Depois de ser muito reconhecido como o piloto mais fiável do universo do MotoGP, pela capacidade que ia demonstrando em terminar todas as corridas alcançando um resultado melhor ou pior, Miguel Oliveira foi tentando vestir a capa de solucionador nos últimos três anos. Tudo acontecia, dos abalroamentos às lesões passando pela falta de rendimento das motos, tudo ia encontrando a resposta possível dentro desses mesmos condicionamentos que surgiam. Agora, na terceira marca e quatro equipa que representou no escalão maior do motociclismo, o que nasceu torto não teve mesmo solução – e o final será anunciado em breve.

“Aos 30 anos, estou mais bem preparado que nunca”: entrevista a Miguel Oliveira, piloto português do MotoGP

Apesar de ter conseguido o melhor resultado da temporada na Hungria, com um 12.º lugar alcançado a sair de uma modesta posição da grelha que o colocou mais uma vez como piloto da Yamaha a ganhar mais postos em relação à partida, a peça que faltava para conhecer o xadrez da Pramac para a próxima temporada está prestes a ser revelada, neste caso com a renovação de Jack Miller, que terminava contrato no final da época, por mais um ano (a informação foi avançada este domingo pelo Motorsport, sendo replicada depois por outros órgãos). As contas são fáceis de fazer: se Fabio Quartararo e Álex Rins estão confirmados na equipa de fábrica, se o australiano fica até 2026 e se o turco Toprak Razgatlioglu entra na Pramac, Miguel Oliveira ficará sem cadeira. Com quase todas as vagas preenchidas, poderá deixar o MotoGP sete anos depois.

A porta da saída está aberta, mas ele continua a dizer que merece ficar: Miguel Oliveira é 12.º e faz melhor resultado da época na Hungria

Foi esse ponto também que levou Miller a vir a público criticar a Yamaha pelo tempo que estava a demorar para tomar uma decisão. “Todas as hipóteses são válidas mas tenho outra opções. Fora deste paddock, claro, no MotoGP não há lugares disponíveis. Tenho um prazo definido na minha cabeça mas não vou dizer qual é. Fui mais do que paciente. Se me querem, querem, se não querem, não querem. Isto é claro e simples. Quanto mais o tempo passa, mais acho que não querem com nomes e mais nomes são acrescentados à lista. Estava ansioso por desenvolver a moto, achava que podia contribuir num projeto deste tipo mas percebo, se eles não veem o meu valor, que vou mudar para algo diferente”, referiu o piloto ao GPOne.

A Yamaha não gostou dessa “pressão” do australiano, que acabou por não concluir o último Grande Prémio da Hungria, mas acabou por acelerar algo que parecia estar há muito decidido mas não comunicado. Miguel Oliveira, esse, foi tentando lidar da melhor forma com a situação: sabia que estava há muito na corda bamba, não deixou de trabalhar para colocar a Pramac mais competitiva apesar das dificuldades da marca, tendo essa cláusula de rendimento que permite que possa não seguir na equipa caso não tenha resultados.

Miguel Oliveira ganhou primeiro round. Mas será suficiente? O que está em causa nas próximas corridas para o português

“Não me arrependo de nada do que fiz mas tenho de admitir que, se deixar o paddock, vou sentir-me incompleto. Acho que as minhas capacidades como piloto são maiores do que aquilo que fiz, do que aquilo que mostrei. Isto pode ser entendido como arrogância ou algum tipo de presunção mas é assim que me sinto. Estando num desporto que se compara imenso, comparando-me com outros pilotos, sinto que tenho mais para dar. Mas é o que é, a competição é assim. Quando estás na elite, tens de mostrar, tens de pilotar a moto o mais rápido possível. O que quer que aconteça, ficarei bem. É essa a mensagem. Estarei mais do que bem, acho”, tinha destacado o piloto português numa entrevista ao The Race na antecâmara da prova na Hungria.

