Apesar de admitir votar em António José Seguro, a Presidente da Iniciativa Liberal (IL) diz que o partido que lidera não vai apoiar nenhum candidato na segunda volta das Eleições Presidenciais. Mariana Leitão lembrou o “histórico” da IL no combate ao socialismo e ao populismo, mas garantiu que vai votar “sem entusiasmo” em António José Seguro. “Porque rejeito a forma de fazer política do outro candidato, o populismo, o divisionismo e a política através da mentira”.

A liberal assumiu que o partido que lidera “repudia” a candidatura de Ventura. Assim, e apesar da posição neutra face aos candidatos, Leitão não olha para a decisão de não apoiar ninguém como falta de coragem. “A IL, enquanto partido, não vai fazer campanha por alguém que pode vir a ser uma força de bloqueio em Belém. (…) Não é uma questão de coragem”, explicou, em entrevista à SIC Notícias.

Apesar de não ter conseguido a passagem à segunda volta das eleições presidenciais, Leitão assumiu que Cotrim fez “uma campanha extraordinária”. Mas olhou para o futuro. “Agora é preciso continuar a dar soluções”, sem detalhar se essas soluções podem passar pelo regresso do eurodeputado à política nacional, onde “faz muita falta”. “Há um conjunto alargado de pessoas que querem mudança, reformas. Que já não conseguem contentar-se com a governação do País nas últimas décadas. E a IL, ao longo dos anos, tem sido a única voz ativa na representação destas pessoas, das reais necessidades do país”.

Sobre o facto de o resultado de Cotrim ter sido superior ao eleitorado da IL, e se isso poderia significar o regresso do antigo líder do partido à política nacional, Leitão desviou a conversa: “Ele faz muita falta à política nacional. Os moldes em que virá e como virá, é uma questão que tem que ver com João Cotrim Figueiredo”.

Sobre o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, Mariana Leitão tem a certeza que será mais fácil dialogar com António José Seguro do que com André Ventura. “Não me parece que haja grandes dúvidas quanto a isso”. Momentos após ter anunciado o seu voto no socialista, a líder partidária reforçou que o candidato “não parece que garanta essa mudança que o País precisa”. “Não deu qualquer sinal que pode ser essa voz [de mudança]”.

Leitão defendeu que Seguro não pode ser “Presidente da República pela rejeição de outro candidato”, mas antes “porque consegue falar a várias franjas do eleitorado e consegue agregar” para combater uma “polarização” cada vez mais “vincada”. Mesmo que o candidato em que admitiu votar só cumpra os requisitos mínimos, a liberal acredita que a IL continuará a ter uma “relação cordial” com Belém, como tem acontecido “ao longo dos anos”.

No entanto, Leitão acredita que Portugal “perdeu uma oportunidade histórica” de ter uma voz agregadora na Presidência da República com a derrota de Cotrim nas urnas.

Leitão volta a apontar Montenegro como culpado pela falta de representação do centro-direita na segunda volta

Para Mariana Leitão, nem André Ventura (apoiado pelo Chega) nem António José Seguro (apoiado pelo PS) representam o espaço político reformista do centro-direita, o que complica a vida de muitos eleitores. A liberal aponta Luís Montenegro como culpado por essa orfandade de alguns eleitores. Esta ideia já tinha sido referida pela líder da IL no debate quinzenal na Assembleia da República, quando Mariana Leitão acusou o primeiro-ministro de colocar os interesses partidários à frente dos interesses de Portugal por ter feito campanha pelo “voto útil”, “ignorando a realidade”.

“Já consegue explicar aos portugueses porque é que decidiu colocar os seus interesses partidários à frente do país, levando a que não exista um candidato de centro-direita na segunda volta?”, disse no Parlamento, na quarta-feira. “Sabemos bem o que vai ser o resultado final e sabemos o quão mau será qualquer um dos cenários”, atacou, criticando Montenegro por depositar “todo o seu peso político” em Luís Marques Mendes.

Cotrim cita Sá Carneiro para escrever a Montenegro a pedir o apoio do PSD

A líder partidária defendeu, nesse debate quinzenal, que as eleições portuguesas provaram que “os portugueses querem uma agenda reformista”. Na Assembleia da República, o primeiro-ministro respondeu apenas que “este não é o fórum mais indicado” para falar sobre presidenciais, e rematou: “Se há alguém que encarou estas eleições pelo lado partidário foi a senhora deputada porque deixou de assumir a candidatura presidencial para assumir um cargo partidário”, atirou Montenegro.

Antes de Mariana Leitão, o apoio de Montenegro ao candidato apoiado pela IL já tinha sido discutido em plena campanha, pelo próprio Cotrim Figueiredo, que enviou uma carta dirigida ao primeiro-ministro a pedir que o PSD deixasse cair Marques Mendes. “Sem querer menorizar a candidatura apoiada pelo partido liderado por V. Exa., assim como pelo CDS-PP, venho hoje apelar ao voto do PSD na minha candidatura”, escreveu, numa carta em que citava o histórico social-democrata Francisco Sá Carneiro.

“Estou consciente de que grande parte dos eleitores e dirigentes do PSD já confiam em mim. Peço-lhe que se junte a eles. Sei que mudar o sentido de uma decisão destas exige coragem, mas, como nos ensinou Francisco Sá Carneiro, ‘Primeiro o país, depois o partido e, por fim, a circunstância pessoal de cada um’”.