André Ventura anunciou nos últimos dias que iria fazer – sem esclarecer como – uma investigação à influência e ao património em Portugal do juiz do Supremo brasileiro Gilmar Mendes, o que foi recebido “com bom humor” do outro lado do Atlântico. Em entrevista ao portal de notícias Metrópoles, Gilmar Mendes – que promove anualmente o Fórum Lisboa um evento na capital portuguesa em que participa a elite de Brasília – desvalorizou a ameaça do líder do Chega, afirmando que tudo terá partido de um apelo feito por Eduardo Bolosonaro, filho do ex-Presidente do Brasil.

A polémica começou quando, a 23 de junho, André Ventura partilhou na rede social X que “depois de milhares de denúncias recebidas, o Chega irá fazer uma investigação própria à influência, património e rede de interesses do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, em Portugal”. Ventura acrescentava ainda: “Todos sabemos que o Governo Lula e os seus amigos tiveram e ainda têm em Portugal um lote grande de amigos que lhes apara os golpes, mesmo tendo em conta a ditadura em que o Brasil se está a tornar. Esse tempo, no que depender do CHEGA, vai acabar”.

Gilmar Mendes recebeu ‘ameaça’ com “sorriso” e lança farpa a Eduardo Bolsonaro

Em entrevista ao Metrópoles, o juiz do Supremo brasileiro (equivalente ao Tribunal Constitucional português) afirmou ter tido informações de que as insinuações de André Ventura tinham sido estimuladas pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). E garantiu que as recebeu com “um sorriso”.

Gilmar Mendes lembra mesmo que o evento, que se realiza anualmente há 13 anos, foi sendo conotado com a esquerda ou com a direita consoante os momentos políticos — recordando que quando houve o impeachment de Dilma Rousseff, ex-presidente brasileira do partido de Lula da Silva, por exemplo, o fórum foi associado a essa destituição: “Recebo com extremo bom humor. Passámos por vários momentos em 13 anos do fórum. Já disseram que era o ‘Fórum do impeachment da Dilma’, porque tinham pessoas simpatizantes do impeachment. Um professor fez uma manifestação lá na porta. Agora vem esse episódio”, disse.

Na entrevista, o ministro do Supremo lança também uma farpa ao filho de Jair Bolsonaro: “Segundo me informam, seria um apelo do Eduardo Bolsonaro, esse herói que está nos Estados Unidos e que dizia que, com um cabo e um soldado, ele iria fechar o Supremo”, disse, fazendo referência ao facto de Eduardo Bolsonaro viver atualmente nos EUA, para onde viajou, tendo suspendido o mandato como deputado. Naquele país tem desenvolvido uma campanha mediática, nomeadamente com encontros com representantes dos Republicanos, para conseguir sanções contra juízes e outras autoridades brasileiras devido a processos em curso visando Jair Bolsonaro e os seus aliados.

Segundo o Metrópoles, o filho de Bolsonaro temia ainda ser preso pelo juiz Alexandre de Moraes por envolvimento na tentativa de golpe de Estado para manter o pai no poder, apesar da vitória de Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores.

“Se houvesse investigação seria inefetiva”, diz juiz

Gilmar Mendes também frisou a transparência do Fórum Lisboa – que tem sido apelidado de Gilmarpalooza, em alusão ao grande festival de música Lollapalooza, que se realiza nos EUA — que é organizado pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), pelo Lisbon Public Law Research Centre (LPL) da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e pelo Centro de Inovação, Administração e Pesquisa do Judiciário – FGV Justiça (FGV) e que este ano se realiza entre os dias 2 e 4 de julho, com o tema “O mundo em transformação — Direito, Democracia e Sustentabilidade na Era Inteligente”.

“Eu acho graça, bem-humorado [o nome Gilmarpalooza]”, começou por dizer, adiantando que “é mais do que um evento do Gilmar, é um evento bipartite com a Universidade de Lisboa, a FGV e muita gente que colabora”.

Numa outra entrevista, à CNN Brasil, o juiz remata, por isso, que não veria sequer problemas numa hipotética investigação: “Na verdade, se houvesse investigação, ela resultaria inefetiva, não há nenhum problema quanto a isso”.

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Evento com elite brasileira em Lisboa esgota voos a partir de Brasília

“São mais de três mil inscritos e 400 palestrantes em 50 painéis”, revelou Gilmar Mendes ao Metrópoles, explicando que o encontro anual com a elite dos três poderes do Brasil – e de Portugal – se realiza na capital portuguesa por já haver muitos semelhantes no Brasil.

O número de participantes é tanto que coloca todos os anos pressão sobre as ligações aéreas entre as duas capitais. Este ano, por exemplo, todos os voos diretos de Brasília com destino a Lisboa estão cheios, o que obrigará quem ainda não comprou viagem a ter de fazer escala.

De acordo com o site do Fórum de Lisboa, o objetivo deste ano é reunir “académicos, gestores, especialistas, autoridades e representantes da sociedade civil organizada, do Brasil e da Europa” na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL) “para dialogar sobre como o advento da Era Inteligente tem impactado as relações entre Estados, instituições, empresas e povos”.