No site onde publica os seus poemas, Wang Jibing começa a breve nota biográfica com dois números: “Wang Jibing já percorreu cerca de 150 mil quilómetros pelas ruas da cidade de Kunshan a entregar comida e escreveu mais de cinco mil poemas sobre a felicidade e os sofrimentos das pessoas comuns”. Agora pode juntar-lhe um dado novo: venceu na passada quarta-feira um dos maiores prémios literários da China. “Quem disse que, com as asas abertas, se tem de voar alto? Voar baixo também é voar”, começa assim um dos seus poemas.
Foi precisamente com essa coleção de poemas inspirados em entrevistas a cerca de 200 estafetas e nos desafios diários que enfrentam — intitulada “Voo Baixo” — que conquistou o Prémio Literário Lu Xun, galardão com o nome do escritor considerado o pai da literatura chinesa moderna e tradicionalmente atribuído a escritores profissionais. Até sobre isso, Wang teve algo a dizer: “Cada pessoa comum tem um brilho único. Embora não sejamos tão deslumbrantes como os grandes escritores, o nosso brilho modesto também pode iluminar o céu literário”.
Sem formação universitária, Wang, de 56 anos, começou a trabalhar como estafeta por volta de 2019 e ganhou destaque nas redes sociais graças aos seus poemas e ensaios. Nascido na província de Jiangsu, Wang deixou a escola durante a adolescência devido a dificuldades financeiras familiares. O pai terá chegado a destruir o rascunho de um romance de 200.000 palavras que ele havia escrito, como consta do site World Literature Today. Antes de começar a entregar refeições, passou por várias profissões, desde a construção civil até à recolha de lixo e à venda em bancas de rua. Agora, é conhecido como o “estafeta poeta”.
“Prendi a respiração e fiquei extremamente nervoso… Assim que foi revelado, tudo se acalmou”, disse Wang ao jornal estatal Global Times a 15 de julho, quando a notícia do prémio foi divulgada. Mesmo depois da entrega do prémio, Wang já esclareceu que não pretende abandonar o trabalho de estafeta, revelando que o plano é trabalhar até aos 60 anos. O valor em dinheiro concedido ao vencedore do Prémio Literário Lu Xun não são divulgados publicamente, embora em 2014 fossem de 100.000 yuans chineses (12,9 mil euros ao câmbio desta segunda-feira), de acordo com a BBC.
“Financeiramente, não preciso deste trabalho para me sustentar, mas adoro a atmosfera do trabalho e mantém-me em forma”, explicou ao Global Times, acrescentando: “Quero levar uma vida simples, e o prémio nunca vai mudar quem eu sou. Vou continuar a escrever e a partilhar as histórias de vida das pessoas comuns através da literatura”.
A literatura chinesa tem vindo a somar novos rostos, muitos deles vindos sobretudo do setor da entrega de refeições — um fenómeno em crescimento desde 2017, mas que já tem nome: a nova literatura operária.
Em 2022, o poema Homem com Pressa circulou nas redes sociais. Foi escrito depois de um episódio ocorrido em 2019, no qual passou horas numa entrega frustrante depois de um cliente ter inserido a morada errada — e de onde saiu o verso: “Quem corre apressadamente não conhece estações, apenas uma paragem e a seguinte…”.
[Já saiu o segundo episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Câmara Lenta”, José Valbom acorda num armazém, vigiado por homens que falam russo. Os inspetores seguem o rasto de um carro preto. A polícia aperta o cerco, mas o tempo está a esgotar-se. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]