A bordo de um barco improvisado, munido de uma GoPro e movido pela maré e pelo desejo de aventura, o norte-americano Mykhailo Viktorovych Polyakov rumou em direção à ilha da Sentinela do Norte, no arquipélago de Andaman e Nicobar, com a missão de tentar chegar à “tribo mais isolada do mundo”, os Sentineleses. Inspirado pelas peripécias de Tintin, colocou a vida em risco em prol da adrenalina e saiu intacto, mas talvez só fisicamente — o capricho pode valer-lhe até cinco anos de prisão.

Segundo o The Telegraph, Polyakov manteve-se em alto mar durante nove horas, mas só pisou território sentinelês por instantes — tempo suficiente, no entanto, para deixar a sua marca ocidental nas areias da ilha. Deixou como “oferendas” uma lata de Coca-Cola e um coco, recolheu amostras de areia e gravou um vídeo na sua câmara, mais tarde apreendida pelas autoridades, em que declara: “Eu desembarquei aqui. Sou um viajante solitário. Ninguém desembarcou aqui antes. Isto é anticlimático. Ninguém fez isto antes”.

O turista norte-americano, de 24 anos, chegou a Port Blair, a capital das ilhas de Andaman e Nicobar, território indiano na baía de Bengal, a 26 de março. Prosseguiu a sua expedição a partir da praia de Kurma Dera, três dias depois, fazendo uso de um barco insuflável, no qual foi instalado um motor antes da partida. A viagem foi planeada meticulosamente: Mykhailo estudou as condições marítimas, as marés e os pontos de acesso da ilha, tendo usado um sistema GPS para navegar as águas.

Chegou à costa nordeste da ilha proibida por volta das 10h. Tentou avistar os sentineleses a partir do seu barco com binóculos, mas não havia sinal da tribo. Recorreu a outras medidas. Durante mais de uma hora, soprou o seu apito na esperança de avistar os misteriosos aborígenes. Não aconteceu. Mykhailo saiu da ilha desiludido, mas incólume.

Quando finalmente regressou à praia de Kurma Dera, por volta das 19h, foi avistado por pescadores, que o denunciaram às autoridades.

Hargobinder Singh Dhaliwal, diretor-geral da polícia de Andaman e Nicobar, disse ao The Telegraph que, se for condenado, Polyakov pode enfrentar “entre três a cinco anos de prisão”. O turista foi presente a tribunal na segunda-feira e será novamente ouvido no sábado, segundo o The Daily Mail.

“Estamos a receber mais informações sobre ele e sobre a sua intenção ao visitar a área tribal reservada. Estamos também a tentar descobrir que outros locais visitou durante a sua estadia nas ilhas. Estamos a questionar a equipa do hotel onde ficou em Port-Blair, disse um porta-voz da polícia ao The Telegraph.

A polícia abriu um processo contra Mykhailo Polyakov por violações da lei de proteção das tribos aborígenes e informou o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a embaixada dos Estados Unidos.

Caroline Pearce, a diretora do grupo para os direitos indígenas Survival International, disse que a tentativa de Polyakov de contactar a tribo foi “profundamente perturbadora”.

“É inacreditável que alguém possa ser tão imprudente e idiota. As ações desta pessoa não só colocaram em risco a sua própria vida, como também as vidas de toda a tribo sentinelesa”, defendeu. “É sabido que os povos isolados não têm imunidade a doenças externas comuns, como gripe ou sarampo, que poderiam exterminá-los completamente”.

Não é a primeira vez que o norte-americano tenta contactar tribos indígenas no arquipélago de Andaman e Nicobar. Em janeiro, viajou até à ilha de Baratang e filmou ilegalmente membros da tribo Jarawa.

Em outubro de 2024, preparou uma missão de reconhecimento com um caiaque insuflável, mas foi impedido de viajar pela equipa do hotel. No mesmo mês, publicou uma imagem no seu canal de Youtube com a legenda “Um pequeno teaser do Dia do Colombo para os fãs”, que consistia num desenho animado, no estilo de As Aventuras de Tintin, que mostrava um rapaz, acompanhado de um cão, a bordo de um barco a motor, a aproximar-se de uma ilha parecida com a da Sentinela do Norte.

