A Carris afastou o diretor de manutenção do modo elétrico, na sequência do acidente do elevador da Glória e admite agora que a empresa que desde 2019 tem os contratos de manutenção, a MNTC, “poderá não ter cumprido o contrato”.
Em reação ao relatório preliminar ao descarrilamento do passado dia 3 de setembro que provocou a morte a 16 pessoas, a empresa de transportes liderada por Pedro Bogas assinala que desconhecia parte dos factos relatados no documento do GPIAAF (Gabinete de Prevenção e Investigação em Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários), em particular no que toca às competências internas e atuação da empresa externa que fazia a manutenção dos elevadores.
A Carris lembra que tem em curso uma auditoria externa independente e garante que serão apuradas as responsabilidades pelo incumprimento dos normativos em vigor.
Apesar da empresa ter apresentado os requisitos de capacidade e habilitação, a MNTC “poderá não ter cumprido devidamente o contrato”. Mas esse eventual incumprimento, acrescenta, nunca foi reportado à administração da Carris, nomeadamente por parte de direção de manutenção do modo elétrico (liderada por Filipe Fraga), nem pelo gestor do contrato que, “aliás reiteraram a máxima confiança no desempenho desta empresa, mesmo após o acidente ter ocorrido”.
Para além de questionar as competências internas para funiculares, o relatório diz que as tarefas de manutenção registadas nem sempre correspondem às efetivamente realizadas.
Já sobre a “perceção” que o relatório refere de que a “segurança do sistema dependia inteiramente do cabo e que o sistema de freio não era eficaz para imobilizar as cabinas sem o cabo”, a Carris diz que tal perceção nunca foi transmitida à administração da empresa. Nem foi feita qualquer proposta técnica sobre o tema.
Quanto ao processo de substituição de cabos que levou a empresa a comprar um tipo distinto do que usava no passado e que, segundo o GPIAAF, não cumpria as especificações, nem estavam conforme as regras definidas pela própria empresa, o comunicado da Carris atira responsabilidade para o anterior conselho de administração durante o qual decorreu todo o processo de substituição dos cabos. Segundo o relato do GPIAAF, a contratação dos cabos começou com a administração de Tiago Lopes Farias em março de 2022, tendo o processo de instalação no elevador da Glória ficado concluído com a atual administração.
Todo este processo aconteceu já depois da Câmara Municipal de Lisboa ter ficado com a tutela da Carris.
No entanto, e tal como assinala a Carris, o relatório do GPIAAF não aponta ainda para que tenha sido essa a causa do acidente.
Carris diz que cabe ao IMT supervisionar regulação técnica e segurança do elevador da Glória
A empresa assume ainda a discordância com a parte do relatório do GPIAAF que aborda o enquadramento legal (ou falta dele) do elevador da Glória. E diz que o IMT (Instituto de Mobilidade e Transportes) “não adiantou até à data, qualquer explicação fundamentada para o facto de os ascensores da Glória e do Lavra estarem fora do âmbito de aplicação” da lei que atribuiu a esta entidade a responsabilidade pelos restantes elevadores.
Enquanto operador, a Carris “desde logo não aceita que se encontra na sua exclusiva responsabilidade os aspetos relativos à segurança da operação dos ascensores” e diz que não tem habilitação legal e contratual para definir regulação técnica e de segurança.
“A regulação técnica e respetiva supervisão do Ascensor da Glória deve incumbir muito claramente à entidade da administração indireta do Estado com vastas e históricas atribuições nesta matéria (atualmente o IMT, IP), a qual, com base na lei vigente e noutras disposições regulamentares, as vem aliás exercendo proactivamente quanto a vários equipamentos similares integrados no estabelecimento da concessão da Carris (Elevador de Santa Justa e Ascensor da Bica)”.
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