Em novembro de 2024, um grupo especial da polícia da Bósnia-Herzegovina entrou no quarto de Alexander Bezrukavyi e deteve o russo suspeito de integrar uma rede que escondia explosivos em brinquedos sexuais, cosméticos e almofadas de massagem. A sabotagem provocou três incêndios em diferentes localizações, em julho do ano passado.
O plano, agora revelado pelo The Guardian, levou a uma grande operação de várias autoridades de diferentes países europeus que suspeitam que o grupo criminoso era liderado pelo GRU, a agência de inteligência militar estrangeira das Forças Armadas russas.
Bezrukavyi estava em fuga há mais de três meses e, antes de ser detido, chegou a enviar uma mensagem à mulher a dizer que iam estar reunidos na Rússia em breve, contactou amigos e ultimou o plano para regressar a casa. O russo estava escondido numa casa numa pequena localidade bósnia, perto da fronteira com a Croácia, depois de ter caminhado dois dias pela floresta dos balcãs.
O criminoso russo cresceu em Rostov-on-Don, perto da fronteira com a Ucrânia, onde somou vários problemas com a polícia: desde posse ilegal de armas a roubos e crimes relacionados com droga. Chegou a estar detido e, antes de poder ser novamente capturado pelas autoridades, fugiu para a Ucrânia, onde se manteve discreto até partir para a Moldávia, em fevereiro de 2024.
Em maio, entrou no espaço Shcengen pela Croácia e obteve visto de residência em Espanha, como revelado pelo The Guardian, após simular um casamento com uma mulher ucraniana.
Impedido de regressar à Rússia, onde ainda era procurado, continuou na Europa, como revelou ao jornal inglês a sua mulher verdadeira. De Espanha partiu para Varsóvia, onde vivia com amigos e conhecidos ucranianos, pelo menos um deles também com antecedentes criminais.
Sem trabalho, começaram a procurar emprego no verão de 2024 em canais russos do Telegram, onde acabariam por encontrar uma conta anónima chamada VWarrior, que as autoridades polacas acreditam ser controlada por agentes do GRU.
Foi depois de entrarem em contacto com essa conta que, alegadamente sem terem noção disso, passaram a fazer trabalhos para a rede de sabotagem investigada pelas autoridades europeias.
As missões pareciam simples: recebiam listas de objetos que tinham que comprar, recolhiam-nos e empacotavam-nos; o pagamento era feito em criptomoedas. Geralmente, tinham que transportar caixas na Polónia e na Lituânia, mas pelo menos duas vezes foram ordenados a enviar os produtos pela DHL. Mais tarde, as autoridades descobriram que pelo menos uma dessas encomendas tinha um engenho pirotécnico caseiro.
Em julho do ano passado, as autoridades foram alertadas por três explosões em diferentes locais: Birmingham, no Reino Unido; Leipzig, na Alemanha; e Varsóvia, na Polónia. Todos eles tiveram como origem a Lituânia.
A coincidência levantou suspeitas e numa atuação rápida coordenada entre diferentes países começou a ganhar força a suspeita de que a Rússia estaria por detrás de tudo.
Por sorte, as autoridades conseguiram seguir uma nova pista, quando um quarto pacote, escondido entre cosméticos e brinquedos sexuais, foi preparado por um membro da rede, mas não chegou a ser detonado. Recuperado, intacto, num armazém na Varsóvia, os investigadores identificaram Vladyslav Derkavets, ucraniano, como o cidadão que preparou a encomenda.
O papel de Derkavets ou de Bezrukavyi na rede não é claro, mas os entregadores atuaram sempre com o mesmo método em prol da rede criminosa, que continuou a operar enquanto as autoridades europeias procuravam a origem das explosões.
Quando em agosto, Bezrukavyi e Viatcheslav Chabanenko (outro envolvido na rede) foram instruídos a comprar sapatilhas da Nike e roupas desportivas para enviá-las, via DHL, para os EUA e para o Canadá, as autoridades polacas estranharam.
Intuíram que não faria grande sentido enviar produtos norte-americanos, com valores elevados de portes, de novo para o continente americano. Os investigadores polacos descobriram que os pacotes não tinham, apesar de tudo, explosivos: era um teste para tentar fazer este transporte transatlântico.
Diz o The Guardian que assim que a Casa Branca teve conhecimento desta investigação, a administração de Joe Biden falou com homólogos russos para exigir que parassem.
A operação foi liderada pelas autoridades polacas, que acreditam que o plano tinha o objetivo de enviar encomendas (com explosivos) para os Estados Unidos da América e para o Canadá. As forças de segurança de vários países ocidentais acreditam que este procedimento poderia ter provocado a queda de aviões e muitas mortes.
Os detidos alegam que não tinham noção de que estavam a integrar uma rede criminosa russa, sendo que apenas entregavam encomendas para ganhar dinheiro.
“Um russo escondido na Bosnia-Herzegovina, suspeito de coordenar atos de sabotagem contra a Polónia, os EUA e outros aliados, foi extraditado para a Polónia e detido por ordem do tribunal”, descreveu em fevereiro o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, no X.
Rosjanin podejrzany o koordynowanie aktów dywersji skierowanych przeciwko Polsce, USA i innym sojusznikom, ukrywający się w Bośni i Hercegowinie, został deportowany do Polski i aresztowany decyzją sądu. Świetna robota ABW i prokuratury. Rosyjska wroga aktywność potwierdzona.
— Donald Tusk (@donaldtusk) February 14, 2025