Quando começou a campanha do Partido Democrata para escolher o representante nas eleições autárquicas da Cidade de Nova Iorque, todos os holofotes apontavam para o antigo governador do estado Andrew Cuomo. No fundo dos boletins das casas de apostas encontrava-se um jovem — comparado com a sua concorrência interna —, imigrante e muçulmano, com um currículo curto e sem qualquer mediatismo à sua volta. Com 1% nas primeiras sondagens, Zohran Mamdani rapidamente utilizou as redes sociais para espalhar a sua mensagem “socialista” e atrair o eleitorado jovem às urnas, conquistando, contra todas as probabilidades, o aval dos democratas nova-iorquinos para liderar a cidade mais populosa dos EUA nos próximos quatro anos.

Durante a madrugada desta quarta-feira, Mamdani foi declarado o vencedor das eleições internas do partido para concorrer à presidência da Câmara da Cidade de Nova Iorque com 43,5% dos votos e sete pontos percentuais à frente do segundo lugar, Cuomo. O antigo governador, quando se começaram a somar os votos e se apercebeu que o seu regresso à política não se concretizaria facilmente, “cedeu” o seu lugar na corrida, evitando uma segunda ronda.

“Nas palavras de Nelson Mandela: tudo parece impossível até ser feito“. Foi assim que Mamdani abriu o seu discurso a anunciar a vitória nas internas do partido, onde agradeceu a grande mobilização que se fez sentir na noite eleitoral. Nas palavras de Donald Trump: “os democratas ultrapassaram os limites”. Para o Presidente, que se manifestou sobre a eleição nas redes sociais, o agora candidato à Câmara nova-iorquina é um “lunático 100% comunista”, que “não é muito inteligente” — mas que apesar de tudo, admite que existe uma forte probabilidade de chegar a vencer a eleição final.

A autarquia é “azul” desde 2014, depois de mandatos seguidos de democratas à frente da cidade. Assim, esta eleição interna é vista como uma premonição do que vai acontecer no próximo dia 4 de novembro, com o autoproclamado “socialista democrático” de 33 anos a posicionar-se como favorito para se sentar na cadeira atualmente ocupada por Eric Adams, que vai concorrer como independente à reeleição.

Se for eleito, o até agora membro da assembleia estadual de Nova Iorque será o primeiro muçulmano ao leme da cidade, tendo em mãos um orçamento de quase 100 mil milhões de euros (115 mil milhões de dólares), a maior força policial do país e, claro, a gestão dos serviços que abastecem as mais de oito milhões de pessoas que preenchem a metrópole da “Big Apple“.

Apoiado por membros na ala mais à esquerda do partido, como Bernie Sanders e Alexandra Ocasio-Cortez, Zohran Mamdani lançou a sua campanha com o mote de “baixar os custos de vida da classe operária de Nova Iorque”. Para além de quase metade dos votos do pool democrático da cidade, angariou também mais de 400 mil seguidores no TikTok, 300 mil na rede social X e mais de um milhão no Instagram — onde as suas iniciativas porta-a-porta pelas ruas dos cinco bairros de Nova Iorque foram ampliadas e partilhadas por milhões de cidadãos. Mamdani esteve em todo o lado, tanto pela cidade, como online.

Ao longo dos últimos cinco meses, a presença digital de Mamdani tem vindo a intensificar-se ao ponto de estar incorporado nos algoritmos de todas as faixas etárias. Através de vídeos bem produzidos, entrevistas no metro, colaborações com personalidades conhecidas e ainda declarações em diferentes línguas como espanhol, árabe e bengali — tocando na diversidade que compõe a demografia da cidade. Zohran Mamdani fez questão de compensar a falta de experiência política e tornar a sua campanha mais acessível e visível para os mais jovens, destacando o seu carisma e humor que o aproximam mais da população do que o perfil de um político tradicional.

