O ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, rejeitou esta quinta-feira uma possibilidade de reconciliação entre a Rússia e a Ucrânia ou que seja possível prever o fim da guerra.
José Manuel Durão Barroso, que falava à imprensa em Luanda, à margem do primeiro Encontro Fora da Caixa em Angola, promovido pelo Banco Caixa Geral Angola, referiu que o Presidente russo, Vladimir Putin, precisa de mostrar resultados e por isso vai recusar “um acordo sem mostrar alguns resultados”.
“Conheço a Rússia, conheço o Presidente russo, o Putin, estive com ele muitas vezes, conheço a Ucrânia, e o que se passa é que, depois de lançar esta operação militar especial, como ele lhe chama, esta guerra contra a Ucrânia, ele tem de mostrar alguns resultados”, referiu José Durão Barroso.
Para o antigo presidente da Comissão Europeia, “no melhor dos casos o que pode acontecer é uma situação de impasse, em que ambos entendam que mais vale parar aí” e que, embora “não reconhecendo, do ponto de vista jurídico (…), direitos que não estão dispostos a aceitar, aceitem os factos e parem a guerra”.
“Não vejo nas atuais condições, nem no futuro previsível, um verdadeiro acordo de reconciliação, que permita gerar paz e tranquilidade, não entre esses dois países, mas em toda a Europa”, frisou.
Futuro em Angola só com “a sabedoria” de manter a paz e estabilidade
O também antigo primeiro-ministro de Portugal disse ainda acreditar no futuro de Angola, desde que haja “a sabedoria” de manter a paz e estabilidade, pré-condição indispensável para o investimento em todos os setores da economia.
Segundo Durão Barroso, Angola tem recursos extraordinários, incluindo na área energética, atualmente uma das mais críticas, para ultrapassar as atuais tendências internacionais, que influenciam o ambiente económico mundial.
Apesar das dificuldades que Angola ainda enfrenta, algumas delas estruturais, prosseguiu, o país africano tem condições para as ultrapassar, tendo paz e estabilidade.
Angola deve investir nos seus próprios recursos, não apenas naturais, mas humanos, considerou Durão Barroso, reiterando que acredita muito na capacidade africana, na energia, na resiliência do povo, na sua capacidade de sacrifício e dinamismo, com a vantagem de ser um dos continentes mais jovens do mundo.
“Acredito muito nessa possibilidade, abraçando as novas tecnologias”, disse, destacando a utilidade da Inteligência Artificial quando bem aproveitada.
Durão Barroso realçou a importância da colaboração entre os Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), numa altura em que se assiste no mundo a uma grande fragmentação, em que “alguns procuram criar um conflito cada vez mais entre o norte global e o sul global”.
“Nós, países de Língua Portuguesa, estando no norte global, como é o caso de Portugal, que faz parte da União Europeia, e Angola que faz parte da União Africana, e que temos uma certa cumplicidade cultural, linguística, podemos mostrar que, independentemente de ideologias, dos nossos interesses nacionais – que às vezes podem não coincidir –, [podemos] colaborar, isto é algo interessante, que a CPLP pode ser um exemplo de cumplicidade positiva num mundo cada vez mais dividido”, frisou.
Relativamente à tendência mundial, Durão Barroso disse que neste momento há imensos desafios geopolíticos, sendo o principal deles a incerteza que se vive face à competição entre as grandes potências, com questões energéticas e da transição climática.
“Tudo isso acrescentou incerteza a uma situação que já era muito complexa, e por isso se faz sentir atualmente uma grande ansiedade na população a nível mundial e (…) há ainda mais preocupações sobre a economia”, enfatizou.
O risco geopolítico assumiu uma dimensão que antes não tinha e desafios, por exemplo, a nível energético estão a levar a mais inflação, aumento da dívida pública, sendo questões “que criam maior incerteza sobre a economia global”, afirmou.
Durão Barroso realçou que, face ao novo contexto mundial, num cenário de novos conflitos, a Europa está a fazer investimentos na área da defesa, procurando ligar esse investimento a uma nova política industrial e também à nova tecnologia.
“Porque a defesa também é uma parte da indústria e pode contribuir para o desenvolvimento industrial e para a inovação na área tecnológica, e a Europa, a meu ver, está a fazer e tem de fazê-lo pelas razões conhecidas”, acrescentou, defendendo que “gostaria mais que esse dinheiro fosse para outras prioridades como a educação, habitação e saúde”.
“Mas sem segurança não se consegue nada e por isso a Europa, neste momento, perante as incertezas que foram criadas, sobretudo depois da invasão da Ucrânia, está de facto a investir mais na defesa”, sublinhou.
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