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Dezenas de alegados espiões russos expulsos das capitais europeias após o início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, em fevereiro de 2022, terão sido deslocados para o Japão, onde estarão a procurar tecnologia para desenvolver em contexto militar, noticiou o New York Times, que cita antigos membros de cinco serviços de informações ocidentais.

De acordo com o órgão de comunicação nova-iorquino, a transferência destes espiões ocorreu depois de vários países ocidentais terem expulsado diplomatas e suspeitos de espionagem russa, numa tentativa de dificultar a recolha de informações e o acesso de Moscovo a tecnologias sensíveis (que poderiam ser utilizadas para fins militares ou contribuir para o desenvolvimento de armamento).

Os antigos membros dos serviços de informações ocidentais consideram que o Japão, devido às limitações dos seus serviços secretos e à relevância da sua indústria tecnológica e de defesa, se tornou num ponto estratégico para a Rússia. Além disso, os cinco responsáveis defendem que o acesso continuado da Rússia a tecnologias desenvolvidas no Ocidente e disponíveis no Japão (apesar das restrições às exportações de material relacionado com a defesa) contribui para que Moscovo mantenha o esforço de guerra, que já dura há mais de quatro anos.

Segundo o Governo ucraniano, citado pelo The Telegraph, cerca de 90% dos mísseis e drones russos utilizados nos ataques à Ucrânia contêm componentes de origem japonesa. Vladyslav Vlasiuk, comissário presidencial para a Política de Sanções da Ucrânia, afirmou em junho que a maioria destas peças foi inicialmente exportada para fins civis, tornando mais difícil controlar a sua utilização posterior em aplicações militares.

O método da era soviética que tem sido utilizado pelos serviços secretos russos

A investigação do New York Times refere também que a unidade dos serviços de informações militares russos, identificada como a 20.ª Direção, estará a operar a partir de Tóquio. Os seus agentes, explicaram as fontes citadas, apresentam-se como empresários ou diplomatas e procuram fazer negócio ou obter tecnologia para posterior envio para a Rússia e utilização no campo de batalha.

O responsável pela 20.ª Direção, acrescenta o jornal, estará a operar como um funcionário da Aeroflot, a companhia aérea estatal russa. Este é um método que remonta à era soviética e tem sido utilizado pelos serviços secretos militares russos.

A Ucrânia apresentou ao Governo japonês documentos e testemunhos que mostram que a tecnologia produzida no Japão está a ser incorporada no armamento russo.

Em resposta, o executivo japonês afirmou que está consciente da ameaça e garantiu que está a reforçar as capacidades de recolha de informações, assim como a trabalhar em conjunto com os aliados ocidentais para impedir a exportação de bens relacionados com fins militares para a Rússia.

Japão: o “paraíso para espiões”

O Japão é frequentemente descrito como um “paraíso para espiões”, devido às limitações históricas dos seus serviços secretos. Após a derrota na Segunda Guerra Mundial, as autoridades lideradas pelos Estados Unidos impuseram restrições ao país que incluíram o desmantelamento das estruturas de espionagem.

Atualmente, o Japão continua sem ter um serviço de informações externas comparável aos dos principais aliados e depende em grande escala da cooperação com os Estados Unidos.

O Governo liderado por Sanae Takaichi encontra-se, porém, a implementar reformas relacionadas com o tema. Entre as medidas previstas estão, segundo o New York Times, a criação de um Conselho Nacional de Informações e de um Gabinete Nacional de Informações, assim como a entrada em vigor, ainda durante este ano, de uma nova legislação destinada a reforçar o combate à espionagem.

A presença de alegados espiões russos em Tóquio levanta também questões em torno da segurança e do programa de desenvolvimento conjunto de um caça furtivo de sexta geração entre Japão, Reino Unido e Itália. O projeto, chamado de “Global Combat Air Programme”, prevê a entrada em serviço da aeronave em 2035.

Reino Unido, Itália e Japão vão desenvolver aviões de combate de última geração

O Japão é atualmente o maior exportador mundial de tecnologias de dupla utilização procuradas pela Rússia. Muitos desses componentes são comercializadas através de cadeias de fornecimento complexas e transitam por países terceiros, como o Vietname, antes de chegarem ao mercado russo.

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