Não são só os números de mortes — mais 3.100 — ou de deslocados — 3,5 milhões — que fazem o balanço do sismo de magnitude 7.7. na escala de Richter, que a 28 de março abalou regiões de Myanmar onde vivem 28 milhões de pessoas. Um dos mais fortes terramotos registados na antiga Birmânia num século reduziu a escombros edifícios e infraestruturas, arrasou comunidades e deixou sem comida, água, abrigo ou cuidados médicos uma parte significativa da população que excede em muito a ajuda disponível. E isto num país em conflito civil desde 2021 faz com que as Nações Unidas falem numa “catástrofe” particularmente em áreas fora do controle da Junta Militar no poder.

Centenas de organizações humanitárias estão há uma semana a tentar responder às necessidades da população no terreno, o suficiente para deixarem um alerta: os recursos são escassos para responder às mais de 20 milhões de pessoas afetadas pelo sismo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 80% dos hospitais em Myanmar ficaram danificados ou destruídos pelo sismo. Esta quinta-feira, chegou ao país o primeiro carregamento de material médico. Nos próximos dias devem chegar mais. Ainda assim, Elena Vuolo, vice-representante da OMS em Myanmar, explica que estes recursos são insuficientes, especialmente quando o país se aproxima da época de pico de calor.

Às condições climatéricas junta-se a falta de saneamento, o que leva a OMS a admitir que há um risco de a população em Myanmar ser atingida por surtos. Ao Observador, Vuolo fala “numa crise em cima de uma crise” e conta que “no ano passado houve um surto de cólera, em Mandalay. Isto aconteceu em condições ditas ‘normais’, ou seja, em condições que, antes do terramoto, já eram precárias. No entanto, ainda havia hospitais a funcionar. Agora podemos dizer que a situação piorou, já que estamos a trabalhar em condições ainda mais limitadas”.

Ao Observador, Catarina Camarinhas, responsável pela UN Habitat — um programa das Nações Unidas para a área da habitação e do urbanismo — explica que “no momento de crise temos de dar apoio imediato, como por exemplo abrigos temporários; tentar arranjar soluções de acesso a água. Os meus colegas estão neste momento no terreno a tentar trazer comida às pessoas: comida seca, água, aquelas coisas básicas. Mas ao mesmo tempo estamos a iniciar também o levantamento das estruturas mais críticas”.

Camarinhas explica que o último levantamento feito pela UN Habitat em Myanmar, na sequência do terramoto, demonstrava que precisam de reconstrução “21.800 edifícios habitacionais, 1.040 escolas e 48 hospitais”. Segundo a responsável, “agora é um momento crítico em que temos de começar a avaliar o cadastro de propriedade e a começar a ver onde é que se pode colocar os abrigos temporários. É muito fundamental evitar que se façam agora bairros de lata. É assim que começam os problemas como aconteceu no Haiti”, que também sofreu um sismo violento há 15 anos.

O bloqueio da ajuda humanitária

As condições para prestar auxílio no terreno são agravadas pela situação política de Myanmar. Vários ativistas no terreno relataram a publicações internacionais, como o New York Times e o The Guardian, que a Junta Militar tem impedido a entrada de ajuda humanitária no país. E esta sexta-feira foi a vez de as Nações Unidas o confirmarem, avançou a Reuters.

Ao Observador, um dos membros do Governo de Unidade Nacional, um dos grupos da oposição, afirma que “as buscas no terreno não estão a correr muito bem, porque a Junta Militar está a bloquear as equipas de resgate e a ajuda humanitária. Estão até a bloquear voluntários. As pessoas não têm comida, água potável ou abrigos. As previsões meteorológicas também não são favoráveis. Portanto, estamos preocupados”.

Na terça-feira, a Junta Militar confirmou a notícia de que uma equipa de nove elementos da Cruz Vermelha Chinesa foi atacada. O porta-voz, o general Zaw Min Tun, afirmou que a organização não informou as autoridades de que iria passar por uma das zonas de conflito e uma equipa de segurança terá disparado tiros para o ar como forma de advertência. Não há registo de feridos. Entretanto, na quarta-feira, foi anunciado um cessar-fogo de 20 dias.

Mas, o Gabinete do Alto Comissariado das ONU para os Direitos Humanos afirmou esta sexta-feira que estava a investigar 61 ataques da junta contra os seus opositores desde o terramoto de 28 de março, incluindo ataques aéreos, dos quais pelo menos 16 ocorreram após essa trégua iniciada a 2 de abril.

“A situação humanitária nas zonas atingidas pelo terramoto, especialmente nas que estão fora do controlo militar, é catastrófica”, disse aos jornalistas em Genebra a porta-voz do gabinete dos direitos humanos da ONU, Ravina Shamdasani, citada pela Reuters.

Desde 2021 que Myanmar está sob controlo do exército, que tomou o poder do por via de um golpe de Estado. De acordo com a BBC, a Junta Militar controla 21% do território, o que inclui as zonas mais afetadas pelo sismo, como as regiões de Mandalay, Sagaing, Shan e Nay Pyi Taw. O resto do território (42%) é uma manta de retalhos controlada por diferentes grupos de minorias étnicas e por várias milícias. De acordo com dados das Nações Unidas, mais de 3 milhões de pessoas foram obrigadas a sair de casa por causa da guerra civil; mais de 5 mil pessoas morreram na sequência do conflito e há ainda registo de pelo menos 21 mil presos políticos.

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O quinto país em maior risco de crise humanitária

Antes do sismo, o Programa Mundial de Alimentos estimava que mais de 15 milhões de pessoas — um quarto da população — estava numa situação de insegurança alimentar. No ano passado, Myanmar era o quinto país do mundo em maior risco de crise humanitária. Os dados são do Comité Internacional de Resgate, que todos os anos publica um ranking dos 20 países em maior risco de crise humanitária. Segundo a mesma fonte, em 2024, um terço da população precisava de ajuda.

Desde 2021 que a economia de Myanmar está em contração. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, quase metade da população vive abaixo do limiar da pobreza — 49,7% das pessoas vive com 1590 kyats por dia, ou seja, menos de 70 cêntimos quando convertemos para euros. De acordo com os últimos dados do Fundo Monetário Internacional, a inflação no país está na ordem dos 14%. Para isso contribuiu em especial o aumento do preço do arroz — subiu 87% em 2023 —, um dos produtos mais consumidos em Myanmar.

Uma das razões que explica este aumento dos preços, em especial dos bens alimentares, é a frequência com que Myanmar é atingido por desastre naturais. Em maio de 2023, o país do sudeste asiático foi atingido pelo ciclone Mocha, que destruiu plantações e afetou a alimentação de mais de 3 milhões de pessoas. Por causa da localização geográfica e das condições meteorológicas, Myanmar é um país com maior risco de ser atingido, nos próximos anos, por mais desastres naturais. De acordo com a estratégia de alterações climáticas das Nações Unidas para 2018-2030,  prevê-se que nos próximos anos aumente a temperatura média e que fenómenos como ciclones sejam mais frequentes.