“Habemus Papam”, anunciou o protodiácono Dominique Mamberti na varanda da Basílica de São Pedro esta quinta-feira, para logo de seguida revelar o nome do cardeal eleito pelos seus pares, Robert Francis Prevost, e o nome que escolheu como Papa: Leão XIV. Trata-se de uma homenagem do cardeal norte-americano de 69 anos ao “Papa dos Trabalhadores”, Leão XIII, cujo pontificado ficou marcado pelo empenho na doutrina social da Igreja e pelo diálogo com o mundo moderno (dos finais do século XIX) — pontos que o novo Papa assinalou no seu primeiro discurso.

Chamava-se Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci o cardeal que, a 20 de fevereiro de 1878, se tornou o 256.º Papa. Foi o primeiro eleito depois do Risorgimento, movimento que levou ao nascimento de Itália como Estado e provocou a anexação dos até lá Estados Papais. Leão XIII sucedeu ao último Papa-Rei, Pio IX.

Nascido a 2 de março de 1810 em Carpineto Romano, Vincenzo era o sexto filho de uma família burguesa. Estudou na Accademia dei Nobili Ecclesiastici (Academia dos Nobres Eclesiásticos) em Roma e foi ordenado em 1837, assumindo rapidamente funções diplomáticas no Vaticano. Em 1843, já era núncio apostólico na Bélgica, onde acabou por passar apenas três anos: as suas posições sobre políticas educativas, segundo o site OSV, fizeram-no chocar com o então rei Leopoldo I que ordenou a sua expulsão.

Então, Vincenzo tornou-se Arcebispo de Perugia, tendo administrado a cidade e passou mais de 30 anos afastado de Roma (1846-1878). Pelo meio, em 1853, foi nomeado cardeal, e em 1877, camerlengo: a pessoa que gere interinamente o Vaticano quando o Papa morre.

Quando a morte de Pio IX se deu, os cardeais desejavam que o seu sucessor tivesse um pontificado curto, adianta o site OSV, que continuasse as políticas do seu predecessor. A saúde frágil do cardeal Pecci tornou-o perfeito para o cargo: contudo, acabou por viver até aos 93 anos, o que torna o seu pontificado o terceiro mais longo de sempre, atrás dos de Pio IX e de João Paulo II.

Sem Estados Papais, o novo Papa procurou conciliar o Vaticano e a Igreja com o Estado secular e apostou nos esforços missionários, também citados por Leão XIV no primeiro discurso. Leão XIII foi obrigado a reforçar o poder espiritual da Igreja — e não o poder temporal — e a procurar novas estratégias para manter a influência do Vaticano, por exemplo através da diplomacia, recorda o site italiano AGI.

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No seu pontificado, destaca-se a encíclica Rerum Novarum, de 1891, que lhe granjeou o título de Papa dos Trabalhadores: dedicada aos direitos dos operários e à justiça social, defendeu igualdade salarial, condições de trabalho dignas e a formação de sindicatos e é considerada a primeira encíclica social da Igreja.

“Os direitos, em que eles se encontram, devem ser religiosamente respeitados e o Estado deve assegurá-los a todos os cidadãos, prevenindo ou vingando a sua violação. Todavia, na proteção dos direitos particulares, deve preocupar-se, de maneira especial, com os fracos e os indigentes. A classe rica faz das suas riquezas uma espécie de baluarte e tem menos necessidade da tutela pública. A classe indigente, ao contrário, sem riquezas que a ponham a coberto das injustiças, conta principalmente com a proteção do Estado. Que o Estado se faça, pois, sob um particularíssimo título, a providência dos trabalhadores, que em geral pertencem à classe pobre”, lê-se na carta, que foi uma entre as 86 encíclicas divulgadas durante o seu pontificado e que condena ainda o capitalismo mas também o socialismo.

Em 1899, o Papa Leão XIII ficou gravemente doente e os cardeais preparavam-se (de novo) para a sua morte, relata o site Crux. Tinha um quisto inflamado e o Papa acabou por ser convencido a fazer uma cirurgia — só exigiu que durante a operação, fosse celebrada uma missa. Acabou por superar as piores perspetivas dos cardeais e, nos últimos quatro anos do seu papado, presidiu ao primeiro Conselho Plenário da América Latina que daria origem ao Conselho Episcopal Latino-Americano; e criou 32 cardeais, que compuseram metade do conclave que escolheu o seu sucessor, Pio X, que esmagou muitas das reformas por ele iniciadas. Além disso, num contraste com o novo Leão XIV vindo dos EUA, criticou no texto Testem Benevolentiae a alegada heresia do “americanismo” que privilegiava o individualismo, acabando por recordar os católicos americanos da sua ligação a Roma e à igreja universal.

Esta quinta-feira, Leão XIV dedicou o seu pontificado à Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, a cuja devoção o Papa Leão XIII estava muito ligado. Durante o seu pontificado, divulgou 11 encíclicas sobre o Rosário e uma das últimas coisas que fez, em 1901, foi elevar o Santuário de Pompeia a Basílica Pontifícia. De acordo com o site Crux, Leão XIII tornou-se ainda o primeiro Papa a ser filmado e cujo áudio foi gravado.