A “violência do apagão” vindo de Espanha” foi de tal dimensão que “era praticamente impossível ter conseguido estancar na fronteira” o seu efeito, defendeu o administrador da REN, João Conceição, que no dia 28 de abril esteve à frente das operações para reenergizar a rede elétrica nacional.

Numa conferência realizada esta quinta-feira em Lisboa sobre a segurança do abastecimento, a propósito do Dia Mundial da Energia, o gestor da REN admitiu que a empresa já tem uma ideia de quais terão sido as razões para este incidente que se iniciou em Espanha e arrastou Portugal. A REN já terá, aliás, entregado o seu relatório à Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), mas João Conceição prefere aguardar pelo resultado das análises técnicas em curso. No entanto, numa plateia cheia de pessoas do setor da energia — numa conferência organizada pela Associação Portuguesa da Energia, em parceria com a DGEG (Direção-Geral de Energia e Geologia) e a Adene — o administrador sabia que todos queriam “que eu falasse do apagão”. E não os desiludiu.

João Conceição reconheceu a existência de falhas em Espanha verificadas na semana anterior, mas que “tiveram uma dimensão e velocidade muitíssimo menor do que esta e permitiram aos centros de despacho estancar o problema”.

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Num primeiro momento, às 11h23 (em Portugal) há, num primeiro instante, uma redução da frequência com deslastres e disparos em centrais em Espanha, já identificadas pelo operador espanhol (a REE), como tendo tido origem em Sevilha, Granada e Badajoz. Foi o resultado do que parece ser um problema inicial de tensão na rede e que teve como consequência fazer a frequência da rede cair para 49,3 hertz (o valor de segurança são 50 hetz).

Com esta quebra, o problema chegou à rede portuguesa e passaram quatro ou cinco segundos até a ponta do consumo português sofrer uma “queda abrupta”, que começou por desligar a bombagem (o consumo de energia que estava a ser feito pelas centrais hidroelétricas), depois desconectou grandes empresas consumidoras, chegando logo à rede de distribuição e aos clientes domésticos.

O administrador da REN admite que nesta fase ainda teria sido possível estancar o problema. Mas Espanha perdeu praticamente toda a capacidade de produção e isso levou a que a frequência na rede francesa tivesse baixado para 48 hertz, o que produziu um corte automático do sistema francês da interligação com a Península Ibérica. “E quando isso acontece, o sistema ibérico, fortemente interligado, entra em colapso total. Era impossível conseguir resistir”.

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O outro protagonista do dia, o presidente da E-Redes, sublinha o “relacionamento fantástico” entre as duas empresas que conseguiram estabelecer uma ligação em tempo real entre o consumo e produção em cada passo que foi sendo dado. Para José Ferrari Careto, o tempo de recuperação em Portugal “foi bastante bom para os padrões internacionais”. E destaca que 90% do trabalho da empresa gestora das redes de distribuição foi feita de forma remota a partir do centro de despachos. A E-Redes tinha 600 pessoas disponíveis para intervirem no terreno, mas quase não foi necessário.

Já sobre o papel das centrais de arranque autónomo, o gestor da REN deixa avisos aos “especialistas” no sistema de black start. A partir de um determinado número de centrais, elas “deixam de ser uma vantagem para passarem a ser problema” porque quando arrancamos o sistema em ilhas e se tivermos em simultâneo muitas ilhas a crescer elas vão sobrepor-se e é preciso garantir a sincronia a 100% de todas as ilhas. Se não volta tudo atrás.

Paulo Carmona, diretor geral de Energia, considerou, por seu turno, que o apagão foi um momento que ninguém achava que ia acontecer, admitindo até que, provavelmente, não se irá repetir, mas serviu de teste. “Só se pode testar o motor de arranque se o sistema estiver desligado. Tudo o resto correu bem e serviu para preparar um check up para todos para uma situação futura que seja mais grave”.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]