O seu canal, “Neo-Orientalist” (referência ao conceito de neo-orientalismo — a forma como os países ocidentais retratam o mundo oriental de forma estereotipada), contém vídeos de outras aventuras arriscadas, uma memória visual do chamado “turismo de risco” — que inclui uma série de vídeos com o título “O Afeganistão controlado pelos talibãs pelos olhos de um americano”, onde se pode observar o turista durante uma road trip de três semanas no país. Algumas imagens mostram-no acompanhado por militantes islamistas, empunhando uma metralhadora.

John Allen Chau, o evangélico que morreu pela missão de Deus

No dia 16 de novembro de 2018, um jovem evangélico de 26 anos embarcou naquela que seria a sua última jornada pelo cristianismo. Determinado a converter a misteriosa tribo à sua religião, John Allen Chau navegou até à ilha da Sentinela do Norte com a ajuda de sete pescadores, que contratou para que o levassem ao seu destino a bordo de um caiaque.

John estava bem preparado: levou tesouras, alfinetes, uma Bíblia e até uma bola de futebol. Mas não foi suficiente para impedir o seu trágico fim.

Na sua primeira visita à ilha, deixou a bola de futebol e um peixe como oferendas. Interagiu com alguns dos tribais, até alguma coisa espoletar a ira dos locais — dispararam uma flecha, que atingiu as páginas da sua Bíblia, dando-lhe uma janela de oportunidade para fugir até ao seu barco. Uma vez seguro, documentou a experiência e a sua vontade, intensificada pela adrenalina, de chegar aos sentineleses.

No dia seguinte, voltou. Não se sabe o que aconteceu durante o tempo em que permaneceu na ilha, mas, na manhã seguinte, os pescadores que o tinham ajudado viram os tribais a arrastá-lo pela areia, sem sinal de vida. O corpo de John Allen Chau permanece na ilha até aos dias de hoje.

Os últimos dias de John, o homem que a tribo mais isolada do mundo matou

A tribo mais isolada do mundo

Os sentineleses ganharam reconhecimento mundial aquando do tsunami de 2004 no Oceano Índico. Quando um helicóptero sobrevoou a ilha numa tentativa de se certificar de que a tribo se encontrava sã e salva, um dos seus membros reagiu disparando flechas, num gesto silencioso que, simultaneamente, simbolizava a vontade do povo indígena de se manter isolado e autossuficiente.

Apesar de a informação sobre a tribo ser escassa, pensa-se que esta tenha entre 50 a 200 membros e que descenda diretamente das primeiras populações humanas em África, tendo provavelmente ocupado o território da ilha da Sentinela do Norte desde há 60.000 anos. A língua que falam é completamente distinta de qualquer outra falada pelas tribos que residem nas ilhas vizinhas — o que sugere que não tenham contacto com humanos fora do seu grupo há milhares de anos.

Sentineleses, a tribo indígena que o resto do mundo está proibido de conhecer

O grupo indígena é considerado o último povo pré-neolítico e o mais isolado de que se tem conhecimento, e é frequentemente descrito como sendo “selvagem”, “perigoso” ou “retrógrado”. Contudo, a sua hostilidade com estranhos é justificada: as poucas interações que tiveram com o mundo exterior foram violentas e pouco produtivas.

Um exemplo é um episódio de 1879, quando um casal de idosos e algumas crianças foram levadas à força para a capital do arquipélago, Port Blair. O agente colonial responsável pelo sequestro escreveu que o grupo inteiro “adoeceu rapidamente, o homem e a sua esposa morreram, e as quatro crianças foram mandadas de volta para casa”. Apesar de ter sido responsável pela morte de pelo menos duas pessoas, e, possivelmente, de começar uma epidemia entre os ilhéus, o agente não expressou qualquer tipo de remorso, tendo apenas comentado sobre a “expressão peculiarmente idiota do semblante e a maneira de se comportar” da tribo sentinelesa.

Porém, esta posição foi contrariada por um vídeo dos Sentineleses na praia da ilha, gravado durante uma “expedição de contacto” do governo indiano na década de 90, que mostra que o povo indígena é saudável, próspero e alerta, em contraste com duas tribos de Andaman que aceitaram contacto com a civilização ocidental, os Onge e os Grandes Andamaneses, que são agora dependentes de ajuda externa para sobreviver.

Texto editado por Carlos Diogo Santos