Em Sintra, a aliança entre PSD e IL acabou antes de começar. Apesar do aviso que os liberais já tinham feito, e da posição que já tinham aprovado formalmente, sobre não entrarem em executivos municipais em que o Chega fosse integrado, em Sintra o PSD chegou mesmo a acordo com o partido de André Ventura. Resultado: o verniz estalou num dos maiores concelhos do país, a IL retirou a confiança política à sua vereadora e esta deixará mesmo de fazer parte da direção dos liberais.

Como o Observador tinha adiantado, após a coligação ao lado de CDS e/ou IL nalguns dos principais concelhos do país (Lisboa, Porto, Gaia e Sintra à cabeça), o PSD teria interesse em chamar vereadores eleitos pelo Chega para compor maiorias nalgumas das autarquias que conquistou. Em Sintra, a ideia concretizou-se: como o Público adiantava esta quinta-feira, o autarca eleito em Sintra, Marco Almeida, conseguiu chegar a acordo com a vereação do Chega, a quem entregará dois pelouros.

Ora a IL, que já tinha avisado que não entraria em executivos municipais em que o Chega também estivesse incluído, decidiu romper a corda; mas a sua vereadora eleita, Eunice Baeta, que faz parte do núcleo de direção mais restrito do partido, quis manter-se no executivo, contra as orientações nacionais adotadas pelos liberais.

A consequência foi conhecida esta sexta-feira: a presidente da IL, Mariana Leitão, retirou-lhe a confiança política, o que significa que os liberais perdem um lugar de vereação (uma vez que o mandato é pessoal, e não do partido).

“Eunice Baeta, vereadora eleita pela coligação PSD/IL em Sintra, informou-me ontem que tomou a decisão de integrar um executivo nessas condições, violando a decisão tomada pela Comissão Executiva da IL”, lê-se numa nota assinada pela líder da IL.

Além disso, e por causa desse “desrespeito” pela decisão que a direção da IL tinha tomado (e de que Baeta faz parte), “solicitei que apresentasse a sua renúncia ao cargo de vogal da Comissão Executiva, por não estarem reunidas as condições de confiança política para o continuar a exercer, o que foi aceite”, escreve Leitão.

Os argumentos contra acordos com o Chega são, assim, reafirmados pela liberal: “A Iniciativa Liberal sempre disse que nunca integraria qualquer governo com o Chega e reafirmo aqui essa posição intransponível. A Iniciativa Liberal não partilha nem tolera o populismo, o autoritarismo ou o ódio que o Chega amplifica e representa”.

E prossegue: “Não há compromisso possível entre quem defende a liberdade individual, a responsabilidade e o Estado de Direito com quem vive da divisão, da demagogia e do ataque às instituições democráticas. A Iniciativa Liberal não abdica dos seus princípios por cargo nenhum, nem viabiliza nem branqueia o projeto político do partido Chega”.

Esta sexta-feira, Marco Almeida veio recordar que durante a campanha sempre afirmou que não estabeleceria linhas vermelhas — a direção do partido também tinha deixado os autarcas à vontade para procurarem os acordos que entendessem — e que falou com “todos os eleitos” para encontrar uma solução. “O Partido Socialista recusou, entendeu ficar de fora”, disse aos jornalistas, concluindo que “em democracia não há votos de primeira nem de segunda”.

Na quinta-feira, a socialista Ana Mendes Godinho disse à Lusa que a coligação PSD/IL/PAN, que lidera a Câmara de Sintra, “optou por fazer um acordo com o Chega” no executivo, enquanto fonte próxima do social-democrata Marco Almeida recusou “discussões públicas sobre cargos”. Também o Livre e o PAN se afastaram de possíveis entendimentos que incluam o partido de André Ventura.

Na proposta de designação de novos representantes, a que a Lusa teve acesso, Marco Almeida propõe Rui Caetano para presidente da administração dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) e Paulo Gomes e Rui Covas Simões como vogais, e os vereadores Francisco Duarte (PSD) e Anabela Macedo (Chega) para a Associação de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra para o Tratamento de Resíduos Sólidos (AMTRES).

A vereadora Andreia Bernardo (PSD) é designada para a Empresa Municipal de Estacionamento de Sintra (EMES) e para a Fundação Cultursintra, juntamente com Marco Almeida e um representante do PS, enquanto Ricardo Aragão Pinto (Chega) é designado para a A2S – Associação para o Desenvolvimento Sustentável da Região Saloia, e Eunice Baeta (IL) para a Nanomat – Associação para Investigação e Desenvolvimento em Materiais Avançados e Aplicações.