As eleições autárquicas em Arcis-sur-Aube, uma pequena cidade no norte da França com pouco mais de 2700 habitantes, estão a tornar-se virais nas redes sociais. Tudo por causa de dois dos principais candidatos — ou melhor, dos seus nomes. Charles Hittler, o atual autarca, concorre à reeleição contra outros dois oponentes, um deles chamado Antoine Renault-Zielinski.
Na primeira volta das eleições autárquicas, Charles Hittler, candidato de centro-direita, teve 411 votos, o que representa 37,81 % dos votos válidos. Em segundo lugar ficou Annie Soucat, com 350 votos e 32,2% e em terceiro lugar veio Antoine Renault-Zielinski, candidato de extrema direita e representante do movimento Patriótico, com 326 votos e 29,99%. E diante destes resultados, os nomes dos candidatos chegaram às redes sociais.
La politique ne prête pas trop à sourire en ce moment.
À Arcis/Aube, petite cité champenoise et patrie de Danton, s’affronteront au second tour des municipales Hittler et Zielenski avec, prise entre les deux, une candidate qui va, malgré tout, chercher à construire l’avenir. pic.twitter.com/O2dA7cHzQj— Eric Anceau (@Eric_Anceau) March 16, 2026
Em declarações à BBC, Charles Hittler lamenta a forma como as piadas na internet estão a proliferar. “É uma loucura completa”, diz o autarca. “Toda a minha vida fizeram piadas sobre o meu nome. Às vezes as pessoas desenham bigodes nos meus cartazes. Nunca foi algo que me incomodou. Mas agora saiu do controlo. Vi artigos online a dizer que 37% da população de Arcis é hitleriana. A minha mulher está em lágrimas“, queixou-se Hittler.
Antoine Renault-Zielinski, de 28 anos, é oficial da alfândega e recém chegado à cidade. À BFMTV, o jovem explicou que o seu nome tem origem polaca: “As pessoas perguntam-me com frequência se sou parente de Zelensky — ao que tenho que responder que não, destacando que o nome polaco termina em I e o ucraniano em Y”. Sobre o frenesim que a campanha eleitoral tem gerado nas redes sociais, Zielinski é menos dramático. “No domingo comecei a receber mensagens sobre os nossos nomes a circularem no X e pensei que era uma piada boba. Mas gradualmente percebi que todos estavam a falar de nós! Posso ver o motivo de acharem engraçado. Pessoalmente, não me faz rir, mas não me incomoda. Seria melhor se as pessoas falassem de Arcis por outros motivos, mas pelo menos estamos no mapa”, assinala o candidato.
Charles Hittler, um chefe de laboratorio aposentado, explica à BBC que a família veio do norte da Alsácia, junto da fronteira com a Alemanha. “O meu pai era pastor. Na guerra, foi levado para a Alemanha para um programa de trabalho forçado”, recorda. “Depois regressou e conheceu a minha mãe. Todos diziam que ele tinha de mudar o seu nome. Isso foi em 1949. A guerra era uma memória recente, mas seria muita burocracia e custaria muito caro, então nunca mudaram.”
O autarca diz ainda que há poucos membros da família que mantêm o nome. Um dos seus filhos costuma pronunciar Hittler de forma diferente, para tentar fugir do embaraço, enquanto os netos já não têm o apelido. “Quando te tornas conhecido, o nome já não importa. As pessoas olham a pessoa para além do nome. Para os meus familiares, eu sempre fui o Senhor Charles. Então decidi manter”, justifica.
A 22 de março, Hittler e Zielinski voltam a enfrentar-se na segunda volta, pelo cargo de presidente da Câmara Municipal de Arcis-sur-Aube.