A candidatura de João Cotrim de Figueiredo tinha informado os jornalistas de que este sábado à tarde haveria um discurso-surpresa entre as intervenções do mandatário nacional, José Miguel Júdice, e a do próprio candidato, no comício no Técnico Inovation Center, em Lisboa.
Assim que se anunciou a subida ao palco de Catarina Cotrim de Figueiredo, percebeu-se que a surpresa era a filha mais velha do candidato. “É difícil e arriscado falar sobre um pai público. Vou passar a ser a filha do Cotrim, mas o país merece esse esforço”, afirmou.
Catarina, 36 anos, fez um discurso emotivo sobre o exemplo do pai, a exigência que incutiu nos filhos, o gosto que sempre o viu ter em falar com toda a gente, e sobre “o avô ternurento”.
“Portugal não precisa de gritos, precisa de uma liderança serena”, declarou. No fim da intervenção, chamou o candidato ao palco: “No dia do meu casamento, olhou-me de forma que transbordava amor, de quem entrega a filha para ser feliz. Pai, vamos à segunda volta. Agora entrego-vos o homem”, proclamou, perante centenas de apoiantes do pai.
Os outros filhos do candidato também subiram ao palco. Cotrim emocionou-se, referiu “uma lágrima teimosa no canto do olho” e chamou aos filhos “os quatro maiores orgulhos” da sua vida: “São o melhor que eu fiz neste mundo (…) Esta luta também é por vocês”.
No fim do discurso, voltaram a subir ao palco os quatro filhos acompanhados dos quatro netos. É a primeira vez que a família do candidato aparece na campanha.
Cotrim acusa de “falta de grandeza” quem o atacou por admirar Passos e Sá Carneiro
“Falta de grandeza”. Foi a acusação dirigida por João Cotrim de Figueiredo a quem o criticou por ter manifestado admiração por Sá Carneiro e Passos Coelho. Não os nomeou diretamente, mas os maiores críticos terão sido o ex-presidente Cavaco Silva, o primeiro-ministro Luís Montenegro e o seu principal adversário, Luís Marques Mendes. “Já fui acusado de me apropriar de Sá Carneiro e Passos Coelho. Deviam ficar felizes de terem referências que os outros admiram. Mas não. Falta-lhes a grandeza para isso”, afirmou, num discurso escrito.
Em resposta a quem o critica por ter falta de experiência, admitiu que apenas tem 6 anos e meio de experiência política. “Mas em ter resultados, tenho mais experiência do que vários dos candidatos juntos”, comparou, numa alusão à sua carreira profissional.
“Vocês todos estão a uma semana de fazer história. São a alma da única candidatura que tem estado sempre a crescer”, sublinhou. Depois de enumerar todas as localidades por onde tem passado desde que foi para a estrada, começou já e pela primeira vez a falar na campanha para a segunda volta, onde promete visitar ainda mais locais.
Além de voltar a falar de Saúde, Segurança Social e Economia, juntou este sábado mais três sectores em que traçou um diagnóstico crítico, dizendo: “É hora de estes problemas terem solução”. Voltou a assumir-se como a candidato a ser “o presidente da esperança”, mas juntou-lhe outra palavra, dizendo que também ambiciona ser “o presidente do otimismo”.
Um almoço apostado com Jorge Pinto em como não volta à liderança da IL até 2028
De manhã, o candidato liberal esteve em campanha no mercado da fruta das Caldas da Rainha, onde se cruzou com outro candidato, Jorge Pinto. Em resposta a uma provocação do candidato do Livre, de que estas eleições não são para a presidência da Iniciativa Liberal, apostou um almoço com ele em como não volta a esse cargo nos próximos dois anos.
“Vi ali um posto dos CTT. Se quiseres enviar uma carta nova, ao Montenegro ou outra pessoa qualquer, ainda podes”, picou-o Jorge Pinto. “Foi por email, Jorge, é o mínimo. Eu sei que sou mais velho que tu mas não sou antiquado”, replicou o eurodeputado.
“Vou até ao fim e não vou confundir eleições. Isto é para a Presidência da República e não para a Presidência da IL”, provocou de novo o representante do Livre. O que levou Cotrim a propor a aposta: “Se eu ao fim de dois anos não for presidente da IL, pagas-me um almoço, eu aceito em Amarante. Está combinado?” Jorge Pinto aceitou.
No fim do encontro, Cotrim de Figueiredo disse aos jornalistas que ficou na dúvida e não conseguiu perceber se Jorge Pinto vai até ao fim.
O mandato de Mariana Leitão na liderança da Iniciativa Liberal termina no Verão de 2027, dentro de um ano e meio. O mandato do próximo Presidente da República terminará dentro de cinco anos, no início de 2031.
Não teria avançado se Passos estivesse na corrida. E ignora ataque de Pinto Luz
Em declarações aos jornalistas, ainda nas Caldas da Rainha, João Cotrim de Figueiredo admitiu que se Passos Coelho estivesse nesta corrida à Presidência da República, provavelmente ele não se teria candidatado.
“Havia outras pessoas nessa área política que podiam ter dado indicações que talvez, quando eu estivesse a ponderar a candidatura, não me tivessem feito sentir a orfandade, relativamente a um determinado tipo de atitude pela vida e pelo país, que não tinha reflexo nos candidatos. Um deles seria Passos Coelho”, admitiu o candidato Liberal.
Recorde-se que também André Ventura já tinha dito que não se teria candidato se Passos Coelho tivesse avançado.
A carta que João Cotrim de Figueiredo enviou a Luís Montenegro por email teve ontem à tarde uma resposta formal do gabinete do primeiro-ministro a confirmar a receção do documento. O eurodeputado esperaria mais: “Gostaria de receber uma resposta, porque todas as cartas merecem resposta. Gostaria que fizesse uma declaração enfática de vontade de reformar, de coragem, de perceber que a grande função de um estadista e de um político é resolver o problema das pessoas, não é ganhar a eleição seguinte”.
Cotrim de Figueiredo ignorou ainda as críticas que lhe foram dirigidas pelo ministro Miguel Pinto Luz, numa ação de campanha de Marques Mendes: “Prefiro não comentar, vou reservar os meus comentários para o que os outros concorrentes à Presidência digam, ou o que o Sr. Primeiro Ministro diga.”
Durante o contacto com a população, colheu alguns frutos que foi semeando com as ações de campanha durante a semana. Foi cumprimentado por vários idosos que sublinharam a sua simpatia (depois de várias visitas a lares), e foi abordado por pelo menos dois ex-combatentes a manifestarem-lhe apoio (depois de na terça-feira ter visitado precisamente a Liga dos Combatentes em Lisboa).
Na conversa com os vendedores, disse que gostava de laranjas sumarentas, especialmente do algarve, numa alusão ao eleitorado do partido da mesma cor (PSD), que tem procurado cativar nestas eleições. Mas acabou por comprar pêros bravo-de-esmolfe, por razões práticas: ia sujar-se menos a comer esse fruto enquanto continuava o contacto com os eleitores.