Nas primeiras semanas de 2025, ainda em treinos e depois em competição, Miguel Oliveira lutava contra o tempo. O projeto da Pramac na Yamaha era novo, o trabalho para chegar ao rendimento das outras equipas tinha de ser acelerado, os sinais que ficaram na Tailândia até eram positivos mas não tinham ainda as bases necessárias para funcionaram para um crescimento sustentável. Depois, na sequência da queda no choque provocado por Fermín Aldeguer na Argentina, Miguel Oliveira lutava contra si mesmo. A recuperação foi mais longa do que previsto nos primeiros exames, só dois meses depois é que o português voltou às pistas, esse regresso obrigou a um esforço físico para o qual não estava ainda preparado. Agora, Miguel Oliveira começou uma luta quase contra tudo e contra todos com um único objetivo: assegurar lugar na equipa.

Entre a falência da Yamaha, ele conseguiu sobreviver: Miguel Oliveira faz melhor resultado de 2025 com 13.º lugar em Itália

“Estou melhor, melhor do que nunca nas últimas semanas. A lesão foi demorada porque não podia ser operada, então tivemos que ter um pouco de paciência. Ganhámos, porque não estava ainda 100% em forma e mesmo assim corri em Le Mans e Silverstone. Foi como uma vitória. Tive tempo para me habituar à moto e ao fim de semana de corrida. É simples: para ser competitivo no MotoGP, é preciso estar 100% em forma fisicamente. Claro que se pode correr mas quando se regressa após uma lesão, é preciso repensar um pouco os objetivos para o regresso porque se quer correr rápido na cabeça mas não se consegue porque se está fisicamente limitado”, comentava após o 15.º lugar em Aragão, prova que marcou o regresso aos pontos.

Depois disso, caiu a “bomba” – e uma espécie de espada que começou a andar em cima da cabeça não só do português mas também do companheiro, Jack Miller. A Yamaha jogou em antecipação e contratou o jovem prodígio turco Toprak Razgatlioglu, que assinou contrato até ao final de 2027. Faltava apenas um lugar na equipa, neste caso na Pramac (apesar de poder ter condições idênticas às de Fabio Quartararo, que tem uma moto de fábrica). É aqui que entra o piloto de Almada, que quando mudou da Aprilia assinou contrato com a Yamaha Racing com cláusulas que davam margem para uma substituição durante a época.

Do mal o menos: Miguel Oliveira volta aos pontos em Aragão num fim de semana para esquecer da Yamaha

“O contrato do Miguel tem algumas opções. O que posso dizer sobre isso é que ele tem o seu futuro nas suas mãos. O que queremos fazer é oferecer o melhor em termos de apoio a ambos [Jack Miller e Miguel Oliveira] e depois, se estivermos na posição de decidir, vamos fazer a nossa análise e tomar uma decisão. Não temos qualquer pressa mas também sabemos que antes da pausa de verão uma decisão terá de ser tomada, também para eles. Quando alguém de novo vem, temos de arranjar espaço e isto não é algo que gostamos de fazer mas faz parte do jogo e parte do desporto. Também queremos dar aos dois pilotos mais tempo para podermos fazer uma análise completa e depois escolher e fazer uma proposta, provavelmente a um dos dois”, referiu na antecâmara do Grande Prémio de Itália o diretor da Yamaha Racing, Paolo Pavesio.

“O Toprak é um grande talento. Ele tem tudo para ser competitivo e demonstrar que a transição do SBK para a MotoGP ainda é possível. Ele tem os ingredientes para conseguir algo importante. Nós vamos dar o máximo apoio para demonstrarem que merecem ficar com o lugar que resta. Admito que lamento muito que me tenha de separar de um deles, porque são duas ótimas pessoas, mas teremos de fazer uma escolha baseada na parte desportiva. É a lei do mais forte…”, acrescentou Gino Borsoi, team manager da Yamaha Racing.

“É claro que a contratação do Toprak coloca um elemento de maior pressão nisto, vamos chamar-lhe o segundo lugar [na equipa] para o próximo ano. Penso que todos estamos curiosos no que o Toprak vai fazer em MotoGP mas do meu lado estou completamente focado no presente, para fazer o melhor que conseguir com a moto e maximizar o meu potencial e o potencial da moto. Acredito em mim e vamos ver o que acontece nas próximas duas corridas. Mas estou confiante que vamos começar a fazer bons resultados e depois a decisão, obviamente, não será minha”, frisou o português, também em Mugello, a esse propósito.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]

Num cenário mais a curto prazo, Itália e Países Baixos poderiam ser decisivos. Numa visão não tão restrita, Alemanha e Rep. Checa, que chegam antes da paragem de verão, também têm condições para entrar nas contas. Uma coisa é certa: a partir de agora, tudo conta. E sendo certo que Miguel Oliveira parte atrás nesta corrida, tendo em conta que falhou quase metade das nove provas de 2025 e tem uma diferença assinalável de pontos face a Jack Miller nesta fase (31-6), o primeiro round em Mugello caiu para o português.

