A candidatura de António José Seguro começou por baixo, com valores a rondar os 10% e um quarto lugar que se manteve até à campanha eleitoral. A viragem que entretanto se deu animou a equipa do candidato e esta terça-feira fez virar também a sua postura: já não é o candidato que quer passar à segunda volta, mas o candidato que quer passar à segunda volta em primeiro lugar.
No início da campanha oficial, dizia ser “o candidato da esquerda e do centro esquerda com melhores condições de passar à segunda volta”, num apelo à concentração do voto à esquerda (que entretanto perdeu espaço na sua campanha). A partir da sondagem divulgada esta terça-feira pela RTP, Seguro passou a referir-se a si mesmo como “o único candidato moderado com condições para passar à segunda volta”.
Aproveitou o comício que se seguiu à divulgação do estudo de opinião para tentar fazer desta campanha uma batalha entre si e André Ventura. Nunca referiu pelo nome o líder do Chega, que é seu adversário nesta corrida, mas quando admitiu que as sondagens “animam” a candidatura, também notou que a sondagem o coloca no segundo lugar e que isso deixou de ser suficiente.
“Não chega passar à segunda volta, temos de passar à segunda volta em primeiro lugar“, declarou perante um auditório cheio, na Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, elevando a fasquia que trazia para esta eleição que era apenas e só passar à segunda volta. E o combustível para isto está mesmo na sondagem que, segundo a sua análise, deixa “claro que o único candidato moderado que pode passar à segunda volta” é ele mesmo.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Uma ideia que o leva ao argumento seguinte: “Não podemos permitir que o candidato do extremismo e do radicalismo possa passar em primeiro lugar.” Tenta bipolarizar a eleição, estendendo o seu apelo a “todos os democratas”: Este não é o dever apenas de um campo político, mas de todos os democratas, todos os moderados e dos que querem continuar a viver em democarcia e em liberdade”.
No seu encalço, nesta mesma sondagem vem João Cotrim Figueiredo e no discurso da noite, Seguro também acabou por tentar dar um primeiro passo nesse campo político ao defender a “iniciativa privada”. O socialista afirmou, a dada altura da intervenção, que todos pretendem “pagar impostos mais justos” e que isso “exige que o Estado retribua em Saúde e bens”, acrescentando logo de seguida que o “empresário não se importa de pagar impostos mas que que o Estado não condicione a sua iniciativa.” “Numa economia de mercado, defendemos quem cria riqueza são as empresas”, apontou ainda numa tirada que não tem aparecido nas suas intervenções mas que surgiu precisamente nesta terça-feira.
No início da intervenção, Seguro tinha começado por agradecer o apoio dos cantores Agir e Milhanas, presentes no comício, e de todos os independentes que se têm juntado à sua a candidatura e também de Helena Roseta, que estava na primeira fila do comício. Mas, depois de dias a fio sem grande gáudio com o apoio socialista (que se tem mostrado no terreno), o antigo líder do partido fez questão de dizer esta noite que é “bom” receber o apoio do PS que “não contamina esta candidatura, porque ela será sempre suprapartidária.” Neste momento também referiu os apoios dos deputados únicos do JPP e do PAN — esta terça-feira Inês Sousa Real e Filipe Sousa declararam o seu apoio individual a António José Seguro.
Quem ouviu o candidato à noite não reconhecia o candidato da manhã, muito cauteloso com “euforias” decorrentes das sondagens diários (da CNN Potugal) que o colocavam à frente. E no dia anterior em Bragança, onde alertou que “as sondagens não ganham eleições”, com receios de uma desmobilização por excesso de confiança no domingo.
VASCO COELHO/OBSERVADOR