O encontro não começou mal. O Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, recebeu o seu homólogo da Ucrânia com um aperto de mão na porta da Casa Branca. Volodymyr Zelenksy mostrou fotografias de ucranianos capturados pelas tropas russas e denunciou o que a Rússia fez no país que lidera. Mesmo assim, recebeu uma reação fria de Donald Trump.

“Estou no meio. Estou pela Rússia e pela Ucrânia”, afirmou Donald Trump, acrescentando: “Eu quero é resolver [a guerra]”. Vestindo o fato de mediador, o Presidente norte-americano tentou não criticar o homólogo russo, Vladimir Putin. É partir deste momento que a tensão começa a escalar na Sala Oval. Volodymyr Zelensky não gostou claramente de ouvir que o líder dos EUA mantém a sua postura de não criticar o Presidente russo.

Quem saiu em defesa de Donald Trump foi o vice-presidente, JD Vance, que também estava na Sala Oval. Entrando ao ataque contra o líder ucraniano, o número dois da administração Trump afirmou que o antigo inquilino da Casa Branca, Joe Biden, usava uma narrativa dura contra Vladimir Putin, mas que não funcionou. “Putin invadiu a Ucrânia e destruiu uma parte significativa do país. O caminho para a paz e para a prosperidade é talvez apostar na diplomacia. O que faz a América um bom país é a América envolver-se em diplomacia. É isso que o Presidente Trump está a fazer”, defendeu.

O Presidente ucraniano ripostou e não se deixou ficar, lembrando os acordos de Minsk e todas as tentativas de chegar a acordo com Vladimir Putin, que acabaram por nunca resultar desde 2014, ano da anexação da Crimeia. “De que tipo de diplomacia, JD, está a falar? O que quer dizer com isso?”, questionou Volodymyr Zelensky a JD Vance, que não ficou satisfeito com a forma como o líder da Ucrânia reagia.

“Devias estar mais agradecido.” A transcrição completa dos sete minutos da discussão entre Zelensky, Trump e JD Vance

“Estou a falar sobre um tipo de diplomacia que vai acabar com a destruição do seu país. Senhor Presidente, com o devido respeito, eu penso que seja desrespeitoso que venha à Sala Oval e tente discutir em frente aos meios de comunicação social norte-americanos”, respondeu JD Vance, sendo que Volodymyr Zelensky tentava desmentir os pontos do vice-presidente norte-americano.

Donald Trump não se meteu na discussão até ao momento que Volodymyr Zelensky sugeriu que os EUA vão sentir as consequências de uma guerra na Europa. Neste momento, começaram os ataques do líder norte-americano: “Não está em posição de nos ditar nada, de como nos vamos sentir. Não está numa posição muito boa. Não tem as cartas. Connosco começou a ter cartas”.

“Não estou a jogar às cartas”, ainda tentou contrariar Volodymyr Zelensky. Não travou, no entanto, as críticas de Donald Trump. “Está a brincar com a vida de milhões de pessoas. Está a brincar com a Terceira Guerra Mundial. O que está a fazer é muito desrespeitoso para o país, para este país. Não está a ganhar. Não está a ganhar isto [a guerra]. E tem uma chance de sair razoavelmente desta guerra”, continuou o Presidente dos EUA.

“Não tem as cartas. Enterrou-as. Tem pessoas que morreram. Tem poucos soldados. Tem poucos soldados. E depois diz-nos: ‘Eu não quero um cessar-fogo. Eu quero isto e isto’. Olhe, se conseguirmos um cessar-fogo agora mesmo, eu diria para aceitá-lo, porque as balas paravam e os homens paravam de ser mortos”, atirou Donald Trump perante as câmaras de televisão que gravaram a discussão na Sala Oval.

Terminada a discussão — com a nota de Donald Trump a dizer que achou um “bom momento de televisão” —, a delegação ucraniana reuniu-se em privado com a administração norte-americana. Mas cedo se percebeu que não haveria conferência de imprensa, nem o acordo sobre a exploração de minerais das terras-raras estava planeado para ser assinado esta sexta-feira.

Zelensky acabou expulso da Casa Branca

Numa nota na Truth Social, Donald Trump divulgou que não continuará as negociações com o seu homólogo ucraniano após uma tensa conversa na Casa Branca e disse que Volodymyr Zelensky poderá regressar a Washington quando “estiver pronto para a paz”.

