António Costa continua a dizer que o caso judicial que levou à sua demissão do Governo “já está ultrapassado”. Numa entrevista à RTP, quase totalmente dedicada a assuntos europeus, o agora presidente do Conselho Europeu não falou do novo capítulo da Operação Influencer, conhecido esta quarta-feira, e da pen com informação suspeita que estava num cofre do gabinete do primeiro-ministro, mantendo que o seu envolvimento no caso foi alvo de “clarificação” suficiente.
O que mudou em relação às condições para desempenhar cargos políticos foi, segundo explicou na mesma entrevista, “duas decisões judiciais, a clarificação do que estava em discussão” e também o que “sentiu“, lembrou, quando foi ouvido, a seu pedido, pelo Ministério Público. Mas mais do que tudo, pesou “a avaliação que os 27 chefes de Estado e de governo no com assento no Conselho Europeu entenderam” sobre a sua “capacidade e qualidade para desempenhar esta tarefa”, conta ao fim de dois meses em funções em Bruxelas.
Foi o pouco que o ex-primeiro-ministro consentiu falar de temas nacionais. Noutro assunto, o das presidenciais, rejeitou por completo envolver-se, alegando que a sua “fase de política interna ficou encerrada no ano passado”: “Desejo o melhor para o meu país, o que se passa não me é indiferente, mas como cidadão e não mais como político”. Em entrevista ao Observador, em dezembro quando tomou posse como presidente do Conselho Europeu, já tinha dito que nem pretende participar na campanha eleitoral.
Relação UE/EUA “independente de quem está em cada momento no poder”. E mais avisos para Trump
Nos poucos mais de trinta minutos de entrevista falou sobretudo das relações da Europa com os Estados Unidos, numa nova era Trump. Costa lembrou que “são relações que têm 200 anos. Já tiveram melhores momentos, piores momentos, mas são independentes na sua durabilidade de quem está em cada momento no poder na Europa ou no poder nos Estados Unidos.”
E isto quando questionado sobre a ameaça de uma guerra comercial com a Europa, um cenário em que o presidente do Conselho Europeu reconhece que a preocupação norte-americana com o défice comercial com a UE “é legítima”, mas também deixa um aviso. “Temos uma postura dialogante, estamos abertos a considerar os problemas que nos colocam, procuramos resolver os problemas que nos colocam, mas naturalmente utilizaremos também as medidas de que necessitamos para defender os nossos interesses“, afirmou. Costa referia-se a “instrumentos de defesa” da economia europeia como os que já foram usados quando Biden implementou um pacote anti-inflação lesivo para algumas empresas europeias.
O outro ponto de tensão na relação com a nova administração americana é na Defesa e no investimento — que Trump defende que seja de 5% — dos estados europeus aliados na NATO. Portugal, por exemplo, só atingirá a meta de 2% em 2029, mas Costa acredita que se irá mais além e fala no “consenso bastante razoável entre os Estados-membros para prosseguir” a trajetória de crescimento desse investimento. Mostrou-se mesmo convencido de que na próxima cimeira da NATO, que se realizará em junho, “se vai fixar uma meta superior aos 2%: se são os 5%, se são os 3%, não sei, é uma decisão que os Estados membros tomarão no âmbito da NATO”.
Sobre o investimento em Defesa, Costa citou o relatório Draghi que “veio precisamente enfatizar que, tal como os investimentos na transição energética, também os investimentos em defesa devem ser vetores do reforço da competitividade da nossa economia”. Esse debate, afirmou, “vai seguramente chegar na discussão do próximo quadro financeiro plurianual. Porque uma das questões fundamentais que se vai colocar é como é que podemos ter mais despesa em novas áreas sem sacrificar aquilo que são as áreas tradicionais de investimento”, disse.
Neste ponto foi confrontado com a posição do secretário-geral da NATO, Mark Rutte, que sugeriu cortes nos orçamentos da saúde para esse efeito. Para Costa, este “não é seguramente o melhor argumento para convencer os cidadãos a compreender a necessidade de aumentar a despesa em defesa e segurança, que é uma compreensão que todos temos, porque todos sabemos que nada existe se não houver primeiro segurança e se não estiver assegurada primeiro a Defesa”.
Nega que exista um confronto com Donald Trump em matéria de investir na Defesa, dizendo que o presidente americano “chega numa altura em que aquilo que vem propor vai no sentido daquilo que a União Europeia e os Estados-Membros da União Europeia têm vindo a fazer desde 2014 e, sobretudo, desde 2022”.
Costa diz que “o que é paradoxal é que aquilo que o presidente Trump vem agora apresentar como uma exigência vai de encontro àquilo que muitos na União Europeia defendiam e alguns receavam porque isso podia ser lido como um distanciamento relativamente aos Estados Unidos”. “Agora fica claro que essa autonomia estratégica não é um distanciamento relativamente aos Estados Unidos, mas, pelo contrário, vai ao encontro àquilo que é vontade dos próprios EUA”, disse confiando que “esse é um processo que tem-se vindo a desenvolver naturalmente e que se vai continuar a desenvolver naturalmente.”
Em relação à Rússia, o presidente do Conselho Europeu diz que “é, claramente, hoje a maior ameaça externa à União Europeia”. E considera que negociações de paz não podem cingir-se a conversas com a Rússia. “A Ucrânia é um Estado soberano e, portanto, não há negociações sobre a paz na Ucrânia que não envolvam a Ucrânia”, disse na entrevista onde ainda somou a União Europeia ao grupo: “A negociação da paz na Ucrânia implica também a negociação sobre a segurança na Europa e não deveria haver uma discussão sobre a segurança na Europa sem a União Europeia.”
Ficou mais um aviso para Trump: “Aliás, seria contraditório o presidente Trump dizer simultaneamente que os europeus têm de assumir maiores responsabilidades pela sua segurança e que os europeus não estarem presentes nas mesas de negociação sobre o futuro da segurança europeia.” E voltou a dizer, tal como na entrevista ao Observador, que mais do que a paz na Ucrânia, o que é preciso procurar é uma “paz que seja justa e duradoura”.