Dias antes da eleição, de fato e sapatos de caminhada, no meio de uma onda de calor, Mamdani decidiu caminhar de norte a sul de Manhattan. Dos bairros de imigrantes perto do Inwood Hill Park até aos corretores da bolsa no “Financial District“, o objetivo desta iniciativa era mostrar que “os nova-iorquinos merecem um presidente que consigam ouvir, ver e até gritar, se for preciso”. A distribuir “high fives” e selfies com um sorriso na cara, Zohran Mamdani quis ser o elo de ligação entre os trabalhadores “da cidade que nunca adormece”.

Merchandising de campanha tem sido uma grande parte da política norte-americana durante os últimos anos. O chapéu vermelho já se tornou um símbolo do movimento MAGA desde a sua estreia em 2016, com Donald Trump e, desde então, todas as campanhas têm vindo a receber uma razoável porção do financiamento através da venda de t-shirts, chapéus ou outros acessórios. Apesar de ter sido popularizado pelo outro lado do espetro político, Zohran Mamdani seguiu a tendência.

Contudo, como o candidato democrata atingiu o seu limite de financiamento público no início da campanha, todo o merchandising que já havia sido produzido passou a ser distribuído pelos apoiantes a custo zero. Afastado do vermelho republicano e do azul democrata, Mamdani optou por cores vibrantes e mais familiares para o seu eleitorado. “Quisemos que o símbolo de campanha aludisse a um táxi amarelo, algo que realmente representasse a Cidade de Nova Iorque”, afirmou uma das responsáveis pela candidatura de Mamdani, em declarações à GQ, explicando que também se inspiraram em sinais de rua e em posters de filmes de Bollywood, uma ode às suas origens indianas.

Do Uganda à “Big Apple”, a carreira de rapper e o “nepotismo”

Zohran Mamdani chegou aos Estados Unidos da América com sete anos. Filho de pai e mãe indianos, nasceu na capital do Uganda em 1991 e chegou a viver na África do Sul antes de chegar ao país a que chama “casa” nos dias de hoje. Mahmood Mamdani, o pai, nasceu em solo indiano mas viveu grande parte da sua vida em África, onde acabou por se tornar um dos “académicos mais influentes” do leste do continente. A mãe, Mira Nair, é uma realizadora premiada internacionalmente, que chegou a ser nomeada para um Oscar com um retrato do estilo de vida de crianças nas ruas indianas, expresso no filme “Salaam Bombay!“, de 1989.

Em Nova Iorque por causa de uma bolsa atribuída a Mahmood, a família Mamdani acabou por se instalar permanentemente na cidade antes do virar do milénio. Com toda esta diversidade a correr-lhe as veias, Zohran, citado pelo Times of India, contou que no Uganda se sentia indiano, na Índia era muçulmano e que em Nova Iorque “era tudo menos nova-iorquino”. Ainda assim, durante os seus tempos universitários, numa licenciatura em estudos africanos, Mamdani começou a envolver-se no mundo do ativismo, muito à imagem dos trabalhos dos pais.

Mahmood, enquanto professor de antropologia, ciência política e estudos africanos na Universidade de Columbia, dedicou grande parte da sua atividade académica aos problemas e rastos históricos do colonialismo, enquanto Mira, através das suas curtas e longas metragens, procurou representar as dificuldades sentidas pela diáspora indiana pelo mundo — ambos valores que acabaram refletidos na campanha de Zohran. Entre passagens por diferentes “grupos de advocacia”, Mamdani teve o seu primeiro trabalho oficial enquanto “supervisor musical” do filme da Disney “Queen of Katwe“, sobre um prodígio do xadrez nos subúrbios de Kampala, no Uganda — produzido por Mira Nair, sua mãe.

“Na verdade, criei uma playlist para a Mira, que por acaso também é minha mãe — sabe como é, o nepotismo e o trabalho árduo são muito importantes“, comentou Mamdani à rádio sul-africana Kaya FM, em 2016. Pouco tempo depois, o agora político tentou seguir uma carreira musical enquanto rapper, com o nome artístico de “Young Cardamom” (que depois evoluiu para “Mr.”), enquanto já dava passos na política.

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Entre histórias sobre a sua experiência de vida no Uganda e retratos de “sociedades pós-colonialismo”, as músicas de Mamdani preencheram um vasto leque de géneros e temas, uns mais sérios, outros mais leves. A carreira na indústria musical acabou por nunca levantar voo, mas quase uma década mais tarde, acaba por representar um traço da sua personalidade política que acabou por ser um dos fatores que mais apelou ao eleitorado jovem: o facto de não se levar muito a sério, como escreve a Rolling Stone.

