Seja na rua, numa sede do partido pelo país ou em declarações aos jornalistas, André Ventura não larga o tema dos apoios a António José Seguro. Se já vinha a preparar uma retórica de socialismo contra direita, agora vai mais longe na lógica do sistema contra antissistema. Para o candidato presidencial apoiado pelo Chega, não está em causa uma “luta da democracia contra autoritarismo” e sim uma “luta dos tachistas contra quem quer acabar com os tachos”.
“Os partners do sistema já vieram a público e podemos partir para esta eleição com uma certeza: seremos nós contra eles”, resumiu, frisando que essa já é uma “vitória” da sua candidatura. “Saem pessoas de sítios que nunca vimos a dizer que apoiam António José Seguro, que apoiaram toda a vida PSD , IL e CDS e saem de onde estão para dizer que esta é uma luta da democracia contra autoritarismo. Nunca estiveram tão enganados: é uma luta dos tachistas contra quem quer acabar com os tachos”, argumentou o líder do Chega.
Aos olhos de Ventura, os apoios nem sequer são para Seguro mas sim para “travar a [sua] eleição”, crente de que “não temos um candidato a disputar eleições pelo entusiasmo ou propostas, temos um país a levantar-se contra alguém que quer pôr em causa o sistema.”
Esta é, para Ventura, uma forma de mostrar que PSD e PS são iguais, um lema que nunca deixou de utilizar como bandeira política: “Só vão estar dois nomes no boletim de voto e pendem sempre para o socialista”, vincou, referindo-se aos sociais-democratas, mas realçando que ver o CDS e a IL a fazerem-no “é uma espécie de confissão de que nunca quiseram combater socialismo e sistema nenhum.”
“Fico muito seguro, passo a expressão, quando vejo isto porque tenho a convicção de que quando todos atacam um homem ele está no caminho certo”, resumiu, reiterando que numa “missão patriótica” se mantém na defesa de Portugal e em “pôr os portugueses em primeiro lugar”.
Mais do que isso, mantém os ataques a Seguro pela recusa de um dos debates da televisão e do da rádio. “Pela primeira vez vamos ter um candidato a Presidente da República que não quer debater. Está cheio de medo do confronto e do escrutínio. É o único que não disse nada na primeira volta. No PS dizia-se que era tipo melhoral, não faz bem, nem mal”, criticou André Ventura, pedindo o “mínimo de respeito pela democracia”.
Ventura não se sabe o que Seguro pensa sobre Saúde, Agricultura ou imigração: “Não sabemos nada e ele não quer debater, quer passar por estas eleições sem debater e achando que isto está ganho, mas a essência da democracia é o debate.”
“Imaginem se fosse eu a rejeitar debates”, sugeriu, lembrando que com Seguro “é ver a coisa a passar devagar”. “Quem não aceita debate, escrutínio e confronto desrespeita a democracia e os portugueses. É arrogância e os portugueses não aceitam arrogância.” E ainda completou: no boletim não vai estar “André Ventura e anti-André Ventura”, frisando que a segunda volta tem de ser sobre os temas que importam aos portugueses.
Da sede do Chega em Santarém, onde os resultados costumam ser um espelho do país, André Ventura lembrou isso mesmo (“Quem ganha em Santarém, ganha no país, temos de ganhar em Santarém”) e atirou para cima: “É justo dizer que partimos para a segunda volta com a justa expectativa de vencer as eleições no distrito de Santarém.”
A partir de Santarém, Ventura destacou que há “algo que tem ficado fora da campanha eleitoral: a agricultura e o mundo rural” e quis trazê-lo para debate. Contou que há quem gaste “dezenas de milhares de euros” para se candidatar a fundos e “via-se afastado porque ganhavam sempre os mesmos e o dinheiro gasto nunca o recuperava”.
Sobre a Mercosul, recordou que os agricultores europeus vão concorrer com quem não tem regras e tem mão de obra mais baixa. “Vamos procurar reverter regras absurdas” na regulamentação do mundo rural porque “isso não pode matar os agricultores”, explicou, sublinhando que “Portugal não deve aceitar o Mercosul”. “O que é que o meu adversário pensa sobre isto? Não sabemos”, referiu, frisando que é preciso “pôr isto no centro do debate político”.
“Portugal tem mais de mil taxas ambientais, é taxas para tudo e mais alguma coisa”, afirmou, frisando que “não é para [defender] o ambiente, é para sacar dinheiro”. “Como é que podemos competir com agricultores que não pagam as taxas que pagamos?”, questionou o candidato presidencial, concluindo que querem “destruir isto [a agricultura] porque querem destruir a liberdade”.
Ainda sobre a Saúde, que descreve como um “verdadeiro fenómeno caótico”, Ventura recuperou as palavras de Montenegro para dizer que “o primeiro-ministro diz que não há caos e que é só uma perceção”. “Temos um Governo e um país que não conhecem o país real”, acusou, lembrando a morte de um cidadão em Abrantes. “Não podemos ter Presidente da República manso nestas matérias porque isso significa que não precisamos de Presidente da República para nada.”