Estava em plena montanha, no Nepal, a fazer aquilo que o tornou célebre: percorria um trilho, à procura de imagens únicas do planeta que adorava filmar. Doug Allan, um dos mais notáveis operadores de câmara de vida selvagem das últimas décadas e colaborador de longa data do conhecido David Attenborough, tinha 74 anos quando morreu “na natureza e rodeado de amigos”, revelou esta quinta-feira a agência que o representava, a Jo Sarsby Management. Sentiu-se mal no início da caminhada na segunda-feira, com problemas respiratórios e acabou por morrer na quarta-feira, adianta a BBC.
Deixando um “legado visual legado que poucos conseguirão igualar” e que redefiniram a forma como o público vê oceanos, gelo e animais em ambientes extremos, Allan foi “um verdadeiro pioneiro do cinema sobre a vida selvagem”, continua a Jo Sarsby Management. Assinou algumas das “imagens mais deslumbrantes e íntimas” captadas para documentários de natureza, em séries emblemáticas da BBC como Planeta Azul, Planeta Terra, Planeta Gelado (transmitidas em Portugal pela RTP) ou Life in the Freezer, por exemplo. “O seu trabalho aproximou o público das maravilhas do nosso planeta, inspirando admiração, compreensão e um profundo respeito pelo planeta”, sublinha a agência.
De Jacques Cousteau a David Attenborough
Nascido na Escócia, em 1951, dois nomes foram fundamentais no seu percurso profissional. Dois homens que ajudaram a divulgar a vida animal. O primeiro, o reputado oceanógrafo Jacques Cousteau, cineasta que difundiu o mundo debaixo de água, impressionou Doug Allan ainda criança. Foi por ter visto o filme de célebre oficial da marinha francesa, O mundo do silêncio, documentário de 1956, um dos pioneiros em filmagens subaquáticas que Doug se interessou por snorkelling e mergulho.
Não admira que depois de se licenciar em biologia marinha pela Universidade de Stirling, tenha tido vários trabalhos ligados ao mergulho, refere a BBC, frisando a importância de ter sido contratado como mergulhador de investigação no British Antarctic Survey.
Um segundo homem mudou-lhe a vida, quase por acaso: o famoso narrador dos documentários de vida selvagem da BBC. “Foi um encontro fortuito com David Attenborough em 1981. Ele apareceu na nossa base com uma pequena equipa de filmagem. Ajudei-o durante uns dias e, literalmente, no final desses dois dias, olhei para o operador de câmara e pensei: sabes, estás a fazer tudo aquilo que eu gosto de fazer”, disse Doug Allan numa entrevista que o The Guardian recorda.
“Na viagem seguinte à Antártida, comprei uma câmara de cinema de 16 mm e, com a maravilhosa ingenuidade da juventude, fui filmar alguns pinguins-imperadores e vendi as imagens à BBC quando regressei. Foi aí que tudo começou”, revelou Doug. E a partir daí, foi uma carreira em ascensão.
O seu trabalho valeu-lhe oito prémios Emmy e cinco BAFTAs. Foi ainda condecorado com a Medalha Polar — prestigiada condecoração instituída pela monarquia britânica — em duas ocasiões. Em 2024, foi distinguido com o grau de Oficial da Ordem do Império Britânico, pelos seus serviços à comunicação social e à sensibilização ambiental.
“Quando pensarmos em Doug, lembrar-nos-emos sempre da sua gentileza inesquecível e do seu talento extraordinário. Foi uma honra e um privilégio representar Doug como seu agente e conhecê-lo como amigo durante mais de 30 anos. Ele era um verdadeiro cavalheiro, e sentiremos profundamente a sua falta”, lê-se ainda na nota da agência que, no entanto, não especifica a causa da morte. Mas a BBC explica que se sentiu mal durante o trilho no Nepal, com dificuldades respiratórias numa caminhada até ao acampamento‑base do Annapurna, na segunda-feira. Foi levado para um hospital de Pokhara e depois transferido para um outro na mesma cidade, já em estado crítico e com suporte de ventilação. Morreu de uma hemorragia cerebral na quarta‑feira, informaram os médicos, segundo a BBC.
Sue Flood OBE, a ex-mulher de Allan, igualmente fotógrafa da vida selvagem e que fez com ele muitas viagens, disse na sua página do Facebook que tinha sido“um conforto saber que estava a fazer algo aventureiro com um querido amigo, com quem partilhou muitas aventuras ao longo de várias décadas”. Sue Flood reconheceu a influência profunda de Doug na sua vida, lembrando que o ex-marido “levou uma vida inteira de trabalho nas regiões polares”.
O urso-polar que foi ter com ele e a morsa que quase o matou
Uma das paixões de Doug Allan era fotografar ursos polares. Passou cerca de 620 dias da sua vida à procura destes animais e a filmá-los, revelou, em 2017, à BBC Scotland. Uma vez, foi procurado
por um urso‑polar, contou então. “Durante um breve segundo, pensei que estava alguém com um esfregão de borracha a limpar o lado de fora da janela. Virei‑me e era o nariz molhado do urso a esfregar‑se na janela.” Acabou por sair devagarinho da cabana onde estava com um amigo e pulverizou gás pimenta para os olhos do urso, afugentando-o.
Outro encontro complicado deu-se debaixo de água, quando filmava uma morsa esfomeada que o confundiu com uma foca e lhe agarrou as pernas. Allan afastou-a, dando‑lhe uma pancada na cabeça com a câmara e percebeu mais tarde, quando descrevia o episódio ao povo Inuiti, que a morsa lhe poderia simplesmente ter sugado a cabeça, como faz com as focas.
Com o passar dos anos Allan tornou‑se uma voz em defesa do meio ambiente. Ainda em janeiro, por exemplo, apelou ao governo escocês que apoiasse uma lei de “ecocídio”, para penalizar empresas que prejudicassem o ambiente natural. Morreu sem a ver aprovada. O Parlamento votou a favor de fazer avançar o projeto de lei mas o diploma está agora na fase 2 de análise detalhada e emendas e ainda não teve votação final nem foi convertido em lei.
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