Largas centenas de crianças ucranianas estão a ser treinadas para serem “futuros defensores da pátria-mãe” – a Rússia, revela uma reportagem do espanhol El Confidencial. Moscovo tem, desde a invasão da Ucrânia, investido somas elevadas em programas de “Educação Patriótica” nas zonas ocupadas na Ucrânia e, também, no treino militar de crianças e jovens (menores) que terão sido levados da Ucrânia para Bielorrússia.
Organizações não-governamentais e testemunhos no local confirmaram à reportagem do El Confidencial aquilo que é visível em imagens que têm sido colocadas nas redes sociais. Um dos vídeos mostra um conjunto de adolescentes fardados encostados à parede, em postura militar, enquanto ouvem o hino da Rússia – momentos depois, um outro menor marcha à frente do grupo hasteando uma bandeira da Rússia. De acordo com o jornal, todas estas crianças são, na verdade, ucranianas que, no final do vídeo, são vistas a receber um diploma pela sua participação num treino militar.
These are Ukrainian children, kidnapped from their families in occupied territories and indoctrinated by Russia.
Russia will use them to send into battle to fight Ukrainians where they will die in old soviet meat-wave tactics. #RussiaIsATerroristState pic.twitter.com/efnkyHtLjA
— Bricktop_NAFO (@Bricktop_NAFO) March 17, 2025
O vídeo terá sido filmado há poucas semanas, em março, enquanto se negociava um possível acordo de paz que, entre as suas várias cláusulas, levaria a Rússia a ter de devolver os milhares de crianças ucranianas que, segundo Kiev, terão sido retiradas às suas famílias durante a ocupação. A Ucrânia diz que muitas dessas crianças terão sido levadas para a Bielorrússia onde estarão a ter o mesmo treino militar que está a ser dado nas zonas da Ucrânia que estão sob controlo militar russo.
Melitopol, cidade a sul de Zaporíjia onde este vídeo terá sido captado, é uma dessas zonas sob ocupação russa desde 2022. O vídeo foi partilhado, originalmente, por um portal noticioso chamado “Melitopol-news.ru” e a voz off descreve que os jovens – que têm, no máximo, 15 anos – são “os futuros defensores da pátria-mãe”.
Dados de organizações não-governamentais citadas pelo El Confidencial, referem que mais de um milhão de crianças estão a estudar, com estas idades, nas zonas ocupadas da Ucrânia. A esse número deve juntar-se as mais de 19.000 crianças que, segundo a mesma fonte, foram “raptadas e deportadas ilegalmente” dos territórios ucranianos para a Rússia ou Bielorrússia. Algumas dessas crianças são órfãs, outras foram retiradas aos pais e ainda têm família na Ucrânia.
Um estudo da Universidade de Yale, citado pelo El Confidencial, rastreou a trajetória de mais de 30 mil crianças levadas para fora da Ucrânia, em autocarros e comboios. E sabe-se que em 2023 a Rússia confirmou – e congratulou-se publicamente – por ter deslocado “700.000 crianças” da Ucrânia para o interior da Rússia, ajudando-as a “fugir das bombas”.
Em 2024, o Kremlin reforçou em cerca de 46 mil milhões de rublos (490 milhões de euros) o financiamento da chamada “Educação Patriótica”, incluindo mais dinheiro para o “Exército da Juventude”. Desde 2014, ano em que a Rússia avançou para a anexação da Crimeia, o financiamento da “Política de Juventude” aumentou quase 100 vezes, de 7,6 milhões para quase 768 milhões.