O ex-primeiro-ministro José Sócrates nega que a renúncia de Pedro Delille tenha sido uma manobra dilatória destinada a atrasar o julgamento da operação Marquês. Em entrevista à CNN Portugal, Sócrates criticou de forma dura a juíza Susana Seca (“que acha que faz o quer”) e explicou que escolheu o seu novo advogado, José Preto, por indicação de Pedro Delille. O ex-primeiro-ministro também revelou que vai votar em Henrique Gouveia e Melo nas eleições presidenciais.
“A sra. juíza diz que o meu advogado usou manobras dilatórias. Esta conversa das manobras dilatórias causa-me já uma certa náusea, por várias razões“, sublinhou José Sócrates, referindo que o processo da operação Marquês já se arrasta há 12 anos e meio. “O processo teve quatro anos e meio de inquérito, teve quatro anos de instrução, teve quase dois anos e meio em que houve conflito de juízes e eu nada tive a ver com isso. A ideia de que tem 12 anos e meio por minha causa é um ideia errada, que não resiste à análise dos factos”, defendeu Sócrates, referindo que a ideia de que a renúncia de Delille foi propositada e destina a atrasar o julgamento não corresponde à verdade.
“A sra juíza que convencer os portugueses de que fui eu que estive na origem da renúncia do meu advogado, que combinámos. O Dr. Pedro Delille tem um conhecimento inigualável do processo, era absolutamente essencial à minha defesa”, lembrou Sócrates, sublinhando a relação próxima que tinha com o anterior advogado. “Mais do que advogado, foi meu companheiro durante 11 anos”.
O ex-primeiro-ministro criticou, por diversas vezes, as decisões da juíza Susana Seca no julgamento. Sócrates considera que a magistrada despreza os direitos da defesa, “destratou” o seu anterior advogado e “acha que faz o que quer”.
“A sra juíza quer transformar isto numa caricatura. Pretende desprezar os direitos da defesa e desconsiderá-los. A sra juíza encontrará pela frente quem luta pelos seus direitos e pelas garantidas de defesa”, disse Sócrates, referindo que o prazo requerido pelo seu novo advogado, José Preto, para estudar o processo (cinco meses e meio) é o mesmo que foi concedido ao Ministério Público (MP) numa fase anterior do processo.
“O meu advogado pediu exatamente o mesmo tratamento que o MP pediu em 2021 quando pediu cinco meses e meio ao juiz. Esses cinco meses e meio significam apenas a defesa do que se chama um processo justo. Igualdade de armas: um prazo para a defesa, um prazo para a acusação. É a isso que se chama um processo equitativo”, realçou Sócrates.
Quanto ao incidente que levou à renúncia de Pedro Delille, Sócrates sai novamente em defesa de Delille. “O meu advogado não admitiu à sra juíza que o tratasse da forma que tratou, dizendo ‘acabou a brincadeira’ e que o destratasse no julgamento […] Se a sra juíza acha que pode fazer o que quer, está enganada“, atirou Sócrates, visivelmente irritado.
José Sócrates já tem novo advogado. Chama-se José Preto e já defendeu Bruno de Carvalho
Sócrates critica prazo de 20 dias para escolher advogado. “Tinha outras coias para fazer”
Quanto à escolha de José Preto, Sócrates explicou que escolheu aquele advogado penalista — que se tornou conhecido por ter defendido Bruno de Carvalho no caso da invasão à Academia do Sporting — por indicação de Pedro Delille e devido ao currículo do advogado. “Cheguei ao nome do Dr José Preto por indicação do meu anterior advogado […] Agradou-me o seu currículo. Eu tive 20 dias para escolher, para além de ter outras coisas para fazer”, queixou-se Sócrates, aproveitando, mais uma vez, para criticar o prazo dado pela juíza Susana Seca.
Sobre a escolha do juiz Carlos Alexandre para liderar a recém-criada Comissão de Combate à Fraude no SNS, Sócrates disse que a nomeação é “o pagamento de um favor“. “Só agora é que [o Governo] pode pagar [a Carlos Alexandre]. Na primeira oportunidade estão a pagar, é o pagamento de um favor”, vincou o ex-primeiro-ministro, considerando que a nomeação está relacionado com a atuação do juiz na Operação Marquês. “O juiz Carlos Alexandre prendeu Sócrates e arranjam-lhe um lugar para ele. Este lugar foi criado para ele. O cargo não tem sentido nenhum. O que se pretende é estigmatizar o SNS”, defendeu Sócrates.
Quanto à averiguação preventiva aberta ao atual primeiro-ministro Luís Montenegro, Sócrates acusou o procurador-geral da República Amadeu Guerra de se estar a preparar para oferecer uma “prenda de Natal” a Montenegro. “Ele [Amadeu Guerra] inventou um averiguação preventiva ao anterior líder do PS para que ele perdesse as eleições (como perdeu) e para favorecer o atual primeiro-ministro. E agora tem o descaramento de anunciar uma prenda de Natal ao atual primeiro-ministro. Ele vai encerrar o inquérito e tem o desplante de o fazer como se não fosse nada, como se não houvesse ninguém a ver”, indignou-se o líder socialista.
Entre críticas ao jornalistas, Sócrates revelou ainda que, nas próximas eleições presidenciais, marcadas para 18 de janeiro, votará em Henrique Gouveia e Melo. “Vou votar no almirante Gouveia e Melo, que não conheço. Não gosto de votar em militares mas vou votar nele porque é o que oferece melhores garantias de que nunca aceitará a extrema-direita no poder”, justificou Sócrates, classificando os restantes candidatos como “moderadozinhos” e “redondinhos”.