Passou brevemente por “conselheiro financeiro” para uma organização sem fins lucrativos em Queens, até se candidatar, em 2020, a um assento na assembleia estadual de Nova Iorque, apenas dois anos depois de ter obtido a nacionalidade americana. Entrou, como representante do Partido Democrata, e tornou-se num de 150 representantes da câmara baixa da assembleia, onde foi uma voz ativa em alguns temas, mas sem grande notoriedade no que toca a legislação aprovada. Fez aprovar, no entanto, um projeto piloto para um serviço de autocarros gratuito, algo que acabou por ser uma das bandeiras da sua candidatura interna à câmara da cidade.

Autocarros gratuitos, congelar rendas e os cortes do financiamento da polícia: o que defende Mamdani?

A Cidade de Nova Iorque é a mais populosa de todo o país, com milhões de pessoas a usufruir da extensa rede de transportes públicos que permite a circulação entre os cinco grandes bairros: Manhattan, Brooklyn, Queens, Bronx e Staten Island. Segundo a página da campanha de Zohran Mamdani, “um em cada cinco nova-iorquinos tem dificuldade em pagar o bilhete sempre crescente dos transportes“.

Assim, Mamdani defende que os transportes públicos devem ser “fiáveis, seguros e universalmente acessíveis”. O candidato democrata refere também que para além de “caros”, “os autocarros da cidade são os mais lentos, o que rouba tempo precioso em família e de descanso às pessoas que trabalham”. Diagnosticados os problemas, Zohran Mamdani compromete-se a “eliminar permanentemente” o bilhete de autocarro — tornando o acesso gratuito — e a abrir “faixas de circulação prioritária” para acelerar o tempo dos trajetos de um lado a outro da cidade.

No seu esforço de reduzir custos de vida da população de Nova Iorque, Mamdani refere que é crucial implementar “cuidados infantis gratuitos” a todos os que tenham entre seis semanas e cinco anos. “Depois da renda, o maior custo para as famílias são os serviços de cuidado infantil”, escreve o democrata, acrescentando que para solucionar o problema — que está a “forçar famílias para fora da cidade” — é preciso tornar a carreira de cuidador infantil mais atrativa, aumentando os salários deste setor para ficarem equiparados aos professores.

Uma das grandes bandeiras da sua campanha tem sido o combate à crise da habitação que também afeta Nova Iorque. De acordo com Zohran Mamdani, tem sido dada prioridade à construção de casas do setor privado, que “muitas vezes fica fora do alcance da classe operária”. Tecendo várias críticas à administração de Eric Adams, que “tem aproveitado todas as oportunidades para espremer os [mais de 2 milhões] inquilinos” que vivem em habitação pública, Mamdani promete congelar estas rendas e construir “muitas mais” casas que se inserem neste espetro acessível.

“Enquanto presidente da Câmara, Zohran vai por o dinheiro público a trabalhar e triplicar a produção de habitação acessível na cidade”, lê-se na página oficial de campanha, com um valor de referência de 200 mil unidades construídas nos próximos 10 anos, admitindo ainda fazer uma maior fiscalização da “qualidade” dos “maus” senhorios: “Os piores vão ser excluídos do mercado”.

Para pagar todas estas medidas, Mamdani pretende adotar uma prática que tem sido muito discutida em diferentes partes do mundo: taxar os mais ricos. O candidato pretende, assim, o aumento do imposto sobre as empresas para 11,5% e uma taxa adicional de 2% para o 1% mais rico dos cidadãos de Nova Iorque — os que recebem mais de um milhão de dólares (cerca de 857 mil euros) todos os anos.

Uma outra medida, que não consta do programa eleitoral mas tem sido uma crítica feita pelos adversários republicanos, remete para publicações na rede social X, em 2020, durante a vaga de manifestações violentas nas ruas dos Estados Unidos da América. “Defund the police“, o apelo ao corte do financiamento da polícia em prol de “alternativas não policiais de segurança pública e iniciativas de apoio à comunidade”, foi um termo que se ouviu muito na sequência dos desacatos entre manifestantes e forças de segurança durante todo o primeiro ano de pandemia nos EUA.

