A noite de 10 de junho ficou marcada por um violento ataque a um ator do teatro ‘A Barraca’, em Lisboa. Adérito Lopes foi agredido por um elemento de um grupo de neonazis que se concentrava nas imediações do teatro, na zona de Santos, e teve de receber tratamento hospitalar. O caso está a gerar uma onda de solidariedade e de indignação não só no meio cultural como na sociedade civil e entre os responsáveis políticos. Esta quarta-feira, o Ministério Público anunciou a abertura de um inquérito ao caso.
Entretanto, duas atrizes do teatro falaram sobre o incidente, para denunciarem as “provocações” do grupo que se encontrava nas imediações do teatro e também as mensagens de ódio de que os atores estão a ser alvo, perante a mediatização do caso. Uma das atrizes que esta terça-feira foi interpelada pelo grupo de neonazis que agrediu o ator Adérito Lopes descreveu à CNN o momento em que foi abordada junto ao teatro “A Barraca”, em Lisboa.
“Dirigia-me ao meu local de trabalho. Ao atravessar a rua, vi que havia um grupo do outro lado da estrada a ter um convívio. Pareceu-me haver álcool à mistura, vinha com os headphones ligados. Achei que era só mais uma importunação sexual, ignorei e dirigi-me ao meu local de trabalho”, contou a atriz, que não quis ser identificada, acrescentando ter sido incentivada a juntar-se ao grupo.
“Disseram-me ‘também gostamos muito do Che Guevara’”
“As palavras que me foram ditas, creio que por estar a utilizar um t-shirt vermelha, foram palavras de ódio. Disseram várias vezes ‘vem aqui, queremos ter uma conversa contigo, não te fazemos mal, também gostamos muito do Che Guevara, também gostávamos de bombardear esta porcaria toda’. Provocações sem muito sentido”, referiu.
A atriz garantiu ainda que os atores não responderam às provocações feitas pelo grupo de neonazis. “Os meus colegas disseram que já tinham reparado que estava ali um grupo meio agressivo, provocador. Eles disseram-me para ignorar e para não responder. E foi isso que fizemos”, assegurou.
“Não foi feita nenhuma provocação, não houve nenhuma resposta da nossa parte, nem verbal nem física”, sublinhou. A atriz descreveu ainda o momento em que o colega, Adérito Lopes, foi agredido. “Foi tudo muito rápido, o meu colega chegou, saiu do carro, cumprimentou-nos e quando estava a cumprimentar outro meu colega, encostaram a cabeça à dele e deram-lhe um soco com a mão direita”, lembrou.
Na Sic Notícias, uma outra atriz, Teresa Mello Sampayo, revelou que, entre o elenco da peça Amor é um fogo que arde sem se ver (que iria sair de cena com a apresentação desta terça-feira) está “agitado” porque os nomes da equipa estão a ser divulgados, juntamente com mensagens de ódio. “Estamos numa grande agitação porque os nossos nomes estão a ser divulgados, acompanhados de mensagens de ódio e de retaliações“, revelou, sem adiantar mais detalhes.
A atriz acrescentou que, momentos antes do ataque, os membros do grupo neonazi estavam a “lançar petardos”, sendo que os elementos do teatro não seriam o alvo. “Não pareceu [que fossemos o alvo]. este ato violento pareceu ser aleatório. Não foi um ato de racismo”, defendeu.
À entrada de uma reunião no teatro A Barraca — que serviu para elenco decidir se a peça voltará à cena e quando — a diretor do teatro, a atriz Maria do Céu Guerra, condenou a agressão contra Adérito Lopes. “Há um sentimento de grande revolta por isto ser possível no nosso país“, referiu a atriz, acrescentando que “30 anos depois” (numa referência ao assassinato de Alcindo Monteiro, em 1995), “as pessoas que participaram nesse crime” voltaram a estar envolvidas num ato de agressão. “Temos o caso entregue ao nosso advogado, vamos fazer um comunicado e encerramos o assunto. Queremos que se cumpra a constituição”, disse ainda Maria do Céu Guerra.
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Grupo incluiria condenados por envolvimento na morte de Alcino Monteiro e de membro de partido trotskista nos anos 90
O ataque desta terça-feira terá sido levado a cabo pelo grupo de extrema-direita Sangue e Honra (Blood & Honour, em inglês), um grupo ultranacionalista já referenciado pelos serviços de informações e pela Polícia Judiciária.
De acordo com o Correio da Manhã, um dos elementos do grupo neonazi envolvido nos incidentes em Santos, esta terça-feira, foi também um dos principais envolvidos no assassinato do luso-caboverdiano Alcindo Monteiro, há exatamente 30 anos, no Bairro Alto. João Martins, hoje com 50 anos, foi um dos dez condenados por ter participado ativamente nas agressões em 1995.
Segundo o Expresso, um outro elementos do grupo que estava nas imediações do teatro ‘A Barraca’ tinha sido condenado em 1991 a dois anos de prisão, com pena suspensa, pelo envolvimento no conflito que provocou a morte de José Carvalho, na sede do Partido Socialista Revolucionário [um partido trotskista], em 1989.
Já ao final da tarde desta quarta-feira, o Ministério Público confirmou a abertura de um inquérito para investigar a agressão contra o ator Adérito Lopes. Em resposta escrita enviada à Lusa, a Procuradoria-Geral da República referiu que “confirma-se a existência de inquérito”.
Para o próximo domingo, dia 15 de junho, está já agendada uma concentração à frente do Teatro ‘A Barraca’, convocada por um coletivo de associações e organizações. “Convoca-nos em solidariedade para afirmar que não veremos a ascensão do fascismo em silêncio”, lê-se numa nota enviada à comunicação social, para um encontro com o mote: “Não queremos viver num país do medo.” Entre aqueles que se associam à ação estão o movimento Vida Justa, a estrutura de criação A Rafeira e o site de divulgação cultural Comunidade Cultura e Arte.
“Não é um caso isolado. Sabemos que esta onda de ataques a migrantes, pessoas racializadas, trabalhadoras, pobres e trabalhadores da cultura não vai ficar por aqui. Está a crescer alimentada pela impunidade judicial, pelo silêncio e pela desigualdade económica”, afirma-se ainda no comunicado. “É a tarefa do nosso tempo combater este país desigual sem nunca sacrificar os direitos fundamentais entre os quais a liberdade de expressão”.