A pouco menos de 40 quilómetros da turística península de Cap Ferret, no sul atlântico de França, fica a localidade de Le Porge, com 3.700 habitantes. Os incêndios que deflagraram na região no final da semana passada fizeram sentir-se de forma particularmente intensa na localidade: 12% de todas as habitações foram destruídas. Na comparação com a região, a destruição em Le Porge representa mais de 70% das casas destruídas pelo incêndio que lavra em Gironde e que já consumiu 42 mil hectares.

Contudo, os habitantes de Le Porge não olham para os números como um acidente ou um azar, mas como uma consequência das decisões tomadas pelas autoridades, que acusam de ter privilegiado a proteção de Cap Ferret. O sentimento traduziu-se num incidente esta segunda-feira, em que um morador da localidade teve de ser retirado do centro comunitário de Le Porge pela polícia, enquanto gritava com a autarca de Gironde, de visita às localidades mais afetadas, noticia a AFP.

“Esta não é altura de jogar ao passa-culpas”, afirmou Sophie Brocas aos jornalistas, depois do incidente. Martial Zaninetti, autarca de Le Porge, partilhou da leitura. “Compreendo a raiva, mas ainda não é altura de analisar o que aconteceu”, afirmou, apontando que uma análise posterior deve analisar as “decisões táticas que foram tomadas”. As autoridades justificam a destruição com uma mudança súbita e imprevisível das chamas durante a madrugada, quando os meios aéreos não conseguem operar. “Os recursos estavam disponíveis, mas o fogo estava fora de controlo. Estava a espalhar-se em todas as direções”, elaborou Zaninetti.

A decisão não é partilhada pelos habitantes ouvidos pela AFP. Pierre Alexandre, que coordenou voluntários que ajudaram os bombeiros no combate às chamas acusa as autoridades de terem “sacrificado” Le Porge, enquanto Dorothe Benassy, deputada municipal, diz que os moradores foram “abandonados”. Ambos apontam o erro à distribuição de meios, que dizem ter sido mal feita.

Theo Gonçalves, que distribuía refeições aos moradores à saída do encontro no centro comunitário, traduziu o sentimento que tomou conta da localidade de forma mais acusatória. “As coisas estavam a arder aqui e em Cap Ferret não. Todos foram para Cap Ferret para proteger a península, mesmo quando as coisas já estavam a arder aqui“, declarou.