O movimento tinha uma voz mais forte na ala mais à esquerda do Partido Democrata — onde se insere Mamdani. Numa série de tweets, o atual candidato manifestou-se a favor desta medida em 2020. “A libertação queer significa desfinanciar a polícia”, escrevia Mamdani, numa publicação que cita um vídeo de uma altercação entre cidadãos e polícia de intervenção. Apesar de Zohran Mamdani não se ter limitado no apoio a esta iniciativa, o tema não foi abordado durante este período eleitoral, pelo que não se sabe se continua a ser um assunto que defende ou se entretanto deixou de ser uma prioridade para o democrata.

O apoio à Palestina, as críticas a Israel e a ordem de detenção a Netanyahu

Como é tradição, semanas antes da grande noite eleitoral, os vários candidatos do Partido Democrata reuniram-se em direto para um debate. Ao longo de duas horas, os sete presentes tiveram a possibilidade de se pronunciar sobre a sua visão atual da cidade, identificar problemas — apresentar soluções — e apelar ao voto. Para além de problemas internos do foro autárquico, também lhes foi dada a oportunidade de “comentar” política externa e os conflitos que reinam no Médio Oriente e na Europa.

Já na reta final do debate, foi colocada a seguinte questão: “Qual será a vossa primeira visita oficial enquanto presidente da Câmara da Cidade de Nova Iorque?”. As repostas passaram por territórios nas Caraíbas, por motivos familiares, mas também por Israel, que foi o Estado mais votado entre os candidatos para ser o local da sua viagem inaugural. No momento em que tinha a palavra, Zohran Mamdani respondeu de uma forma diferente: “Ficarei em Nova Iorque“.

Depois de ter referido a sua intenção de atender às necessidades dos nova-iorquinos “em todas as instâncias”, foi interpolado pelos moderadores do debate sobre a possibilidade de fazer uma visita a Israel, durante o seu hipotético mandato, ao qual Mamdani reforçou a resposta dada em primeira instância. Ao ouvir esta resposta, Andrew Cuomo, o líder nas sondagens, disparou a acusação de que o candidato muçulmano “não acredita no Estado judeu de Israel“. O assunto ficou encerrado depois de Zohran Mamdani dizer que “Israel tem o direito de existir”, mas o tema continuou a gerar debate dentro dos eleitores.

A Cidade de Nova Iorque é a casa da maior comunidade judaica dos EUA. Durante a sua campanha, Mamdani nunca se escondeu desse facto e sempre mostrou estar disponível para ouvir e apoiar a comunidade. Não obstante, foi sempre vocal na sua condenação à ofensiva de Israel em Gaza, as políticas do governo israelita, admitindo, até, que ordenaria a detenção de Benjamin Netanyahu caso o primeiro-ministro aterrasse na cidade — apesar de não ter a autoridade para o fazer.

Em 2023, enquanto membro da assembleia estadual, apresentou uma proposta para eliminar as benesses fiscais atribuídas a instituições de solidariedade social com ligações a colonos israelitas que violam os direitos humanos. A proposta acabou por não ter pés para andar e não saiu do papel, mas Mamdani continuou a criticar o “genocídio” no enclave palestiniano, apoiando diversos movimentos que apelam ao “boicote, desinvestimento e sanções” contra Israel.

Mesmo sendo ativamente contra as ações do governo de Netanyahu, Zohran Mamdani procura fazer a distinção entre a oposição da ofensiva militar israelita e acusações de antisemitismo. Para o candidato democrata, o antisemitismo “não tem lugar na Cidade de Nova Iorque” — chegou a comprometer-se a aumentar o financiamento para combater estes crimes de ódio na cidade. No programa do humorista norte-americano Stephen Colbert, Mamdani clarificou, novamente, a sua posição sobre Israel. Acredita que têm o direito de existir, mas ressalva que têm a responsabilidade de cumprir o direito internacional.