O epílogo de tudo parecia escrito nas entrelinhas das próprias palavras do Falcão, aquilo que disse num dia que deveria ser de “festa” (possível) após o 12.º lugar reforçou essa mesma ideia. “O meu futuro não depende de um comunicado da Yamaha”, assumiu à SportTV. “Não se pode exigir a perfeição de uma moto quando está longe de ser perfeita. Futuro? A felicidade ou plenitude na carreira desportiva não depende uma decisão da Yamaha. Sei que o meu valor é reconhecido por outras equipas. Qualquer piloto tem como objetivo o pódio e vencer a corrida, esse é o meu lugar, tendo potencial para fazê-lo, mas esta Yamaha torna tudo muito mais difícil. A lesão no início foi outro problema”, recordou. “Se sair do MotoGP, onde tive o privilégio de estar e onde somei cinco vitórias, tenho bem definido o que vou fazer no futuro”, concluiu.

Sendo ou não o último, este tem sido o ano menos conseguido do Falcão no MotoGP, na ressaca da mudança da Aprilia para a Yamaha que acolheu a Pramac, que trabalhava com a Ducati. Depois de um 14.º lugar logo a abrir na Tailândia, Miguel Oliveira contraiu uma lesão grave no ombro na prova seguinte, na Argentina, e teve de ficar cerca de dois meses longe das pistas, voltando em França depois de três ausências num Grande Prémio onde não aguentou em termos físicos e acabou por desistir. O português ainda pontuou em Aragão (15.º) e em Itália (13.º), desistindo depois nos Países Baixos e na Alemanha antes de duas 17.ª posições consecutivas na Rep. Checa e na Áustria. Na Hungria chegou o melhor resultado, com o 12.º posto.

A confirmar-se a provável saída do MotoGP, Miguel Oliveira interrompe o percurso iniciado em 2019 no comando da Tech3 da KTM, onde esteve duas temporadas com duas vitórias em 2020, na Estíria (ainda hoje considerado um dos melhores triunfos na prova pela dupla ultrapassagem na última volta) e em Portugal. Entre 2021 e 2022, o português esteve no comando da equipa de fábrica da KTM, onde alcançou mais três triunfos (Catalunha em 2021, Indonésia e Tailândia em 2022) entre cinco pódios. Nos últimos dois anos, o Falcão passou pela Aprilia, onde teve como melhor resultado um quarto lugar na Grã-Bretanha em 2022 num ano marcado pelos “abalroamentos”, antes de assinar em 2025 pela Yamaha Pramac.

E o que pode reservar o futuro? Para já existem apenas especulações, entre a possibilidade de passar a piloto de testes do MotoGP ou rumar ao Mundial de Superbikes (WSBK), mas esta semana trouxe um dado novo entre todas as hipóteses perante o anúncio da reforma de Jonathan Rea, piloto que foi seis vezes campeão da categoria e que vai deixar uma posição em aberto na estrutura nipónica nesse campeonato. Os outros possíveis planos apontam para diretrizes inversas: ocupar a posição de Álex Rins na Yamaha oficial, perante os maus resultados do espanhol e a ligação que o Falcão tem com Fabio Quartararo (embora seja nesta altura um cenário mais remoto), ou a hipótese de passar a ser o piloto de testes da Aprilia, que tem apenas para a função Lorenzo Savadori e que pode abrir a porta a um outro tipo de ligação ao MotoGP. É provável que nas próximas semanas surjam novidades, sendo que no dia 7 há o Grande Prémio da Catalunha.

Juntando Moto3, Moto2 e MotoGP, Miguel Oliveira é nesta altura o 51.º piloto com mais vitórias em todas as categorias do motociclismo (17), ficando apenas atrás neste particular de Marc Márquez (98), Pecco Bagnaia (40, sendo que muitos foram em duelo direto com o português nos escalões mais baixos), Maverick Viñales (26), Álex Rins (18) e Jorge Martín (18) olhando para todos os atuais pilotos no principal escalão.

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