As negociações entre Irão e Estados Unidos da América, no Paquistão, não chegaram a bom porto. O Irão vai justificando com vários pontos a distanciar os dois países. Os Estados Unidos põem tónica no programa nuclear.

Tapetes feitos à mão e 60 mil m2. Assim é o hotel de 5 estrelas no Paquistão onde decorrem as negociações de paz

Tal como o vice-presidente JD Vance já tinha dito, após as negociações e ainda em solo paquistanês, também Donald Trump, na primeira mensagem após esse desfecho, põe no programa nuclear o ponto de maior fricção. “O Irão nunca terá armas nucleares”, diz Donald Trump, assumindo que é esse o principal distanciamento. O mesmo disse JD Vance. Isto apesar de os Estados Unido e Israel dizerem várias vezes que as instalações de enriquecimento de urânio foram destruídas. JD Vance acrescenta, no entanto, que o ponto é o não compromisso do Irão de que não voltará a ter programa nuclear. Não hoje, mas para futuro.

A delegação iraniana chama-se “Minab 168” e foi para as negociações de paz num voo vazio. Porquê?

E face a esse não compromisso, não há, dizem os EUA, acordo possível. O Irão, por seu turno, fala em “exigências irracionais” dos Estados Unidos que levaram ao fracasso das negociações em Islamabade. Foi num hotel de cinco estrelas que as partes se encontraram, primeiro, e de forma autónoma com o Governo do Paquistão. Mais tarde encontraram-se cara a cara.

Mas ao fim de 21 horas, saíram sem nada para apresentar, ainda que as partes vão dizendo que houve pontos de acordo.

Do Irão a mensagem de exigências irracionais, compreendendo o programa nuclear, mas também o Estreito de Ormuz e o fim da guerra incondicional. O Irão entrou para a reunião com um caderno de encargos de dez pontos, entre eles o fim total de ataques dos Estados Unidos, mas estendendo também as exigências a Israel, pedindo o fim dos ataques israelitas no Líbano que continuam mesmo com o cessar fogo de duas semanas entre Irão e EUA — aliás há notícias de que na próxima terça-feira haverá uma reunião entre Israel e Líbano em Washington.

Com um caderno reivindicativo exigente, vários analistas vão considerando que dificilmente se chegaria a um acordo na primeira reunião. O Irão acrescentou que era necessária boa-fé nas negociações. Os Estados Unidos assumem que estiveram sempre de boa fé.

O Estreito da discórdia

Se os Estados Unidos garantem que o principal desacordo é a falta de compromisso do Irão em pôr fim ao programa nuclear, certo é que na primeira reação após o fim das negociações Donald Trump anunciou o bloqueio do Estreito de Ormuz.

Trump ordena bloqueio do Estreito de Ormuz depois de ter dito que iria começar a abrir o corredor marítimo

Serão os EUA a decidir quem entra e sai e quem paga portagens ao Irão terá de ajustar contas com os EUA. Se no sábado dizia que começava a desbloquear o Estreito, desminando-o, neste domingo disse à Fox News que iria levar algum tempo mas seria por pouco. Outros países iriam ajudar os EUA a abrir o Estreito, e também a NATO.

Também no sábado Trump declarou que havia vários navios vazios a caminho dos Estados Unidos para encherem os tanques de petróleo e este domingo reforçou a ideia de que os EUA não precisam do Estreito. Mas há outros países que precisam. E há um país em particular que se abastece no Golfo Pérsico. É a China. No próximo mês, Trump e Jinping encontrar-se-ão na China. Nos últimos dias a China tem sido mencionada como estando a ajudar o Irão. E dois petroleiros que no sábado saíram de Ormuz tinham a bandeira chinesa. Donald Trump ameaça a China com tarifas agravadas.

O Estreito de Ormuz está, assim, no centro das negociações com o Irão a garantir que o corredor marítimo não será aberto. Com o fim das negociações, os futuros do petróleo indicam que a abertura do mercado na segunda-feira será de agravamento dos preços.

Outro ponto que terá ficado por acordar, segundo jornais internacionais, é o do descongelamento dos ativos iranianos que estão no estrangeiro, nomeadamente no Qatar, Luxemburgo, Turquia, Alemanha. Este tinha sido um dos pontos que, no início das negociações, a Reuters tinha avançado que havia acordo. Um acordo desmentido pouco depois. São 27 mil milhões de dólares. O Irão ainda pedia compensações pelos danos causados por seis semanas de ataques, o que, segundo o New York Times, terá igualmente sido recusado pelos EUA.

Após a reunião histórica, Donald Trump considerou que o Irão deverá voltar à mesa de negociações e garantiu: “E vão dar-nos tudo o que queremos. Eu digo às minhas pessoas, eu quero tudo. Não quero 90%, não quero 95%. Disse-lhes, quero tudo”.