Steve Witkoff, o enviado especial de Donald Trump para o Médio Oriente, deu esta sexta-feira a primeira grande entrevista desde que assumiu o cargo, respondendo durante hora e meia às perguntas do jornalista norte-americano Tucker Carlson no seu podcast. Amigo pessoal do presidente dos EUA, Witkoff — que passou recentemente a ser também uma das figuras de proa de Washington nas negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia — aceitou assim o convite do comentador político de direita para responder quanto aos avanços e a postura dos EUA para a mediação dos conflitos entre Israel e o Hamas, assim como entre Moscovo e Kiev.
No que toca à invasão da Ucrânia, o aspeto politicamente mais saliente da entrevista foi a admissão de Witkoff de que Kiev poderá ter de prescindir das suas regiões atualmente controladas pela Rússia como caminho para as negociações de paz com Moscovo.
De amigo de Trump a figura central das negociações com Rússia e Israel. Quem é Steve Witkoff?
“Penso que a maior questão neste conflito são as chamadas quatro regiões, Donbas, Crimeia… e há mais duas”, disse erradamente, querendo referir-se na verdade às províncias de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia — parcialmente controladas pela Rússia desde 2022 — e a Crimeia, totalmente ocupada desde 2014.
Referindo-se às motivações russas, Witkoff repetiu aqueles que têm sido os argumentos de Moscovo para a anexação formal destes territórios, feita à revelia do direito internacional. “São falantes de russo e houve referendos em que a esmagadora maioria da população indicou que queria estar sob o domínio russo”, afirmou, não referindo as suspeitas generalizadas de que tais plebiscitos poderão ter ocorrido sob coerção das forças russas.
Para o enviado especial, “o elefante na sala” para as negociações — que continuarão esta segunda-feira na Arábia Saudita — são “as questões constitucionais dentro da Ucrânia quanto ao que podem conceder no que diz respeito ao território”, afirma. “Os russos controlam de facto estes territórios. A questão é: será que o mundo vai reconhecer que esses territórios são russos? Poderá Zelensky sobreviver politicamente se reconhecer este facto? Esta é a questão central do conflito”, aponta.
Na mesma entrevista a Carlson — conhecido pelo seu posicionamento pró-Rússia, a ponto de ser uma das poucas figuras do Ocidente a ter conseguido entrevistar Vladimir Putin — Witkoff sugeriu que os EUA terão convencido Kiev a organizar eleições presidenciais. Em causa está o facto de Volodymyr Zelensky ter chegado ao fim do seu mandato a 20 de maio de 2024, o que lhe tem valido acusações não só da Rússia, como também de Donald Trump, que o caracterizou como um “ditador sem eleições” — e tem sido usado como justificação para a impossibilidade de assinar tratados de paz e atos similares, dada a sua suposta falta de legitimidade.
Steve Witkoff has no background in diplomacy but has turned out to be the most effective American diplomat in a generation. Here’s how he’s trying to resolve the conflicts in Gaza and Ukraine.
(0:00) What Witkoff Has Learned as Trump’s Global Negotiator
(4:10) Negotiating With… pic.twitter.com/7AUh4gvwke— Tucker Carlson (@TuckerCarlson) March 21, 2025
No entanto, Zelensky encontra-se nesta situação porque a Ucrânia se encontra sob estado marcial desde o dia da invasão russa, sendo proibido pela constituição ucraniana de marcar eleições que não decorram sob condições de segurança e igualdade de circunstâncias. “Eles concordaram com isso. Haverá eleições na Ucrânia”, afirmou Witkoff, sem detalhes nem explicar como tal poderá acontecer.
Mais assertiva foi a sua garantia de que é ponto aceite entre os ucranianos que o país não se juntará à NATO. “Se houver um acordo de paz, a Ucrânia não pode ser membro da NATO. Penso que isso é amplamente aceite”, disse Witkoff. No entanto, o enviado especial de Trump sugeriu, em alternativa, que Kiev pode ainda assim no futuro beneficiar de garantias de segurança semelhantes oferecidas aos Estados da NATO ao abrigo da cláusula de defesa coletiva do artigo 5º da aliança.
Witkoff deixou como garantia pessoal a crença de que a Rússia não quer “100%” travar uma guerra na Europa ou “absorver totalmente a Ucrânia”. De resto, o enviado especial de Trump sublinhou como o presidente dos EUA tem prosseguido uma política muito diferente da do seu antecessor Joe Biden em relação a Moscovo. “Quem não quer ter um mundo onde a Rússia e os Estados Unidos estejam a fazer coisas boas em colaboração?”, disse.
A esse propósito, Witkoff manteve o mesmo intuito diplomático quanto a Vladimir Putin. Quanto ao líder russo, considerou que não é o único responsável pela guerra na Ucrânia — “é uma situação complicada, que inclui a guerra e todos os ingredientes que a originaram. Nunca se trata apenas de uma pessoa”, sugeriu — e que não o considera “uma má pessoa”, caracterizando-o como um “tipo super inteligente” e que foi “gracioso” da sua parte russo recebê-lo em Moscovo para negociações no início deste mês.
