O Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou neste sábado tarifas de 30% sobre os bens importados da União Europeia (UE) – um nível tarifário que foi comunicado através de uma carta semelhante à que outros países, como o Japão e o Brasil, receberam nos últimos dias. Ao mesmo tempo, o Presidente dos EUA também anunciou tarifas de 30% contra o México.

O anúncio foi feito através das redes sociais do Presidente, que publicou na íntegra as cartas enviadas à União Europeia e ao seu vizinho a sul, o México. As novas tarifas irão entrar em vigor, lê-se nas cartas, a 1 de agosto – a menos que as partes consigam chegar a um acordo para evitar esse desfecho.

“Tivemos anos para discutir a nossa relação comercial com a União Europeia e concluímos que precisamos de nos afastar destes défices comerciais de longo prazo, grandes e persistentes, gerados pelas suas políticas tarifárias e não-tarifárias e barreiras comerciais”, escreveu Trump na carta à UE. “A nossa relação, infelizmente, tem estado longe de ser recíproca”, acrescentou.

A UE tinha a expectativa de concluir um acordo provisório com os EUA para evitar a entrada em vigor das tarifas que foram anunciadas a 2 de abril (e suspensas por três meses a 9 de abril) – mas, com esta carta de Trump, será agora menor a probabilidade de se conseguir um acordo de última hora entre os dois blocos económicos. Nos últimos dias, foi noticiado que o comissário europeu para o comércio, Maroš Šefčovič, estava a conseguir negociar um nível de tarifas de 10%.

Quanto ao México, na sua carta, Trump disse que o país tem “ajudado a proteger a fronteira”, mas acrescentou que não é suficiente. “O México ainda não deteve os cartéis que estão a tentar transformar toda a América do Norte num parque de diversões do narcotráfico. Obviamente, não posso deixar que isso aconteça!”, disse Trump na carta à Presidente mexicana, Claudia Sheinbaum.

Trump ameaça que se UE retaliar, as tarifas vão subir ainda mais. Bruxelas responde

“A União Europeia permitirá o acesso total e aberto ao mercado dos EUA”, disse Trump, acrescentando que se a UE, por alguma razão, decidir retaliar, “qualquer que seja o valor que escolher para o aumentar, será adicionado aos 30% que cobramos“.

Esta tarifa de 30% acresce a todas as outras taxas aduaneiras que são cobradas em determinados produtos específicos – como o aço e o alumínio – que também penalizam a economia europeia, entre outras.

Numa primeira reação oficial, Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, garante que a UE “irá dar todos os passos que forem necessários para salvaguardar os interesses da UE, incluindo a adoção de contramedidas proporcionais, se for necessário”.

Numa reação ao anúncio, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, defendeu que a União Europeia (UE) deve permanecer “firme, unida e pronta” para proteger os seus interesses, assumindo apoio pleno “aos esforços da presidente e da Comissão para chegar a um acordo justo com os EUA”, declarou, numa mensagem nas redes sociais. Ainda realçou que as tarifas “alimentam a inflação, criam incerteza e prejudicam o crescimento económico” e que a UE vai continuar a “construir parcerias comerciais sólidas em todo o mundo”.

“Trump está a fazer os países da Europa – e não só – acordarem para a vida”, diz economista-chefe do francês BNP Paribas

Os vários países europeus têm vindo a demonstrar apoio às negociações de Bruxelas.

Paulo Rangel e Marcelo Rebelo de Sousa reiteram que negociações continuam

Em declarações aos jornalistas em São Tomé e Príncipe, à margem das comemorações dos 50 anos da independência do país, o ministro dos Negócios Estrangeiros assumiu que as negociações sobre tarifas entre a Comissão Europeia e os Estados Unidos da América “são complexas”, mas ainda não terminaram, vincando que o processo negocial só acaba a 1 de agosto.

“O que o Governo fez foi estar em contacto com a presidente da Comissão Europeia, que falou hoje com o primeiro-ministro, e o que foi comunicado reflete a posição de Portugal. Consideramos que este é um desenvolvimento negativo, mas as negociações estão em curso. A Comissão Europeia é defensora do comércio livre e vamos continuar o processo negocial que até aqui foi feito e aguardar que possa ter um desenlace positivo”, disse Paulo Rangel.

