De um lado um candidato batido e do outro um estreante, mais agarrado aos papéis que trazia. O debate presidencial entre João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo acabou numa disputa pelo candidato com maior capacidade de resultar num Presidente independente, com acusações de parte a parte sobre eventuais existências de amarras e interesses. Concordaram em muito pouco, mas sobretudo na crítica à Justiça, nomeadamente no caso das escutas a António Costa.
A notícia tinha poucas horas, mas ambos os candidatos presidenciais condenaram que se escute um primeiro-ministro, sendo isso omitido ao Supremo Tribunal de Justiça. A resposta foi igual dos dois lados: “é muito grave” e exigem-se explicações da parte da Justiça. E noutra frente, a de guerra, também concordaram em honrar os os compromissos com a NATO, isto é, aceitar envio de tropas para a Ucrânia se isso for solicitando pela Aliança.
Em tudo o resto não houve qualquer ponto de concórdia e o debate começou mesmo crispado, com Cotrim Figueiredo a insurgir-se contra as acusações do almirante de existir “um cavalo de Tróia” em quem vem dos partidos. O ex-presidente da IL garantia ter “capacidade para resistir a interesses e influências” e atirava com o seu passado profissional e político: “Não encontram um único caso em que tenha sido influenciado ou tido pressões seja de quem for”.
Foi onde se confrontaram mais e Cotrim chegou mesmo a falar na “estrutura de candidatura” de Gouveia e Melo, a assessoria de comunicação dirigida por Luís Bernardo, o empresário que, em tempos, foi assessor de imprensa de José Sócrates. Disse que o que o almirante diz sobre máquinas partidárias “também se vê pelos que rodeiam” as candidaturas, confrontando-o não só com os antigos líderes do PSD que o apoiam, como também com as “estruturas dentro da sua candidatura que foram responsáveis pela máquina de propaganda de José Sócrates”.
A tirada não teve resposta direta de Gouveia e Melo que durante o debate esteve mais agarrado às cábulas que levava. Trazia preparado um ataque a tentar colocar o adversário na amalgama de partidos e passar a ideia de falta de independência e todos para exercerem um cargo como o de Presidente da República. “Parece que estamos nas legislativas e não presidenciais. Temos um candidato para cada partido. Um candidato presidencial tem de ser um candidato mais aberto, que possa apanhar um espectro político melhor. Estamos muito balcanizados e as soluções na Assembleia da República têm de ser encontrados com mais do que um partido. E um candidato não partidário tem mais capacidade de o fazer”, disse Gouveia e Melo.
Mas neste campo também o almirante tem uma fragilidade, o dos apoiantes da maçonaria — pergunta que já o tinha irritado na entrevista desta semana à rádio Observador. Neste debate afirmou: “Não sou maçon”. Mas ouviu Cotrim do outro lado vingar-se nas acusações de falta de independências e explorando esse flanco dos maçons que deram apoio à candidatura do almirante: “Ficou-me na cabeça: porque é que os maçons tinham interesse numa candidatura tão cedo?”. Da sua parte garantiu que também não é maçon e que usa “avental, mas na cozinha.”
Quanto a conteúdos, distanciaram-se na reforma laboral, com Cotrim a dizer que a que está a ser apresentada pelo Governo é boa para trabalhadores e empresários e que a promulgaria, se fosse Presidente. Já Gouveia e Melo foi mais recuado e escudou-se na inexistência de uma legislação fechada para não dizer o que fará se estiver em Belém e a reforma lhe chegar às mãos. “Nesta fase não tenho a certeza“ do que faria, assumiu depois de ter dito que “há necessidade de flexibilizar [o mercado laboral], mas é preciso ter cuidado para não atacar o núcleo muito restrito dos direitos dos trabalhadores.”
Voltaram a destoar na TAP e a manutenção do hub de Lisboa. Cotrim é contrário à ideia de uma companhia de aviação nas mãos do Estado, “exceto na parte do serviço público, mas aí contrata-se com qualquer empresa seja pública ou privada”. O almirante contestou e disse que “nem tudo é rentabilidade” e que “o mercado não resolve todos os problemas”. “Há opções estratégicas que têm um preço mas que o Estado tem de o considerar”, defendeu. Cotrim respondeu-lhe: “Eu tinha um professor que dizia que quando alguém falava de estratégia numa empresa queria dizer que alguém ia ao bolso de alguém”.
Outra que o almirante trouxe engatilhada foi a da revisão constitucional defendida por Cotrim e o “veto absoluto” que propõe em algumas matérias. O fundador da IL tentou esquivar-se do assunto, disse que “gosta de discussões e debater” e garantiu que cumprirá e fará cumprir a Constituição em vigor.
Diálogo esclarecedor
Gouveia e Melo: Naturalmente que tem um conjunto de ligações anteriores que o condicionam em termos ideológicos, como até em termos de conhecimentos, de interesses partilhados, de vida partilhada. Não me parece que seja bom para a democracia (…) Nós temos neste momento um conjunto de candidatos para cada partido. Julgo que há um partido ou dois que não têm candidatos e estamos numas legislativas, não nas presidenciais. O candidato presidencial tem de apanhar um espectro político maior (…) As soluções na AR vão ter de se encontrar com mais do que um partido. E um candidato partidário ajuda a encontrar porque tem essa independência, esse afastamento dos interesses partidários e das ideologias partidárias.
Cotrim Figueiredo: E ó Gouveia e Melo? E eu não tenho essa independência? Está-me a dizer que eu não tenho? Ó Gouveia e Melo, como dizia o Vítor Gonçalves todos os outros Presidentes tiveram passado. Eu tenho uma abrangência muito maior do que o partido de que sou militante. Não me vai dizer agora que é cadastro ter passado partidário. Uma pessoa que um dia se queira candidatar à Presidência da República tem de pensar muito bem em não militar em nenhum partido, senão vai ser acusado de não ser independente. Desculpe lá, isso não faz sentido absolutamente nenhum. A independência em relação às máquinas partidárias também se vê nas pessoas que nos rodeiam. Eu não tenho ninguém na minha candidatura que tenha um passado partidário como o senhor tem na sua de pessoas que foram altos dirigentes do PSD. Para não falar de outras estruturas da sua candidatura que foram responsáveis, por exemplo, por máquinas de propaganda de José Sócrates. Isso para mim é bastante mais preocupante do que ter estado na presidência do partido. Tem de me dizer na cara que não sou independente.
Gouveia e Melo: Dizendo na sua cara, que o senhor dr. não vai conseguir ser independente porque basicamente quer levar, de alguma forma, conceitos ideológicos para a Presidência da República. A Presidência da República não é um Conselho de Administração.