Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), responsáveis pela linha SNS 24, detetaram “um erro humano na aplicação do algoritmo de triagem e no encaminhamento” da grávida que deu à luz numa rua do Carregado, “levando a que a chamada não tivesse sido transferida para o INEM – Instituto Nacional de Emergência Médica”.

Em comunicado enviado às redações, é indicado que, “auditado o sistema da Linha SNS 24, regista-se uma chamada da utente para a opção ‘Linha SNS
Grávida’, às 10h16, de 11 de agosto de 2025”.

“A chamada foi atendida, por um enfermeiro, no espaço de 17 segundos. O processo de triagem durou cerca de 4 minutos, tendo a utente sido encaminhada para um Serviço de Urgência Obstétrico. Naquele momento, e para a área de abrangência geográfica, o prestador de saúde disponível no sistema de informação era o Hospital Beatriz Ângelo – Loures”. O erro humano, que fez com que esse encaminhamento não fosse indicado ao INEM, foi detetado numa averiguação preliminar solicitada pela SPMS ao operador privado da Linha SNS 24.

IGAS também anunciou abertura de inquérito

A Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) vai abrir um inquérito ao caso da grávida que deu à luz esta segunda-feira de manhã numa rua do Carregado, no concelho de Alenquer. Foi a própria ministra da Saúde a pedir à IGAS que investigasse as circunstâncias em que tudo aconteceu.

“A Ministra da Saúde solicitou à Inspeção-Geral das Atividades em Saúde a abertura de um processo de inquérito” para “investigar os factos relativos à assistência prestada pela Linha SNS 24 e pelo Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), no momento da ocorrência, bem como à assistência prestada pela Unidade Local de Saúde do Estuário do Tejo à grávida”, adianta o gabinete de Ana Paula Martins, em resposta enviada ao Observador.

Contactado pelo Observador, o inspetor-geral da Saúde, Carlos Carapeto, confirma que recebeu o pedido da tutela e já ordenou a abertura de um inquérito.

Grávida tem bebé na rua no Carregado. Ligou para a linha SNS24 a pedir ambulância e foi indicado que era melhor ir de carro

Além do processo de inquérito aberto pela IGAS, também os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) abriram uma “averiguação interna”. “Na sequência de artigo publicado na edição de hoje do Correio da Manhã, sobre um parto realizado no Carregado, indica-se que a SPMS abriu uma averiguação interna, a fim de aferir o sucedido“, lê-se na resposta enviada ao Observador. Recorde-se que os SPMS são responsáveis pela gestão da linha SNS24, que, segundo o relato da família, terá indicado à grávida que seria melhor ir pelos seus próprios meios até ao hospital (ao invés de aguardar pela chegada de uma ambulância).

Depois, segundo o mesmo jornal, a mãe da grávida, Isabel Moreira, ainda tentou, sem sucesso, ligar para o 112, que terá demorado muito tempo a atender a chamada. Ao Observador, o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) adianta que a Central 112 encaminhou a chamada de socorro, tendo a mesma sido atendida pelo CODU às 10:29. No entanto, o INEM não esclarece quanto tempo demorou a chamada a ser atendida.

“Situação é inadmissível”, diz bastonário dos médicos

“Durante a triagem da situação, foi possível perceber que o parto já teria ocorrido”, sublinha o INEM. O CODU ativou para o local uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Alenquer, às 10:33, e a Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) de Torres Vedras, às 10:37, dado que a VMER de Vila Franca de Xira estava empenhada noutra ocorrência.  Segundo o INEM, a mãe e a bebé foram transportadas para o Hospital de Santarém, com acompanhamento do médico da Viatura Médica de Emergência e Reanimação.

O bastonário da Ordem dos Médicos (OM) considera a situação “inadmissível”. “Esta situação é inadmissível e é fundamental perceber exatamente em que circunstâncias ocorreu. O propósito da Ordem dos Médicos é garantir que, no futuro, situações semelhantes possam ser prevenidas. Para isso, é indispensável conhecer todos os factos e circunstâncias que estiveram na sua origem”, sublinha Carlos Cortes, citado num comunicado. O bastonário adiantou que a OM já solicitou esclarecimentos ao Ministério da Saúde, à Direção-Executiva do SNS e ao INEM.

“A segurança e a dignidade das pessoas, das grávidas e seus filhos têm de estar sempre em primeiro lugar”, diz o bastonário.

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