Largas centenas de crianças ucranianas estão a ser treinadas para serem “futuros defensores da pátria-mãe” – a Rússia, revela uma reportagem do espanhol El Confidencial. Moscovo tem, desde a invasão da Ucrânia, investido somas elevadas em programas de “Educação Patriótica” nas zonas ocupadas na Ucrânia e, também, no treino militar de crianças e jovens (menores) que terão sido levados da Ucrânia para Bielorrússia.

Organizações não-governamentais e testemunhos no local confirmaram à reportagem do El Confidencial aquilo que é visível em imagens que têm sido colocadas nas redes sociais. Um dos vídeos mostra um conjunto de adolescentes fardados encostados à parede, em postura militar, enquanto ouvem o hino da Rússia – momentos depois, um outro menor marcha à frente do grupo hasteando uma bandeira da Rússia. De acordo com o jornal, todas estas crianças são, na verdade, ucranianas que, no final do vídeo, são vistas a receber um diploma pela sua participação num treino militar.

O vídeo terá sido filmado há poucas semanas, em março, enquanto se negociava um possível acordo de paz que, entre as suas várias cláusulas, levaria a Rússia a ter de devolver os milhares de crianças ucranianas que, segundo Kiev, terão sido retiradas às suas famílias durante a ocupação. A Ucrânia diz que muitas dessas crianças terão sido levadas para a Bielorrússia onde estarão a ter o mesmo treino militar que está a ser dado nas zonas da Ucrânia que estão sob controlo militar russo.

Melitopol, cidade a sul de Zaporíjia onde este vídeo terá sido captado, é uma dessas zonas sob ocupação russa desde 2022. O vídeo foi partilhado, originalmente, por um portal noticioso chamado “Melitopol-news.ru” e a voz off descreve que os jovens – que têm, no máximo, 15 anos – são “os futuros defensores da pátria-mãe”.

Dados de organizações não-governamentais citadas pelo El Confidencial, referem que mais de um milhão de crianças estão a estudar, com estas idades, nas zonas ocupadas da Ucrânia. A esse número deve juntar-se as mais de 19.000 crianças que, segundo a mesma fonte, foram “raptadas e deportadas ilegalmente” dos territórios ucranianos para a Rússia ou Bielorrússia. Algumas dessas crianças são órfãs, outras foram retiradas aos pais e ainda têm família na Ucrânia.

Um estudo da Universidade de Yale, citado pelo El Confidencial, rastreou a trajetória de mais de 30 mil crianças levadas para fora da Ucrânia, em autocarros e comboios. E sabe-se que em 2023 a Rússia confirmou – e congratulou-se publicamente – por ter deslocado “700.000 crianças” da Ucrânia para o interior da Rússia, ajudando-as a “fugir das bombas”.

Em 2024, o Kremlin reforçou em cerca de 46 mil milhões de rublos (490 milhões de euros) o financiamento da chamada “Educação Patriótica”, incluindo mais dinheiro para o “Exército da Juventude”. Desde 2014, ano em que a Rússia avançou para a anexação da Crimeia, o financiamento da “Política de Juventude” aumentou quase 100 vezes, de 7,6 milhões para quase 768 milhões.