A Google não vai ser obrigada a vender o Chrome, o navegador mais usado do mundo. Este é um dos principais pontos da decisão do juiz Amit Mehta, que revelou esta terça-feira à noite os remédios no âmbito do caso de monopólio da tecnológica na pesquisa.
Numa decisão de 230 páginas, o juiz não aceitou algumas das propostas mais ambiciosas do Departamento de Justiça (DOJ) norte-americano. Os procuradores defendiam a divisão da Google para repor a concorrência no mercado da pesquisa, através da venda de unidades de negócio como o Chrome e o Android, o sistema operativo móvel.
O juiz Amit Mehta considerou que “os queixosos se excederam ao forçar um desinvestimento destes ativos-chave, que a Google não usou para assegurar qualquer limitação ilegal”. Concretamente em relação a uma venda do Chrome, o juiz fala numa situação “incrivelmente complicada e altamente arriscada”, já que este não é um “negócio isolado” e depende da própria infraestrutura da Google. O juiz também sugere que uma venda do Chrome se poderia traduzir numa “degradação substancial do produto” para os consumidores.
Assim, a Google vai poder manter as duas áreas de negócio, mas vai ter de fazer concessões. Uma delas passa pela obrigação de que a Google partilhe informação valiosa sobre a pesquisa com rivais, tal como “certos dados de indexação de pesquisa e dados sobre interações dos utilizadores”. Ao longo dos últimos meses, a tecnológica tem contestado esta opção, recorrendo a argumentos como o segredo de negócio ou até sobre segurança.
Outro dos remédios desta decisão passa pela proibição de que a Google faça acordos de exclusividade para distribuir os seus produtos de pesquisa (motor de pesquisa, Chrome, assistente) ou serviços de inteligência artificial (IA) como a app Gemini de uma forma que possa limitar os concorrentes.
Haverá alguns acordos que a Google poderá manter, como aqueles que tem com fabricantes de smartphones para ter já instalado o Chrome e outros produtos de IA generativa em equipamentos ou serviços. A empresa tem acordos deste género com a Apple e Samsung, entre outras marcas, mas também com a Firefox. Só o acordo com a Apple, que se traduz no Google como motor de pesquisa por defeito no navegador Safari, vale cerca de 20 mil milhões de dólares.
O juiz norte-americano considera que “acabar com esses pagamentos da Google iria certamente impor perigos substanciais — em alguns casos debilitantes — a parceiros de distribuição, mercados relacionados e consumidores (…)”.
E admitiu a dificuldade de uma decisão deste tipo, dizendo que não é um “caso típico de resolver uma disputa baseada em factos históricos”. “Aqui é pedido ao tribunal que olhe para uma bola de cristal e veja o futuro. Não é exatamente o forte de um juiz.”
Em reação à decisão, Pamela Bondi, a procuradora-geral norte-americana, destacou a decisão como “um passo importante na luta em curso do Departamento de Justiça para proteger os consumidores americanos”. “Sob a liderança do Presidente Trump vamos continuar os nossos esforços legais para responsabilizar as empresas pelas suas práticas de monopólio.”
As ações da Google reagiram em alta à decisão. Ainda na terça-feira à noite, no after-hours do mercado, subiram 7,2%. Na manhã desta quarta, antes da abertura do mercado norte-americano, sobem 5%.
Esta decisão é o culminar de um processo que teve início ainda em 2020. Depois de, em 2024, o juiz decidir que a Google tem efetivamente um monopólio ilegal na pesquisa, seguiu-se uma fase de julgamento que levou vários responsáveis da Google a tribunal. Em maio, houve ainda uma fase de três semanas em tribunal para analisar possíveis remédios, sendo ouvidos os executivos de empresas como a Apple, OpenAI ou a Perplexity.
Várias empresas, incluindo a dona do ChatGPT, mostraram-se interessadas em ficar com o Chrome se a Google fosse forçada a uma venda. A Perplexity foi mais longe, ao tornar pública uma oferta não solicitada de 34,5 mil milhões de dólares pelo Chrome.
OpenAI quer comprar Chrome se a Google for obrigada a vender o navegador
Google tem “preocupações” com o impacto de alguns pontos da decisão
A tecnológica reagiu à decisão através de uma publicação no seu blog, assinada por Lee-Anne Mulholland, vice-presidente de questões regulatórias. “A decisão de hoje [terça-feira] reconhece quanto a indústria mudou com o surgimento da IA, que está a dar a muita gente mais formas de encontrar informação”, disse, realçando que a “concorrência é intensa” no mercado.
A empresa levanta “preocupações” sobre a partilha de dados de pesquisa com rivais, argumentando que “irá ter impacto nos utilizadores e na sua privacidade”, explicando que estão a analisar a decisão integral “de forma cuidada”.
“O tribunal reconheceu que vender o Chrome e o Android iria além do foco do caso na distribuição da pesquisa e que iria penalizar os consumidores e os nossos parceiros”, acrescentou a responsável da tecnológica.
Rival DuckDuckGo preferia remédios mais robustos
A DuckDuckGo foi uma das empresas que esteve presente nas várias fases do julgamento contra a Google. Depois da decisão, o CEO Gabriel Weinberg disse numa nota que os remédios permitem à Google “continuar a usar o seu monopólio para limitar os concorrentes, incluindo na pesquisa com IA”.
“Como resultado, os consumidores vão continuar a sofrer”, declarou. “Acreditamos que o Congresso deve agora agir de forma rápida para fazer com que a Google faça aquilo que mais teme: competir num campo equilibrado.”
A statement from our CEO on the US v Google remedies:
"We do not believe the remedies ordered by the court will force the changes necessary to adequately address Google’s illegal behavior. Google will still be allowed to continue to use its monopoly to hold back competitors,…
— DuckDuckGo (@DuckDuckGo) September 2, 2025