Henrique Gouveia e Melo vestiu um blusão de piloto, estilo Maverick, e começou a disparar contra duas campanhas para tornar a sua missão menos impossível. Logo pela manhã, o antigo chefe do Estado-Maior da Armada apontou baterias ao primeiro-ministro e a Marques Mendes, mas também a António José Seguro. Apesar de estar a visitar a fábrica da Delta em Campo Maior e dos elogios ao falecido empreendedor e militante socialista Rui Nabeiro, não poupou o candidato apoiado pelo PS que tem como mandatário distrital o filho do comendador, João Manuel Nabeiro.

Desde logo atirou à top gun de Mendes no domingo, Luís Montenegro. E mostrou-se particularmente ofendido com a comparação com Ventura: “O primeiro-ministro pode chamar-me o que quiser, mas eu não sou aquilo que ele me que chamar, porque nunca fui populista e os senhores jornalistas sabem muito bem que eu digo um conjunto de coisas e adoto uma atitude que não tem nada a ver com o populismo. Não digo as coisas fáceis”.

Apesar de destacar que espera ter uma “relação construtiva” com o primeiro-ministro caso seja eleito, diz que ouviu com “desagrado” as declarações de Montenegro na Batalha. Para Gouveia e Melo “o primeiro-ministro esteve mal, porque ele não se pode esquecer que, mesmo enquanto presidente do PSD, continua a ser o primeiro-ministro. Não consegue dissociar as duas coisas. E vai ter de conviver com o futuro Presidente. Seja ele qual for.”

Subindo o tom, Gouveia e Melo diz que Montenegro “não pode condicionar os portugueses a escolherem o Presidente da República que ele acha que lhe faz jeito”. Diz que, se fosse ele próprio o chefe de Governo “não entrava na campanha” e que “fazer determinado tipo de comentários, não é positivo para o futuro do sistema português.” E ainda acrescentou: “O primeiro-ministro não escolhe o Presidente da República. Quem escolhe é a população. E tentar condicionar a escolha do Presidente da República é para um mau sintoma democrático do que deve ser um Presidente”.

Pouco depois, após uma visita ao Hospital de Portalegre, Gouveia e Melo vinha imbuído de um espírito positivo a fazer corações com as duas mãos (à boomer, não à gen z), mas logo pôs cara séria. Criticou a saúde e, claro, Luís Montenegro.  “Quem decide sobre os ministros é o primeiro-ministro. O Presidente deve exigir resposta ao primeiro-ministro. E a resposta na saúde tem falhado sistematicamente.” E acrescenta, numa crítica velada à inação de Montenegro: “O senhor primeiro-ministro saberá ler os sinais e tirará as suas ilações e fará o que será necessário.”

Seguro e Mendes na mira

Gouveia e Melo continua a atacar mais Marques Mendes — até através do ataque ao primeiro-ministro — mas insiste em ataques duplos que visem o antigo comentar e também António José Seguro: “São dois candidatos do sistema: um a querer ir para Presidente para ajudar o Governo; e outro a querer ir para dizer que, de alguma forma, contraria o Governo”.

Gouveia e Melo “inspirado” parte ao ataque em dose dupla. “Queremos uma marioneta ou oposição?”

O almirante diz que “um Presidente da República tem de ser equilibrado e independente, mas essa independência está perfeitamente posta em causa, porque o que temos são candidatos verdadeiramente partidários”.

E continua a meter sal na ferida: “Nem sequer conseguem ter o pleno dos seus partidos. Portanto, nem no partido conseguem o pleno e querem convencer a população portuguesa de que são suprapartidários. Não são [candidatos] suprapartidários. São verdadeiramente uma pequena cor do arco-íris”. Na ação seguinte, insistiu: “O Presidente tem de pressionar os Governos, daí a importância da independência”. Mas os “dois do sistema” não seriam os únicos a ser atacados.

A ida à estátua de Sá Carneiro para atacar o “neoliberal” Cotrim

Henrique Gouveia e Melo fez uma arruada em Viseu ao estilo PSD: toda a Rua Direita e a acabar com um pequeno desvio para a estátua de Sá Carneiro. O almirante considera a estátua desproprocionalmente pequena e comenta-o com o mandatário Correia de Campos, que lhe explica que “os artistas nem sempre sabiam as dimensões”. Gouveia e Melo complementa: “O que interessa é que era uma grande personagem política”.

As câmaras aproximam-se e o almirante faz o que ali queria fazer: atacar Cotrim Figueiredo, que no domingo se tinha comparado a Sá Carneiro no “espírito reformista”. Gouveia e Melo diz que Sá Carneiro “é uma inspiração, um social-democrata que tinha a preocupação de uma economia desenvolvida mas uma grande preocupação social.”

No tiro a Cotrim Figueiredo, Gouveia e Melo acrescenta que “estes neoliberalismos que nos cercam, esquecem muitas que o mercado não resolve tudo.” Para o almirante a justiça social não funciona “sem um Estado que regule que garanta o Estado Social e os elevadores sociais”.

Sobre se Cotrim se apropriou do legado de Sá Carneiro, Gouveia e Melo diz que “ninguém se apropria de legado nenhum, que isso é impossível. Ninguém se consegue apropriar de quem representa um outro homem representa outro homem. Associo-me ao que ele representou. Foi um grande homem português.” E sente-se herdeiro dele?, perguntam ao candidato: “Não sou herdeiro nem deserdeiro. Ninguém é dono do passado”.