Telmo Faria foi cabeça de lista da Aliança Democrática nas eleições legislativas de há um ano, mas desta vez ficou de fora. O deputado do PSD e presidente da comissão parlamentar de Assuntos Europeus atira ao peso da distrital na construção das listas e não aceitou ficar atrás do presidente da estrutura de Leiria, Hugo Oliveira. “Houve uma vitória de alguns caciques locais”, atira em entrevista ao Observador, com críticas ao modo de funcionamento dos partidos na Assembleia da República.

Sem críticas diretas a Luís Montenegro, Telmo Faria diz que se sentiu “despromovido” na construção das listas deste ano, e garante que “não é uma perspetiva pessoal” mas sim a necessidade dos partidos em “trazer gente nova, valorizar a experiência pessoal e técnica”, que diz que falta no Parlamento. Convidado por Luís Montenegro há um ano, diz que agora entendeu que “devia ceder o lugar de cabeça de lista porque havia um princípio político de dar protagonismo aos membros do Governo“, mas não ficou satisfeito com a ordem dos lugares abaixo.

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PSD. Telmo Faria: “Vitória foi de alguns caciques”

Ao Observador, o antigo presidente da Câmara de Óbidos durante 12 anos garante que “podia ser o número 3 de alguma novidade ou alguém cheio de competências técnicas”, mas que “ser presidente de distrital não é uma competência que reconheça como trazendo uma grande vantagem para o partido, para o momento eleitoral e para o Parlamento” e por isso, “em coerência” anunciou a saída.

O deputado social democrata procura vincar que o lugar não é a questão em causa, até porque “ser eleito em número 2, 3 ou 4 em Leiria, não tem nenhum problema. Há um ano a AD teve 5 deputados em 10”, aproveitando para puxar dos galões: “Foi um resultado extraordinário. A questão não era o lugar”, mas sim “uma certa invasão das distritais do partido” que “como se diz numa certa gíria: é uma vitória de alguns caciques locais sobre o que deve predominar”.

Convidado há um ano para regressar à política ativa depois de ter deixado a autarquia de Óbidos em 2013 — pelo meio foi um dos homens fortes de Santana Lopes na disputa pelo PSD contra Rui Rio –, Telmo Faria reconhece “o esforço” feito por Luís Montenegro para recrutar pessoas de fora do aparelho partidário nas listas do ano passado, mas agora lamenta que não se tenha repetido esse esforço.

Entre os exemplos, o presidente da comissão de Assuntos Europeus aponta o nome de Liliana Reis — cabeça de lista por Castelo Branco que agora também ficou fora das listas –, e que “era a única pessoa com formação superior na área da Defesa e da Política Externa”, mas que nunca participou em iniciativas de cooperação com a NATO, para avisar que o “critério da competência não prevalece”.

Para o deputado do PSD estas críticas não são exclusivas para o partido, mas transversais ao modo de funcionamento dos grupos parlamentares, atirando que muitas vezes “o que os deputados conversam uns com os outros nos corredores é diferente do que se passa na sessão plenária”, criticando o “exagero” na disciplina de voto que por vezes é “sequestrado” pelas lideranças parlamentares. E dá o exemplo do caso do fim das portagens nas SCUT, em que os deputados dessa região não puderam votar a favor mesmo sem terem influência no resultado final (projeto acabou por ser aprovado com os votos do PS e do Chega).

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“PSD deve refletir” sobre acordos à direita

Apesar da comissão que preside ainda estar em funcionamento na Assembleia da República, com audições sobre o Conselho Europeu, Telmo Faria já está a passar a pasta e sem integrar as listas da coligação entre o PSD e o CDS nestas legislativas, não deixa de dizer que o “PSD deve refletir muito” sobre como garantir estabilidade, atirando que “o Parlamento tem 60% de deputados de direita“, abrindo a porta a um acordo com o Chega.

O antigo autarca diz que “o PSD lutou com 80 deputados contra 150” e que o resultado foi uma legislatura que durou apenas um ano. Por isso, “o Chega tem que ser posto à prova, sendo chamado a determinadas políticas consideradas por um amplo espectro do sistema partidário e eliminar as mais radicais e populistas” e que o PSD “não deve estigmatizar ninguém” e deve “construir soluções de governabilidadade”, através de “soluções parlamentares sólidas”.

Pelo meio, o deputado do PSD deixa elogios a Luís Montenegro que considera ser um “grande pensador da ação política” e por isso encaixar bem no papel de primeiro-ministro. Já sobre a polémica com a empresa Spinumviva diz que “não pode ser o tema principal de campanha” embora reconheça falhas no timing de resposta à polémica.