Tadhg Hickey, comediante irlandês que integrou a Global Sumud Flotilla, que em agosto deste ano tentou entregar ajuda humanitária a Gaza, veio à Web Summit contar a experiência.

Naquela que foi a última sessão do palco dedicado a temas relacionados com governação, esta quinta-feira, o irlandês falou sobre as razões que o levaram a integrar a viagem. Explicou que, devido à posição que adotou sobre a causa palestiniana, nomeadamente nas redes sociais, ficou com “a carreira em pausa”. “Perdi muito trabalho corporativo. E ainda assim o meu governo e vários governos da Europa não estavam a fazer nada para impedir” a situação na Faixa de Gaza.

No palco, falou sobre os “muitos amigos palestinianos que não podiam ir na flotilha, porque isso seria um risco para eles e para outros membros da tripulação“. “Tenho um grande privilégio, porque posso ir [na flotilha] e não ser morto.” Foi direto em relação às críticas de quem considerou a flotilha como “uma manobra publicitária”. “Claro que foi, claro que foi uma manobra de relações públicas, porque não estão a falar sobre a Palestina, não estão a falar sobre os mortos, sobre a fome. Então precisámos de usar uma manobra publicitária para vos forçar a fazer a coisa certa”.

“Sim, tentávamos levar ajuda humanitária, mas também usámos a maioria dos nossos rostos brancos para levar as grandes empresas, jornalistas e os governos a fazer a coisa certa”, sublinhou.

Durante a intervenção, acusou algumas das big tech de limitarem o alcance dos seus vídeos sobre o que se passava na flotilha. “Houve uma noite, talvez a mais difícil, em que 11 dos nossos navios sofreram ataques aéreos”, contextualizou. “Eram três da manhã, gravei um vídeo para o TikTok, a pedir ao mundo e à comunidade internacional para nos ajudarem. ‘Não quero morrer, tenho dois filhos pequenos, gostaria de chegar até casa, à Irlanda. E o TikTok censurou o meu vídeo, limitou o meu vídeo para que as pessoas não vissem o meu apelo”, afirmou.

Quando a flotilha foi atacada, afirmou que teve “pela primeira vez na vida uma ínfima sensação do que é ser palestiniano”, relatando uma sensação de que “as outras pessoas não quererem saber de vocês”.

Contestou as publicações feitas por Israel nas redes sociais e questionou a razão para os “seus apelos de ajuda terem sido considerados demasiado ‘picantes'”. “Em vez de termos uma conversa sobre o que é e o que não é desinformação, temos de ter uma conversa sobre quem faz as regras.” Até porque, do seu ponto de vista, “as gerações mais jovens já não compram ou aceitam as regras como lhes foram apresentadas pelas instituições, corporações e governos”.

No fim da sessão, deixou uma mensagem aos vários empreendedores na audiência. “Sejam a mudança que querem ver na indústria”, pediu, afirmando que nas discussões que teve entre os corredores da Web Summit gostaria de ter visto mais explicações “sobre os planos éticos”. “É um mundo que está do avesso, temos de agitar a mudança e não aceitar como está.”

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A Global Sumud Flotilla não chegou à Faixa de Gaza, já que as embarcações foram intercetadas por Israel a cerca de 70 milhas náuticas da costa de Gaza, a 2 de outubro. Seguiam quatro portugueses a bordo, entre várias dezenas de participantes de vários pontos do globo: Mariana Mortágua, Sofia Aparício, Miguel Duarte e Diogo Chaves. Foram detidos por Israel e regressaram a Portugal a 6 de outubro. 

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O conflito entre Israel e o Hamas e a situação na Faixa de Gaza é um tema que, ainda que de forma discreta, marcou presença na agenda da Web Summit. Isto depois de, em 2023, as declarações do fundador da cimeira, Paddy Cosgrave, sobre a guerra em Gaza terem motivado críticas de vários empreendedores israelitas, cancelamentos de oradores e levado até ao afastamento de várias empresas da área de exposição do evento. O CEO da Web Summit chegou a demitir-se, passando o testemunho a Katherine Maher, que chegou a afirmar que o executivo irlandês se demitiu “porque estava a tornar-se uma distração“. Paddy Cosgrave regressou à liderança em abril de 2024, apenas cinco meses após a polémica, quando Maher saiu do cargo para ir liderar a rádio pública dos EUA, a NPR.

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