“Tu és um homem. Um homem como eles!” Em 2023, o exército russo lançou um vídeo cujo objetivo era convencer cidadãos russos a alistarem-se no exército e combaterem na Ucrânia, oferecendo também um salário de 205 mil rublos (cerca de 2.100 euros por mês).

Na mesma altura, foi criada uma versão chinesa do mesmo vídeo que foi primeiramente partilhada na rede social Weibo e, entretanto, já se espalhou para outras plataformas, como a rede chinesa Hupu, nunca tendo deixado de circular . É assim, segundo o jornal britânico The Guardian, que a Rússia procura espalhar a sua mensagem para convencer cidadãos chineses a juntarem-se às fileiras russas.

No víde, surgem diferentes homens a praticar profissões que podem ser potenciadas dentro do exército, como segurança, personal trainer ou taxista. “Sonhas em ser um guardião assim? Queres mostrar poder aqui? É este o caminho que queres escolher?”, pode-se ler nas legendas. As imagens, essas, transitam entre estas profissões civis e homens armados e fardados a servir no exército da Rússia.

Estes vídeos russos direcionados para públicos na China ganharam uma nova relevância quando, esta quarta-feira, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, anunciou a captura de dois cidadãos chineses que estavam a lutar entre os batalhões russos dentro do território da Ucrânia. A China negou que quaisquer cidadãos do país estejam a combater mas, segundo Zelensky, estes não foram casos isolados.

“Até à data, temos dados precisos sobre mais de 150 cidadãos chineses que estiveram envolvidos na guerra da Rússia contra a Ucrânia. Sabemos que o número real é mais elevado”, escreveu Zelensky na rede social X no mesmo dia. Já esta quinta-feira, Zelensky voltou a falar do assunto e disse mesmo que o recrutamento era “sistemático”, vindo diretamente da Rússia e funcionando dentro do território chinês.

Um dos prisioneiros de guerra chineses, detido pelas forças ucranianas na região de Luhansk, relata uma história parecida. Num comunicado do Grupo Tático Operacional de Luhansk citado pelo jornal Ukrainska Pravda, lê-se que o prisioneiro chinês contou que terá pago 300 mil rublos (pouco mais de 3.200 euros) a um intermediário na China só para ter a oportunidade de ir para guerra.

Depois de ter pago, o soldado foi enviado para a Rússia para receber treino militar e, logo depois, seguir para a frente de batalha, sem aprender russo e sem tradutor pessoal, só com um “tradutor móvel” para comunicar. A razão para decidir ir para a guerra, lê-se ainda no comunicado, era servir o exército e obter a nacionalidade russa.

As afirmações de Zelensky e do chinês capturado parecem corroborar os dados da espionagem ucraniano a que o El País teve acesso, que indicam que a Rússia promove “um programa de recrutamento de homens residentes na China” e que os recruta através das redes sociais”. Depois, segundo os mesmos dados, a Rússia “facilita” a viagem dos recrutas para Moscovo, onde recebem treino antes de irem combater.

Já noutro vídeo com o mesmo objetivo, relatou o The Guardian, uma influencer russa com mais de 300 mil seguidores elogia os benefícios financeiros para quem se alista no exército russo. “Em Moscovo, qualquer pessoa com menos de 60 anos de idade pode inscrever-se, independentemente de ter prestado serviço militar no estrangeiro. Os cidadãos estrangeiros e russos podem inscrever-se voluntariamente”, disse ainda. Vários comentários faziam perguntas sobre como também se podiam juntar ou se havia um intermediário na cidade deles.

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“Se morrer, então assim seja”

Numa entrevista publicada no Youtube, a jornalista chinesa Chai Jing entrevistou um homem que decidiu sair da China e ir para a Ucrânia em novembro de 2023 — e que estaria, segundo o próprio, num bunker em Bakhmut. “Muitos estão profundamente endividados e vêm para aqui com nada a perder”, contou o soldado, identificado com o pseudónimo “Macaron”, defendendo que os benefícios financeiros dados pelo exército a quem vai para o terreno é o que motivam muitos chineses a ir combater.

No caso de “Macaron”, no entanto, o que o motivou mesmo era a vontade de combater, sendo o seu destino original muito diferente das forças da Rússia. “Eu sempre quis ir para França e juntar-me à Legião Estrangeira do exército francês. Esse era o meu plano na altura, mas conseguir um visto era sempre muito complicado”, conta.

Questionado pela jornalista sobre se se teria juntado às tropas ucranianas se fosse fácil arranjar um visto, “Macaron” respondeu que “sim”. “É perfeitamente possível”.