O fotógrafo Jorge Barros, que testemunhou Portugal ao longo de mais de quatro décadas e trabalhou com o historiador e geógrafo Orlando Ribeiro, morreu na terça-feira, em Lisboa, aos 81 anos, disse fonte da família à agência Lusa.

Jorge Barros, nascido em Alcobaça, em 1944, é autor de mais de 30 livros, presente em centenas de exposições.

Trabalhou com Orlando Ribeiro em “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico“, com companhias de teatro como a Comuna, A Barraca e O Bando, foi assessor técnico da XVII Exposição de Arte, Ciência e Cultura (1983), e tem muitas das suas obras associadas a autores como Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, Fernando Dacosta, Helena Vaz da Silva, João de Melo, José Cardoso Pires, Lídia Jorge, Manuel Alegre e Mário Cláudio, além de Orlando Ribeiro.

No seu percurso, os Açores destacam-se, em particular no seu último livro editado, Romeiros da Fraternidade (2024), com prefácio de Onésimo Teotónio de Almeida, culminando testemunhos como Solenidades dos Açores (1990), Aproximações (2009), Baleeiro — Um Rochedo do Mar (2015), Corvo, a Ilha da Sabedoria (1996), O Príncipe dos Açores (1996), Vitorino Nemésio — Sem Limite de Idade (2002), Escrito no Mar — Livro dos Açores (2008), Ilhas Desconhecidas (2012), São Miguel — Ilha de Alquimias (2015).

O Tempo e a Alma (1986), Mensagem (1990), a partir de Fernando Pessoa, Um Olhar Português (1991), Mineiros (2001), Festas e Tradições (2002-2003) e Sob a Terra (2008) são alguns dos seus títulos.

A sua primeira exposição, As Pedras e as Gentes (1980), deixou marcado o testemunho das seguintes, com atenção ao quotidiano, à vida e às histórias de pessoas, destacando-se Portugal (1981), Solenidades dos Açores (1990), Maresia (2019), Máscara (2020-2021) e, a mais recente, Açores — Silêncio e Ser (2021).

Em plenos anos da troika expôs Aproximações (2012), em colaboração com escritores como Alice Vieira, Armando Silva Carvalho, Hélia Correia, Jaime Rocha e Vasco Graça Moura, mostra que afirmou ser o seu “manifesto pessoal contra o desinvestimento na cultura”.

Como fotógrafo, trabalhou em cinema e televisão, com a revista Atlantis e em livros de filatelia dos CTT. Foi formador em fotojornalismo no Cenjor, organizou encontros e exposições de fotografia, e pertenceu à direção da Sociedade Portuguesa de Autores, entre 2003 e 2006.

Em entrevista ao JL, em 2024, disse que, na fotografia, procurou sempre “o encanto que é o milagre da vida, nos gestos, rostos e olhares das pessoas”. Na introdução ao livro Ilhas Desconhecidas, escreveu: “O amor para com os outros é o melhor de nós”.

O jornalista Fernando Alves dedicou esta quarta-feira “ao grande fotógrafo” Jorge Barros a sua crónica Sinais, na TSF, falando do seu próximo livro, “Espantalhos e Campos”, obra ainda a editar.

“Jorge correu Portugal fotografando os seus mistérios telúricos, os seus abismos, os rostos e o espanto dos que, neste chão, continuam peregrinando uma espécie de destino ou de penitência”, descreveu Fernando Alves.

“Talvez, entretanto, algum espantalho em altas funções lhe atribua uma mais do que justa honraria póstuma”, disse Fernando Alves. “Talvez alguém mostre ao Presidente [da República, António José] Seguro, na jornada do 10 de junho, em terras açorianas, as fotografias de Jorge Barros. Talvez alguém, em nosso nome, lhe diga obrigado”.

O velório de Jorge Barros decorre hoje, a partir das 17h00, na Galeria Carlos Paredes da Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa, de onde o corpo partirá na quinta-feira, para o funeral, às 16h00, no crematório do Cemitério dos Olivais.