No decurso desse tête-à-tête, o enviado especial de Trump disse que a conversa tomou uma toada “pessoal”, já que Putin “encomendou um belo retrato do Presidente Trump a um dos maiores artistas russos” e deu-lho para entregar em Washington. Além disso, Witkoff revelou ainda que após a tentativa de assassinato de que Trump foi alvo durante a campanha presidencial em setembro, Putin terá ido “à sua igreja local, encontrou-se com o padre e rezou” por Trump, “não porque ele… pudesse tornar-se presidente dos Estados Unidos, mas porque tinha uma amizade com ele”. Como reação, Trump ficou “claramente comovido”.
A “fratura” em Israel, as motivações do Hamas e a solução que pode não o ser
Numa fase inicial da entrevista a Carlson, porém, o tema esteve centrado naquela que é a ocupação de base de Steve Witkoff na sua função enquanto diplomata ao serviço da Casa Branca: o conflito entre Israel e o Hamas.
Um dos aspetos mais interessantes foi a observação de que o aparente maior foco do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu em eliminar o Hamas do que garantir o regresso dos 59 reféns que permanecem na Faixa de Gaza está a “fraturar Israel”. “Tem feito um trabalho excecional neste domínio. Mas a crítica que lhe é feita é que está mais preocupado com a luta do que com os reféns”, explicou, adiantando: “Acho que Bibi sente que está a fazer a coisa certa, mas está a ir contra a opinião pública… porque esta quer que os reféns voltem para casa”, disse. Apesar de não concordar com essa avaliação, Witkoff diz compreendê-la, pois a questão dos reféns “está a cortar a alma do país”, declara.
Witkoff disse também que, discordando naturalmente das ações do Hamas — especialmente as tomadas no 7 de outubro —, quis percebê-las para melhor encarar as negociações que tem feito com o grupo islâmico sob intermediação do Qatar. “Temos de saber o que o Hamas quer… e depois temos de descobrir o que lhes podemos dar que lhes permita sair, porque é isso que é necessário aqui”, disse.
“O que é que o Hamas quer? Acho que querem ficar lá até ao fim dos tempos. Querem governar Gaza, e isso é inaceitável, afirmou Witkoff, considerando que a sua desmilitarização é o único caminho aceitável. “Depois, talvez pudessem ficar lá um bocadinho… envolver-se politicamente”, arriscou.
A este respeito, o enviado de Trump recusa a ideia de que o Hamas é “ideologicamente intratável” e que está “à procura de alternativas” à atual situação. “O que ouvimos no início deste conflito é que o Hamas é ideológico, que está preparado para morrer por uma série de razões. Eu, pessoalmente – e falei com o Presidente sobre isto… disse-lhe: ‘Não creio que eles estejam tão fechados ideologicamente’. Eles não são ideologicamente intratáveis. Nunca acreditei nisso”, adiantou.
No entanto, Witkoff responsabiliza o Hamas pelo atual retomar do conflito na Faixa de Gaza devido à forma como o final do primeiro cessar-fogo foi encarado. “Apresentámos uma ponte que era razoável, para chegar à desmilitarização e a uma trégua duradoura. A reação do Hamas foi completamente inapropriada”, atirou. “A entrada dos israelitas [em Gaza] é, em certos aspetos, infeliz, mas, noutros aspetos, ‘tinha de ser’”.
Em causa está a recusa do Hamas em aceitar uma extensão da primeira fase do cessar-fogo até ao feriado da Páscoa do próximo mês, juntamente com a libertação de cinco reféns vivos e de um grande número de prisioneiros palestinianos de segurança. Pelo contrário, o grupo islâmico queria manter os termos originais do acordo que Witkoff ajudou a assinar em janeiro, que deveria ter dado início às negociações sobre uma segunda fase, cerca de duas semanas após o cessar-fogo. Israel, contudo, recusou tal alternativa, uma vez que uma segunda fase obrigaria as IDF a retirar totalmente as suas tropas de Gaza e a concordar com o fim permanente da guerra.
Quanto ao futuro de Gaza — e tendo em conta os planos que Trump adiantou quanto à possível deslocalização de todos os palestinianos para fora da região —, Witkoff foi bem mais opaco, elogiando apenas o presidente dos EUA por ter “aberto a discussão” quanto ao pós-guerra.
Witkoff, porém, deixou dúvidas quanto à viabilidade da solução de dois Estados para depois do conflito. “Quando se usam essas palavras, é um ponto de inflamação. Para mim, é apenas uma palavra. Para mim, ‘dois Estados’ significa como podemos ter uma vida melhor para os palestinianos que vivem em Gaza”, afirmou. “Não podemos reconstruir Gaza com base num sistema de assistência social. Temos de dar perspetivas às pessoas, perspetivas económicas e financeiras”. “Temos de dar oportunidades às pessoas ou encontrar caminhos para essas oportunidades. Vamos tentar determinar diferentes planos de desenvolvimento. Pode envolver dois Estados, pode não envolver dois Estados”, concluiu.