A vice-presidente da Humanitas — Federação Portuguesa para a Deficiência Intelectual disse esta terça-feira, no Porto, que “as respostas na deficiência têm sido muito maltratadas” em Portugal e que 90% das instituições está “a transitar constantemente com resultados negativos”.
“As respostas são caríssimas e muitas vezes temos de fazer uma gestão de sobrevivência para conseguirmos dar resposta a tudo”, disse à Lusa Teresa Guimarães, a propósito do encontro europeu da Associação Europeia de Prestadores de Serviços para Pessoas com Deficiência e da Humanitas — Federação Portuguesa para a Deficiência Intelectual, que se realiza na quinta e sexta-feira, no Porto, para discutir inovação, liderança e sustentabilidade.
Segundo a vice-presidente da Humanitas, “tem sido uma luta grande fazer ver junto de quem legisla, junto da Secretaria de Estado e do Ministério da Segurança Social, a necessidade de reforçar os apoios a estas respostas para conseguirmos prestar um serviço com maior qualidade, que implica um maior quadro de pessoal”.
“Falamos de pessoas muitas vezes muito dependentes, a precisar de apoios para tudo, para a alimentação, para a higiene, para a mobilidade”, sustentou.
Por outro lado, com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que Portugal assinou e ratificou, “o paradigma mudou”, apesar de o país estar ainda “muito longe de a implementar na sua totalidade”, e “será necessário investir muito nas respostas na comunidade”.
“Isto para nós também é exigente, porque tem de haver um equilíbrio financeiro entre o serviço que queremos prestar e aquilo que nos é dado pelo Estado. Este equilíbrio não acontece. Está longe disso“, disse.
Teresa Guimarães sublinhou que “são respostas que exigem um quadro de pessoal muito grande”, porque, por exemplo, “muitas vezes é necessário ir buscar as pessoas, senão, elas não saem de casa, porque as famílias muitas vezes não conseguem, não têm meios de as trazer às organizações”. A responsável afirmou que a situação não tem evoluído favoravelmente nos últimos anos.
“Nas respostas tradicionais do Lar Residencial e Centro de Atividades Ocupacionais, que agora se chamam Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI), tem piorado. A resposta do Lar Residencial, além de ser insustentável neste momento, porque exige um quadro pessoal grande, existem muito poucas respostas”, disse.
E acrescentou: “Temos listas de espera enormes, extensíssimas, por todo o país. Não há resposta suficiente. Temos casos de pais com 80 anos a serem cuidadores dos seus filhos com 50 anos, são casos muito graves a que as instituições não conseguem dar resposta”.
Em comparação com outros países europeus, Teresa Guimarães disse: “É mais o que nos une do que o que nos separa”.
“Temos muitos países a viver situações muito semelhantes às nossas, ou seja, em termos de preocupações de serviço, de qualidade de serviço, do modelo de respostas de cariz comunitária, do modelo de vida independente, entre outras, estamos todos muito próximos uns dos outros, todos a remar para o mesmo lado, todos a remar pela implementação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Decência”, afirmou.
Em termos de sustentabilidade, “obviamente os países do Norte têm outra capacidade diferente dos países do sul da Europa. Sentimos muito isso, partilhamos muito isto também uns com os outros e vamos tentando também partilhar práticas inovadoras, isto é um tema que está em cima da mesa nesta conferência”, disse.
No encontro do Porto será debatido de que forma os prestadores de serviços podem reforçar a sua capacidade organizacional, aumentar a eficiência e garantir elevados padrões de qualidade e excelência nos apoios prestados às pessoas com deficiência.
O encontro europeu terá lugar no Centro de Congressos da Alfândega e reunirá líderes institucionais, especialistas, decisores políticos e organizações do setor da deficiência para debater os desafios e oportunidades da transformação dos serviços de apoio, num contexto marcado pela escassez de recursos humanos, sustentabilidade financeira e necessidade de inovação organizacional.
“Vamos ter 31 países presentes, com 300 participantes, vai ser riquíssimo todo este networking, toda esta partilha de conhecimento de diferentes pontos da Europa e dos Estados Unidos também”, acrescentou.