À terceira ronda de negociações, não houve mesmo “milagres”. O Kremlin já tinha avisado para não se esperar grandes desenvolvimentos do encontro desta quarta-feira entre as delegações ucranianas e russas em Istambul, na Turquia. Um cessar-fogo parece ainda não estar no horizonte e os dois países estão em posições “muito distantes” para alcançarem um acordo que traga a paz. Em vez disso, durante o encontro, Moscovo insistiu em questões humanitárias, ao passo que Kiev reiterou a necessidade de haver uma reunião entre o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenksy, e o homólogo da Rússia, Vladimir Putin.

A Ucrânia sugeriu à delegação russa organizar uma “reunião entre líderes”, já que entende que “algumas questões fundamentais só podem ser resolvidas a esse nível”. O encontro seria entre Vladimir Putin, Volodymyr Zelensky, o líder turco, Recep Tayyip Erdoğan, e o Presidente norte-americano, Donald Trump, e ocorreria no final de agosto. “Enquadra-se na visão dos nossos parceiros, em particular dos Estados Unidos, e ao prazo estabelecido pelo Presidente Trump para encontrar uma solução”, disse, numa conferência de imprensa, o rosto que liderava a delegação ucraniana, o secretário do Conselho de Segurança, Rustem Umerov.

Na mesma linha, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Heorhii Tykhyi, afirmou, na mesma conferência de imprensa, que o Presidente da Ucrânia está pronto para encontrar-se o homólogo russo, Vladimir Putin “já amanhã”. “Entendemos que na Rússia há uma pessoa que toma as decisões. E se quisermos uma decisão importante sobre o cessar-fogo e outras decisões, precisamos dessa pessoa na sala. Por que é tão difícil nos reunirmos e começarmos a conversar?”, questionou o responsável da Ucrânia.

No mesmo sentido, Heorhii Tykhyi criticou o facto de a Rússia não estar a avançar na mesma intensidade do que a Ucrânia no que concerne às negociações de paz. Os encontros na Turquia “mostram resultados apenas na área humanitária e muito pouco progresso na área política”. “Há apenas uma razão para isso. A Rússia não quer avançar na área política.”

O porta-voz queixou-se também dos “ultimatos, exigências e declarações maximalistas” da Rússia. “Em relação à Ucrânia, a posição de princípio é que precisamos de um cessar-fogo. E achamos isso lógico. As armas devem ser travadas e os diplomatas devem começar a conversar. E se tivermos um cessar-fogo total, a diplomacia será muito mais eficaz”, notou Heorhii Tykhyi, que descreveu como “executáveis” as propostas ucranianas, ao passo que as russas “estão muito longe disso”.

O cessar-fogo deve ser, salientou também Rustem Umerov, “genuíno”. “Deve incluir o cessar completo de ataques a civis e infraestruturas. As medidas efetivas são possíveis — e cada lado deve demonstrar uma abordagem construtiva e realista”, realçou.

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Rússia não fecha a porta a encontro entre líderes

A porta não está fechada para a Rússia em relação ao encontro entre Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky, ainda que imponha várias condições. O líder da delegação russa nas negociações de paz em Istambul, Vladimir Medinsky, indicou, na conferência de imprensa, que “é necessário primeiro discutir um acordo antes que os líderes da Rússia e da Ucrânia possam se reunir”. O encontro deve também ser “cuidadosamente planeado”.

Ainda assim, o chefe da delegação russa estava mais preocupado em focar as questões humanitárias. O responsável apelou a um cessar-fogo entre “24 a 48 horas” nas linhas da frente e apresentou uma nova troca de prisioneiros. “Mais uma vez, propusemos ao lado ucraniano que considere estabelecer breves tréguas de 24 a 48 horas nas linhas da frente para que as equipas médicas possam retirar os feridos e os comandantes possam recuperar os corpos dos seus soldados”, assinalou Vladimir Medinsky.

O negociador russo referiu que Rússia e a Ucrânia acordaram, no final das negociações, uma nova troca de prisioneiros envolvendo 1.200 pessoas de cada lado. Moscovo ofereceu também a Kiev os corpos de mais 3.000 soldados, num processo que seria mediado pela Cruz Vermelha — mas que ainda não foi confirmado pelo governo ucraniano.

Segundo Vladimir Medinsky, as posições dos dois países ainda estão “bastante distantes”, três anos e meio depois do início da invasão russa. “Discutimos longamente as posições apresentadas pelas nossas partes nos memorandos transmitidos da última vez. Essas posições estão bastante distantes.”

Neste sentido, o negociador revelou que a Rússia propôs criar três grupos de trabalho, que funcionariam online, de forma a economizar recursos financeiros. O responsável russo frisou que a Ucrânia está a ponderar juntar-se a esse formato.