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As Forças de Defesa de Israel lançaram esta terça-feira uma operação na capital do Qatar, com o objetivo de atingir uma delegação do Hamas que se encontrava no país para negociações sobre o conflito na Faixa de Gaza. Para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, este foi um ataque ataque “cirúrgico” para eliminar os líderes “terroristas” do grupo palestiniano.
A “Operação Cimeira de Fogo” — assim apelidada por Israel — provocou pelo menos seis mortos, avançou o Hamas. Num comunicado, citado pela agência Reuters, o grupo refere que entre as vítimas há cinco dos seus membros: o filho do líder do Hamas Khalil Al-Hayya; o chefe de gabinete de Al-Hayya; e três seguranças. Também morreu um elemento das forças de segurança do Qatar (identificado como Badr Saad Mohammed Al-Humaidi) e vários outros ficaram feridos, uma informação confirmada pelo Ministério do Interior do país.
Nenhum dos líderes da organização terrorista foi morto nesta ofensiva, o que fez o Hamas vir sublinhar que Telavive “falhou” na tentativa de matar os elementos que compunham a delegação de negociações do grupo. Apesar disso, considera que se trata de uma prova de que o Governo israelita não quer alcançar um cessar-fogo em Gaza.
O ataque no Qatar, um dos países que está a mediar as tentativas de negociação para um cessar-fogo no enclave palestiniano e libertação de reféns, envolveu mais de dez caças israelitas. As aeronaves dispararam mais de dez munições, todas atingiram o mesmo alvo em Doha, noticiou o Times of Israel citando fontes militares. O Ministério do Interior qatari adiantou que se tratava de um dos quartéis-generais do Hamas.
The Ministry of Interior announces that the sounds heard in Doha were due to the targeting of one of the residential headquarters of Hamas.
The Ministry confirms that the specialized teams are carrying out their duties, that the situation is safe, and calls on everyone to obtain…
— Ministry of Interior – Qatar (@MOI_QatarEn) September 9, 2025
Ao final da noite o primeiro-ministro do Qatar criticou o ataque “traiçoeiro”. “Esta é uma mensagem para toda a região: há um jogador desonesto na região”, sublinhou Tamim bin Hamad Al-Thani numa conferência de imprensa. Acrescentou que o país tem o direito de responder a Telavive, mas garantiu que não suspende a mediação do conflito em Gaza.
Ataque israelita “cirúrgico” teria como alvo o principal negociador do Hamas
O primeiro-ministro e o ministro da Defesa israelitas emitiram um comunicado conjunto em que justificaram que a ofensiva contra o Qatar, que tinha como alvo membros do Hamas, foi uma resposta ao ataque a Jerusalém Oriental — reivindicado esta terça-feira pelo braço armado do Hamas, as Brigadas al-Qasam. Seis pessoas morreram e dez ficaram feridas quando dois atiradores dispararam no interior de um autocarro cheio de passageiros.
Ataque a um autocarro em Jerusalém Oriental faz seis mortos e dez feridos
“Ontem, depois dos ataques em Jerusalém e Gaza, o primeiro-ministro Netanyahu ordenou que todos os elementos de segurança se preparassem para a possibilidade de atacar a liderança do Hamas. O Ministro da Defesa apoiou integralmente a iniciativa”, lê-se no comunicado. As ordens para ataque foram transmitidas às Forças de Defesa de Israel ainda na segunda-feira à noite.
Benjamin Netanyahu e Israel Katz “acreditam que a ação foi totalmente justificada, afirmando que “esta liderança do Hamas iniciou e organizou os massacres de 7 de outubro”. “Desde então não cessou de lançar operações assassinas contra o Estado de Israel e os seus cidadãos, incluindo assumindo a responsabilidade pelo assassinato dos nossos cidadãos nos ataques terroristas de ontem em Jerusalém”, sublinham os governantes.
Horas depois, num evento na embaixada norte-americana em Jerusalém, o primeiro-ministro israelita disse que o tempo em que os líderes do Hamas saíam impunes acabou, sublinhando que o ataque desta terça-feira “pode abrir a porta para o fim da guerra em Gaza”. “Não vou permitir que esse tipo de imunidade exista para os assassinos do nosso povo”, garantiu, primeiro em hebraico e depois em inglês.
“Israel aceitou os princípios, a proposta avançada pelo Presidente Trump para pôr fim à guerra, a começar com a libertação de todos os nossos reféns”, continuou. Netanyahu acrescentou que se o plano do líder norte-americano for aceite, “a guerra pode acabar imediatamente”.
O Hamas condenou “o ataque traiçoeiro do regime sionista”. “É um crime hediondo, um ato flagrante de agressão e uma violação flagrante de todas as normas e leis internacionais”, defendeu numa publicação na rede social Telegram.
O grupo palestiniano refere que o crime representou um “atentado à soberania” do Qatar. “Mais uma vez, expõe a natureza criminosa da ocupação e o seu desejo de minar qualquer hipótese de se chegar a um acordo”, defendeu, acrescentando que também responsabiliza os Estados Unidos pela operação, “devido ao seu apoio constante à agressão e aos crimes da ocupação contra o nosso povo”.
Os meios de comunicação israelitas noticiaram que um dos alvos do ataque seria Khalil al-Hayya, o principal negociador do Hamas e líder exilado de Gaza. Al-Hayya tem-se tornado uma figura de maior relevo na liderança do grupo palestiniano desde a morte de figuras como Ismail Haniyeh (morto num ataque israelita no Irão) e Yahya Sinwar (morto numa troca de fogo entre militantes do Hamas e soldados israelitas no sul da Faixa de Gaza).
