As negociações sobre a coligação autárquica à direita em Lisboa chegaram a um impasse. Rejeitando ser “menorizado” nas conversas com Carlos Moedas, o CDS decidiu passar a palavra aos militantes, que vai ouvir em plenário na próxima semana, numa derradeira tentativa de perceber se deve manter-se dentro da coligação que poderá juntar a Iniciativa Liberal ao PSD — ‘roubando’ lugares na vereação aos democratas-cristãos.
Uma convocatória da estrutura concelhia de Lisboa, a que o Observador teve acesso, chama os militantes a reunirem-se na sede nacional do partido, no largo do Caldas, no dia 23 de junho. Além do pretexto da normal análise sobre os resultados das eleições legislativas de 18 de maio, existe outro ponto relevante: a “definição e opção estratégica relativa às eleições autárquicas de 2025 no concelho de Lisboa”, que servirá para decidir a posição tomar nas negociações com o PSD em Lisboa.
No partido, assume-se que existe um “impasse na negociação”. Tudo porque o CDS tem “vontade de ter uma coligação”, mas lembra que esse acordo tem de ser feito “em respeito pelo legado do CDS e pelo trabalho que CDS e PSD têm desenvolvido em conjunto”.
“O CDS não quer ser forçado a tomar outro tipo de decisões” se até ao plenário anunciado Moedas não apresentar uma proposta que agrade aos democratas-cristãos, pressiona-se no partido. “O CDS não aceita ser menorizado, muito menos face a outras forças políticas”.
Tudo porque as conversas não estão, na perspetiva do CDS, a correr pelo melhor. Era claro, à partida, que o acordo a que PSD chegou com CDS, MPT, PPM e Aliança em 2021 ganharia, desta vez, contornos mais complicados, por dois motivos principais: por um lado, porque o vereador democrata-cristão Filipe Anacoreta Correia, escolhido por Moedas para ocupar o lugar de vice-presidente da autarquia, anunciou em entrevista ao Observador que se vai desvincular do partido, estando disponível para voltar a integrar a vereação — ficando com um dos lugares disponíveis numa ainda não anunciada recandidatura de Moedas — mas como independente.
Por outro lado, porque Carlos Moedas e a Iniciativa Liberal têm desenvolvido um flirt pouco discreto nos últimos meses, que tem como objetivo incluir os liberais na coligação. A questão é saber em que ponto é que isto deixa o CDS, que está hoje numa situação muito diferente daquela em que estava nas últimas autárquicas, há quatro anos. E os democratas-cristãos não querem permitir que Carlos Moedas se esqueça desse histórico.
Os argumentos do lado do CDS são vários: por um lado, lembra-se que em 2017 o CDS tirou a maioria absoluta ao PS de Fernando Medina, elegendo quatro vereadores com o forte resultado da candidatura então liderada por Assunção Cristas (o PSD, que candidatara Teresa Leal Coelho, ficava então apenas com dois). A correlação de forças era, então, muito favorável ao CDS quando se partiu para a negociação da coligação em 2021.
Já em 2021, a coligação da direita derrotou Fernando Medina por uma diferença de menos de três mil votos, pelo que no CDS se recorda que os votos democratas-cristãos terão sido decisivos para permitir a vitória de Carlos Moedas. Além disso, o CDS frisa que, tendo na altura a maior bancada da oposição em Lisboa, ajudou a desgastar Medina e a abrir o caminho ao social-democrata. Agora, dentro do CDS-Lisboa recorda-se que o partido foi “leal” durante o mandato e tem autarcas experientes nas freguesias lisboetas, pelo que se exige que seja oferecida uma boa posição numa próxima coligação.
O outro lado da moeda é evidente: os tempos mudaram e desde 2022 que o CDS desapareceu do mapa no Parlamento e perdeu os seus argumentos eleitorais, tendo regressado graças à coligação com o PSD a nível nacional. Ainda assim, no CDS admite-se que toda a gratidão é devida a Luís Montenegro — nem tanto a Carlos Moedas, uma vez que em Lisboa os democratas-cristãos continuarão a ter peso eleitoral próprio.
Acresce a isto a irritação que gerou no CDS a entrevista que Filipe Anacoreta Correia deu recentemente ao Observador, na qual anunciava que é agora independente e que vai desfiliar-se oficialmente do partido. Dentro do partido, a entrevista foi classificada como “profundamente infeliz” e lida como um sinal de “oportunismo”, uma vez que há quem defenda que, tendo sido eleito e escolhido como vice quando era militante do CDS, Anacoreta Correia deveria então abdicar agora do lugar de vereador.
A ideia passa agora por pressionar Carlos Moedas, ainda que o ideal para o CDS não seja romper a coligação — uma vez que o partido quer manter o seu peso em Lisboa e a boa relação com o PSD a nível nacional. Mas isso dependerá da composição das listas e dos equilíbrios que Moedas fizer para tentar incluir a IL, que já fechou acordo autárquico com o PSD no Porto, no seu executivo. Em novembro, Nuno Melo tinha feito questão de deixar um aviso público, no final de um Conselho Nacional do CDS: “O CDS não vale por comparação com nenhum outro, nem é negociável em função de qualquer outro, e é bom que todos tenham isso muito claro”.
Nuno Melo avisa PSD sobre coligação em Lisboa: “O CDS não é um custo de oportunidade”