“Tivemos uma reunião muito significativa na Casa Branca hoje. […] É incrível o que sai através da emoção, e eu determinei que o Presidente Zelensky não está pronto para a paz se a América estiver envolvida, porque ele sente que o nosso envolvimento lhe dá uma grande vantagem nas negociações”, afirmou Trump, assinalando: “Eu não quero vantagem, eu quero paz. Ele desrespeitou os Estados Unidos da América no seu querido Salão Oval. Ele pode voltar quando estiver pronto para a paz”.

Depois desta publicação, a comitiva ucraniana terá sido expulsa da Casa Branca. Donald Trump mandou o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e o conselheiro de segurança nacional, Mike Waltz, informar Volodymyr Zelensky e a sua delegação de que não seriam mais bem-vindos na Casa Branca. Os ucranianos esperavam pelo almoço que se ia seguir ao encontro na Sala Oval quando souberam da decisão e terão protestado que queriam continuar. Porém, a vontade de continuar a negociar ter-lhes-á sido negada.

Europeus apoiam Zelensky, que responde a todos

Na sequência deste episódio na Sala Oval, vários líderes europeus saíram em defesa de Volodymyr Zelensky. Um dos primeiros foi o líder do executivo da Polónia, Donald Tusk, que escreveu no X: “Querido Zelensky, queridos amigos ucranianos, não estão sozinhos”. Além disso, o chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, garantiu que “Espanha está” com a Ucrânia e o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, também escreveu no X que “a Ucrânia pode sempre contar com Portugal”. 

Uma das mensagens mais fortes veio dos três principais líderes comunitários: da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, do presidente do Conselho Europeu, António Costa, e da presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola. “A tua dignidade honra a bravura do povo ucraniano. Sê forte, sê corajoso, mantém-te sem medo. Nunca estarás sozinho, querido Presidente Zelensky”. 

Depois de uma discussão inédita, a relação Trump-Zelensky é “irreparável”? E que impacto vai ter para a guerra da Ucrânia?

A alta representante da União Europeia para a Política Externa e de Segurança, Kaja Kallas, igualmente reagiu e prometeu um reforço do apoio à Ucrânia “para que possa continuar a lutar contra o agressor”. Mandando uma farpa a Donald Trump, a ex-primeira-ministra da Estónia afirmou que “ficou claro que o mundo livre precisa de um novo líder. Cabe-nos a nós, europeus, aceitar este desafio”. “A Ucrânia é a Europa! Nós apoiamos a Ucrânia.”

O Presidente da Ucrânia foi respondendo a todas as mensagens de vários líderes europeus que iam surgindo no X, numa prova de que a Europa vai continuar o seu apoio à Ucrânia: “Obrigado pelo vosso apoio”. O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, optou por uma estratégia diferente — e agiu nos bastidores. O líder do executivo britânico manteve uma conversa telefónica inicialmente com o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, e depois falou com Volodymyr Zelensky e Donald Trump.

Keir Starmer prometeu manter um “apoio irrestrito à Ucrânia” e assegurou “estar a fazer tudo ao seu alcance para assegurar uma paz duradoura baseada na soberania e na segurança da Ucrânia”. “O primeiro-ministro espera receber os líderes internacionais no sábado, incluindo o Presidente Zelensky.”

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Trump diz Zelensky não “quer fazer a paz”. Presidente ucraniano assegura que “não faz nada de mal”

A meio da tarde nos EUA, Donald Trump voltou a reagir à discussão. O Presidente norte-americano admitiu que o encontro “não correu muito bem” e que Volodymyr Zelensky “jogou as suas cartas com demasiada confiança”. Garantiu igualmente que os EUA não querem “jogar jogos” de guerra — e não querem um conflito por mais “dez anos”.

O Presidente norte-americano disse que o Chefe de Estado ucraniano apenas quer “lutar, lutar, lutar”, mas tem de fazer a “paz”. No entanto, para Donald Trump, o líder ucraniano não parece ser um “homem que queira fazer a paz”, apesar de não ter “cartas” na manga.

Por sua vez, o líder da Ucrânia, numa entrevista à Fox News, admitiu que a discussão “não foi boa” para nenhuma das partes, mas recusou pedir abertamente desculpa à administração Trump. “Respeito o Presidente e respeito o povo norte-americano. Temos de ser muito honestos. Não penso que tenha feito nada de mal. Somos parceiros próximos. Temos de ser livres.”

Zelensky recusou também voltar à Casa Branca num futuro próximo. Questionado sobre se a discussão foi uma cilada mediática, o Presidente ucraniano responde que “não sabe”: “Eu penso que foi realmente uma situação dura”. Mas ressalvou que “não quer perder os grandes parceiros dos EUA” e admitiu que seria “muito difícil” para a Ucrânia ganhar a guerra sem o apoio de Washington.