Al-Hayya é um de cinco responsáveis do conselho que lidera o Hamas desde a morte de Sinwar em outubro do ano passado. Segundo a Reuters, nasceu na Faixa de Gaza em 1960 e pertence ao grupo palestiniano desde a sua criação, em 1987. Antes disso, pertenceu juntamente com Sinwar e Haniyeh à Irmandade Muçulmana — o movimento islâmico sunita do qual o Hamas emergiu–, revelaram fontes do Hamas citadas pela agência.
Khalil al-Hayya foi detido várias vezes pelas forças israelitas em Gaza. Perdeu vários membros da família em ataques lançados por Telavive no enclave palestiniano, tendo um dos filhos morrido na operação desta terça-feira em Doha. Terá fortes laços com o Irão, cujo apoio militar e financeiro tem sido fundamental para o Hamas. Não é a primeira vez que o líder do grupo está envolvido nos esforços de negociação, tendo desempenhado um papel de negociador no fim do conflito de 2014.
Da ajuda vital do Irão aos túneis secretos. Como é que o Hamas consegue ter armas e rockets?
Segundo o Times of Israel, também se acreditava que no momento do ataque israelita estavam presentes na sede do Hamas Zaher Jabarin, que lidera o grupo na Cisjordânia; Khaled Mashaal, líder dos elementos da diáspora; e Muhammad Darwish, membro do Conselho Consultivo Shura.
Trump reconhece que aviso dos EUA ao “amigo” Qatar chegou muito tarde
Duas fontes israelitas revelaram à CNN que o ataque estava a ser preparado há cerca de dois ou três meses, mas que os preparativos foram acelerados nas últimas semanas. A informação vai ao encontro do que o Canal 12 também noticiou, com a diferença de que o meio de comunicação israelita indicou que uma data anterior para a operação foi adiada por razões não especificadas.
Para já não é claro o nível de conhecimento dos Estados Unidos da América, aliado de Israel, sobre o ataque. A Reuters noticiou que Israel teria alertado a Casa Branca da ofensiva — como já aconteceu em operações anteriores. Já uma fonte israelita disse ao Canal 12 que o Presidente Donald Trump teria aprovado a operação israelita. Por outro lado, uma fonte norte-americana indicou ao Axios que a administração de Donald Trump só foi informada pelos israelitas numa altura em que os misseis já estavam no ar, não deixando margem para os EUA se pronunciarem.
A porta-voz da Casa Branca transmitiu numa conferência de imprensa esta tarde algumas informações sobre a posição dos EUA. Karoline Leavitt aproveitou o momento para ler um comunicado em que referia que, durante a manhã, a administração de Donald Trump foi informada pelo exército norte-americano de que Israel estava a atacar o Hamas e que, “infelizmente”, a operação “estava localizada numa secção de Doha”.
“Bombardear unilateralmente o Qatar — uma nação soberana e um aliado próximo dos Estados Unidos que está a trabalhar muito e a tomar riscos corajosamente para connosco alcançar a paz — não promove os objetivos de Israel ou da América”, afirmou Leavitt, que lia perante os jornalistas um comunicado previamente preparado. “No entanto, eliminar o Hamas — que beneficiou da miséria daqueles que vivem em Gaza — é um objetivo digno”, acrescentou.
Leavitt garantiu que o líder norte-americano ordenou “imediatamente” que o enviado especial Steve Witkoff avisasse o Qatar do ataque. Ressalvou que Donald Trump vê o país como um aliado e amigo e “sente-se muito mal pela localização do ataque”.
Karoline Leavitt explicou que na sequência do ataque Trump falou com o primeiro-ministro israelita, que lhe garantiu que quer alcançar paz na região rapidamente. “O Presidente Trump acredita que este acidente infeliz pode servir como uma oportunidade para a paz”. Trump também falou com o emir e o primeiro-ministro do Qatar, a quem garantiu que um ataque como este não voltará a acontecer. Questionada sobre se Trump também tinha deixado isso claro a Netanyahu, a porta-voz garantiu que a mensagem foi transmitida a ambos e que sublinhou a importância da paz na região.
Questionada sobre se podia dizer se Israel informou os EUA do ataque, Leavitt repetiu apenas que foram os militares norte-americanos a informar a administração.
Donald Trump reagiu pela primeira vez ao ataque já depois desta conferência de imprensa, através de uma publicação na rede social de que é dono, a Truth Social. O Presidente dos EUA limitou-se a repetir praticamente o conteúdo do comunicado lido pela porta-voz da Casa Branca, com uma exceção: reconheceu que o aviso dos EUA ao “amigo” Qatar sobre a ofensiva de Telavive chegou tarde. “Ordenei imediatamente ao enviado especial Steve Witkoff que informasse os qataris sobre o ataque iminente, o que ele fez, no entanto, infelizmente, tarde demais para impedir o ataque”, escreveu.
O próprio ministro dos Negócios Estrangeiros do Qatar garantiu esta tarde que as informações sobre o país ter sido informado com antecedência do ataque israelita a Doha “não têm fundamento”. “A chamada de um responsável norte-americano ocorreu durante o som das explosões provocadas pelo ataque israelita em Doha”, escreveu na rede social X. O primeiro-ministro qatari especificou numa conferência de imprensa horas depois que o aviso norte-americano chegou dez minutos depois do início da operação.
Trump lamentou que a operação tivesse acontecido em território do Qatar: “Vejo o Qatar como um forte aliado e amigo dos EUA e sinto-me muito mal com o local do ataque. Sublinhou também que se tratou inteiramente de uma decisão israelita.“Esta decisão foi tomada pelo primeiro-ministro Netanyahu, não foi uma decisão tomada por mim”, garantiu, terminando a publicação com um apelo ao fim da guerra e à libertação de todos os reféns israelitas.