O ministro reconheceu que a imposição de 30% pode vir a ter um “efeito disruptivo” nas relações comerciais entre os dois blocos, tanto sobre consumidores, como sobre os produtores, mas defendeu ser “prematuro” antecipar o impacto económico deste anúncio em Portugal, até porque a taxa de 30% “não estava em cima da mesa” de negociações. Porém, enfatizo a vontade portuguesa de se “chegar a um acordo”. “São negociações complexas”, afirmou, continuando: “Nenhuma opção está excluída. Se tivermos uma situação de escalada, poderá haver uma reação de reciprocidade. Tudo isso está em cima da mesa, porque acreditamos que é preciso uma boa solução”.

Por sua vez, o Presidente da República destacou a “sintonia” entre Portugal e a Comissão Europeia nesta matéria. “Não é bom para o comércio internacional haver este tipo de anúncios e nas condições em que foi feito. Foi surpreendente porque estava em curso um processo negocial”, admitiu.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, “esta história não terminou” e ainda há esperança de que seja encontrada “uma solução no interesse de todos” e que vá ao encontro das negociações que vinham sendo efetuadas. O chefe de Estado elogiou ainda a “reação muito serena” do organismo presidido por Ursula Von der Leyen e de Portugal.

Itália e Países Baixos também apoiam Bruxelas nas negociações

Numa reação ao anúncio de Trump, o Governo italiano diz acompanhar “de perto as negociações em curso entre a UE e os Estados Unidos, apoiando integralmente os esforços da Comissão Europeia, que serão intensificados nos próximos dias”.

Segundo a Lusa, o executivo liderado por Giorgia Meloni expressou “confiança na boa vontade de todas as partes para chegar a um acordo justo que fortaleça o Ocidente como um todo”. “Agora é fundamental manter o foco nas negociações, evitando polarizações que complicariam a obtenção de um acordo”, conclui.

Já o primeiro-ministro dos Países Baixos, Dick Schoof, ofereceu, segundo a Lusa, o apoio “total” do Governo à Comissão Europeia para procurar um acordo “mutuamente benéfico”. “A Comissão Europeia pode contar com nosso total apoio”, afirmou Schoof numa mensagem nas redes sociais, sublinhando que “o anúncio dos EUA de impor tarifas de 30% sobre produtos importados da União Europeia é preocupante e não o caminho a seguir”.

Presidente mexicana confiante em “chegar a um acordo” com EUA

A Presidente do México, Claudia Sheinbaum, mostrou-se confiante em “chegar a um acordo” com os Estados Unidos, após o seu homólogo norte-americano, Donald Trump, ter anunciado uma taxa de 30% sobre os produtos mexicanos. “Vamos chegar a um acordo com o governo norte-americano”, garantiu Claudia Sheinbaum, acrescentando que as negociações deverão conduzir a “melhores condições” até 01 de agosto, data em que as novas tarifas deverão entrar em vigor.

Durante um evento público no estado de Sonora, no norte do país, Sheinbaum relembrou que, na sexta-feira, uma delegação do governo mexicano reuniu-se com representantes dos Estados Unidos (EUA) para chegar a acordos sobre a relação bilateral.

“A carta (de Trump) diz claramente que eles estão a tentar chegar a um acordo para que não haja essas tarifas (…) e acreditamos que, a partir do que os nossos colegas discutiram ontem, vamos chegar a um acordo com o governo dos EUA e vamos, naturalmente, chegar a melhores condições”, disse a líder mexicano.

Sheinbaum salientou ainda que Trump está a enviar cartas a todos os países do mundo, e não apenas ao México, e recordou o seu lema de ter “cabeça fria” para lidar com qualquer problema. “Sinto-me muito confiante, porque se há algo que temos no governo é que representamos (…) a dignidade do povo do México”, disse Sheinbaum, descrevendo os mexicanos como “resilientes, corajosos e triunfantes”.

Por fim, Sheinbaum disse que o seu governo é “claro” sobre o que pode e o que não pode trabalhar com o governo dos EUA. “Há uma coisa que nunca é negociada, que é a soberania do nosso país”, afirmou.