato”, continua o docente universitário. Não é, portanto, surpreendente que o chefe de Estado tenha anunciado cerca de 1.600 indultos a invasores do Capitólio.
Até os líderes estrangeiros já aprenderam como lidar com Donald Trump. Em entrevista, o ministro dos Negócios Estrangeiros norueguês, Espen Barth Eide, declarou que já entenderam que o republicano escolhe uma abordagem “maximalista e depois começa a negociar”. “Da última vez não sabíamos disso. Agora sabemos”, realçou o chefe da diplomacia da Noruega, acrescentando que as palavras do Presidente norte-americano nem sempre são para ser levadas a sério. “Se corrêssemos a comentar todos as publicações na Truth Social, não teríamos mais nada para fazer.”
Além disso, a conjuntura política também lhe é favorável para concretizar as ideias do trumpismo 2.0. Em declarações ao Observador, Georgios Samaras, professor de políticas públicas no King’s College de Londres, Donald Trump mostra-se “disponível a avançar plenamente com a sua a ideologia”, como já ficou provado com as primeiras medidas. Em concreto, refere o especialista, Donald Trump “exerce uma influência significativa no Senado, na Câmara dos Representantes” e até no Supremo Tribunal.
A vitória convincente do Partido Republicano em todas as eleições de novembro deu espaço de manobra para Donald Trump avançar com as medidas que propõe. Acima de tudo, o novo Presidente sente que recebeu o aval da população norte-americana nas urnas — e isso dá-lhe confiança e uma sensação de poder. “Nem mesmo os problemas legais que enfrenta há quatro anos prejudicaram o seu ressurgimento sem precedentes”, nota Georgios Samaras.
Com o voto de confiança que recebeu as urnas, “é muito provável que persistam” as suas políticas no futuro, considera o professor, indicando que isso já ficou bastante patente nas primeiras ordens executivas que assinou.
Ainda assim, um dos traços característicos da gestão de Donald Trump é que se deve “esperar o inesperado”, considera Christopher Pich. O novo Presidente já mostrou que não tem problemas em voltar com a palavra atrás ou reverter algumas decisões, se isso o beneficiar politicamente. Um desses exemplos aconteceu com o TikTok; durante o primeiro mandato, o republicano defendeu a sua proibição; em 2025, uma das primeiras ordens executivas que assinou prevê o adiamento da suspensão da rede social durante 75 dias, para que seja possível negociar com a empresa.
▲ Trump já defendeu a suspensão do TikTok nos EUA, mas voltou atrás
NurPhoto via Getty Images
O apoio dos bilionários e o poder: as diferenças face a 2017
Uma vez que está rodeado de pessoas que partilham as mesmas ideias, Donald Trump não tem quase ninguém que o modere na entourage. “Na perspetiva do Partido Democrata, ele é mais perigoso”, salienta Steven Smith, prevendo que possa adotar medidas “mais radicais”, em particular na “política externa”.
Até ao momento, o Presidente norte-americano já deu sinais de que quer avançar com a compra da Gronelândia. Apesar de a ideia não ser nova, o republicano reitera que aquele território controlado pela Dinamarca é “essencial” para garantir a segurança dos Estados Unidos. Simultaneamente, já assegurou que vai retomar o controlo do Canal do Panamá, dando grande ênfase à questão no seu discurso de tomada de posse.
Porém, também é certo que o poder de Donald Trump terá certos limites. Os Estados Unidos possuem um sistema de pesos e contrapesos bastante eficaz, ao mesmo tempo que o Supremo Tribunal se mantém independente. Mesmo no Congresso, os republicanos têm uma maioria ligeira na Câmara dos Representantes e no Senado. “É a maioria mais frágil que já existiu nos tempos modernos. E, embora os republicanos estejam agora extremamente alinhados, é muito difícil mantê-los todos unidos diante de questões muito complicadas”, diz à BBC Mark Peterson, professor de Políticas Públicas, Ciências Políticas e Direito na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.
Mesmo assim, esses fatores não afetam, pelo menos por agora, “os níveis de autoconfiança de Donald Trump no início deste segundo mandato”, destaca ao Observador Inderjeet Parmar, professor da City University of London. Uma das razões por trás disso prende-se com o apoio da “oligarquia financeira”: “A elite corportativa norte-americana endossou o trumpismo. Por isso, está superconfiante”.
O apoio do homem mais rico do mundo, Elon Musk, que terá um papel da administração Trump no Departamento de Eficácia Governamental, concede mais confiança ao novo Presidente. Quem também tenta cair nas boas graças do líder norte-americano são outros donos de grandes tecnológicas, como o líder da Meta, Mark Zuckerberg, o fundador da Amazon, Jeff Bezos, entre outros, que marcaram presença na tomada de posse. Neste segundo mandato, o Presidente dos Estados Unidos conta não só com o apoio destes empresários; conta também com a sua influência.
Neste segundo mandato, Donald Trump tem mais experiência, está mais bem preparado para desempenhar o cargo e reuniu-se de aliados. O contexto político também é favorável: usufrui de um Partido Democrata que ainda está a apanhar os cacos da derrota de Kamala Harris, possui uma hegemonia quase total no seu partido e os republicanos controlam o Congresso. O início desta segunda vaga de trumpismo está a ser mais intenso do que a primeira. S