Portugal continua entre os países com melhor desempenho em relação às alterações climáticas. O relatório Climate Change Performance Index 2015 (CCPI2015) é apresentado esta segunda-feira pela Germanwatch, uma organização não-governamental sediada em Bona (Alemanha), na Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas que decorre de 1 a 12 de dezembro em Lima. Quando comparado com países como Espanha ou Grécia, Portugal conseguiu mostrar que a crise não destruiu completamente as políticas climáticas, como refere em comunicado de imprensa a associação ambientalista Quercus.

No último relatório, em 2014, Portugal tinha sido apresentado como estando em sexto lugar. Mas uma revisão dos dados pela Agência Internacional de Energia, na qual o índice se baseia, colocou Portugal em sétimo lugar já em 2014, lugar que agora mantém, atrás da Dinamarca, Suécia e Reino Unido. O índice inclui 58 países responsáveis por 90% das emissões de carbono associadas à energia e Portugal consegue, na prática, um quarto lugar, porque os três primeiros, destinados a desempenhos “muito bons”, continuam por ocupar. Contudo, os autores do relatório afirmam que se a Dinamarca e a Suécia continuarem com o desempenho que tem mostrado, poderão vir a ocupar os dois primeiros lugares no próximo ano – a Suécia diminuiu as emissões em 70% nos últimos cinco anos.

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Embora continue com um “bom” desempenho, fruto das políticas climáticas e dos investimentos feitos anteriormente, Portugal pode vir a descer no índice pelo atual abrandamento no investimento nas energias renováveis, refere em comunicado a Quercus, a única entidade nacional a integrar o painel de especialistas externos que contribuem para este índice. Mesmo assim, continua muito melhor que dois dos outros países afetados com a crise económica: Espanha, que desceu de 20º para 28º porque desinvestiu totalmente na política do clima, e Grécia, que “abandonou numa primeira fase todas as políticas climáticas, mas está já a recuperar algumas posições”, segundo a Quercus. A Grécia conseguiu subir de 48º (“muito fraco”) para 35º (“fraco”).

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“Portugal abrandou, mas não parou”, refere Francisco Ferreira, membro do Grupo de Energia e Alterações Climáticas da Quercus. “Já a Espanha está muito em baixo. Foi fortemente penalizada porque pararam o investimento na área das renováveis.” O ambientalista atribui parte do sucesso português à crise porque diminuímos nas emissões, mas também à aposta nas energias renováveis. O que considera mais preocupante neste momento é o mau desempenho em termos de eficiência energética, sobretudo no setor residencial e edifícios.

Marrocos, um exemplo para os países em desenvolvimento

Os autores do relatório indicam que, mais uma vez, a quantidade de dióxido de carbono emitido ultrapassou o do ano anterior, uma tendência que se tem verificado quase todos os anos desde que o índice foi criado em 2005. Mesmo assim os autores revelam que há trabalho que tem sido feito para contrariar o aumento das emissões e esperam que na Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas de Paris em 2015, para a qual Lima serve de preparação, deem aos investidores confiança suficiente para apostarem na redução e eliminação das emissões de carbono.

Um dos sinais mais positivos apresentados no relatório é o crescimento constante da produção de energias renováveis em 51 dos 58 países avaliados, tornando estas formas de energia competitivas (mais baratas) em relação aos combustíveis fósseis. O outro é o encerramento gradual das centrais baseadas na combustão de carvão, como ficou acordado entre China e Estados Unidos, dois dos maiores poluidores mundiais. Já Espanha recuou um passo e aceita o funcionamento das centrais de carvão desde que a origem do mesmo seja interna, refere Francisco Ferreira.

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Comparação dos lugares do ranking no relatório de 2014 e 2015 – CCPI2015/Germanwatch

Apesar do acordo com a China e apesar de as emissões estarem a descer gradualmente, os Estados Unidos estão a fazer menos do que podiam segundo os peritos. Continua a não existir uma aposta nos transportes públicos nem uma regulamentação eficaz no limite de emissões no setor dos transportes. Já a China têm-se mostrado o país com maior investimento em energias renováveis – metade de todo o investimento mundial -, mas nem sempre da melhor forma, segundo os especialistas – centrais hídricas de grande escala podem comprometer a conservação da natureza. A aposta em centrais nucleares também é censurada no relatório. Em relação ao Canadá e à Austrália, os dois países industrializados com posição mais baixa no índice, a postura não mudou em relação ao último relatório, confirmando a falta de políticas ambientais efetivas.

As maiores preocupações e louvores também chegam aos países em desenvolvimento. A Turquia não tem qualquer estratégia nacional que vise combater as alterações climáticas e a aposta da Arábia Saudita em energia solar e eólica parece ser apenas um caminho para exportar ainda mais combustíveis fósseis. No caminho oposto está Marrocos, o primeiro país do grupo dos países em desenvolvimento a chegar ao top 10, subindo seis lugares e estando agora dois lugares abaixo de Portugal. O país tem apostado num crescimento sustentável com o aumento da produção de energias renováveis, nomeadamente solar e eólica, e o corte nos apoios à gasolina e petróleo.

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