Depois de ter sido o único piloto da Yamaha a melhorar na sprint face à posição de saída na grelha, sendo que nos treinos livres tinha ficado apenas a 0,125 de entrar de forma direta na Q2, Miguel Oliveira fintou a lógica e terminou como o melhor piloto da marca no traçado transalpino, fazendo o melhor resultado do ano com a 13.ª posição à frente de Fabio Quartararo (14.º), Álex Rins (15.º) e Jack Miller (desistiu). A corrida foi muito difícil para todos, o andamento das motos nipónicas ficaram sempre aquém, o desgaste dos pneus voltou a fazer a diferença mas, entre todas as dificuldades, o Falcão conseguiu segurar o melhor lugar possível.

“Ser a primeira Yamaha a cortar a meta torna tudo um pouco menos desapontante mas o resultado e a diferença para a frente, que ficou nos 26 segundos, é o que realmente importa e é demasiado grande. Faltou performance e ritmo, controlar as vibrações da moto foi difícil. O calor e a dificuldade de ultrapassagem tornaram as coisas quase impossíveis. Manter o grupo da frente implicou forçar os pneus ao limite, sem hipótese de controlar o que quer que fosse. Foi uma prova dura mas é o que é. Vamos analisar tudo e tentar melhorar para Assen”, comentou o português depois da 13.ª posição na corrida que terminou com a 93.ª vitória da carreira de Marc Márquez, à frente do irmão Álex Márquez e do italiano Fabio Di Giannantonio.

“Não é na reta que perdemos, é à saída das curvas. Basicamente, estamos a fazer tudo demasiado devagar. Não travamos como deve ser, perdemos velocidade a entrar nas curvas, não conseguimos controlar bem a entrada nem carregar mais velocidade e depois não gerimos os pneus à saída. Não conseguimos fazer nada disto. Estamos no limite nos travões, no limite com o pneu da frente só para conseguir virar e manter alguma velocidade de curva e depois usamos imenso pneu só para acelerar e tentar ficar perto dos outros”, referiu também à imprensa especializada, a propósito dos problemas detetados na moto. “Corrida para lá de dura mas ao menos a minha Yamaha tricolor estava linda! Mais uma corrida nos pontos. Seguimos para Assen”, escreveu depois nas suas redes sociais, colocando de novo o foco na prova nos Países Baixos.

Também Jack Miller, que teve mesmo de desistir por problemas, lamentou os problemas na moto. “Logo no arranque, a embraiagem praticamente queimou-se assim que a larguei apesar de ter feito um bom arranque. Nas três primeiras voltas estava a patinar imenso. Estava a trocar de mudanças mais cedo em todo o lado, a tentar reanimá-la. Recuperou um pouco mas sempre que apanhava um ressalto, parecia um pontapé e atirava-me para fora da trajetória. Fui ultrapassado por toda a gente e, depois de um toque com alguém na primeira volta, ainda perdi uma asa, o que me deixou com a frente da moto a levantar. Depois tivemos um problema de combustível que tornou a moto ainda mais agressiva. A partir daí, era praticamente impossível de conduzir. Tive de desistir. É altura de fazer reset e olhar em frente”, apontou o piloto australiano.

Também Gino Borsoi comentou os resultados em Mugello depois da prova, destacando aquilo que Miguel Oliveira conseguiu fazer. “Foi um fim de semana muito difícil, complicado desde o primeiro dia. Dito isto, quero destacar a forte corrida do Miguel, que me dá esperança para o futuro. Infelizmente, o Jack [Miller] foi afetado por um problema técnico que o obrigou a abandonar a corrida. Precisamos definitivamente de melhorar, especialmente nestas condições de alta temperatura. Ainda assim, acredito que saímos com uma melhor compreensão de como lidar com estas situações e estou confiante de que esta experiência nos ajudará a dar um passo em frente”, frisou, apontando já para o Grande Prémio em Essen.

É nos Países Baixos que haverá essa espécie de segundo round, numa pista bem conhecida do português onde chegou a ganhar e a ficar na terceira posição ainda no Moto3 e conseguiu três top 10 quando estava na KTM. Já Jack Miller conseguiu a sua primeira vitória no MotoGP em Essen, quando representava a Honda em 2016, seguindo-se quatro top 10 no traçado. Na última temporada, o australiano acabou na 11.ª posição quando representava ainda a KTM, ao passo que o português foi 15.º ainda pela Aprilia.