Numa lista de 58 países ordenados consoante o desempenho em termos de políticas climáticas, Canadá e Austrália têm o pior desempenho entre os países industrializados, segundo o relatório The Climate Change Performance Index 2014 (CCPI). O Canadá “não mostra intenções de avançar com as políticas climáticas” e a Austrália perdeu terreno depois da mudança de governo, indicam os autores do estudo divulgado pela Germanwatch, uma organização não-governamental sediada em Bona, na Alemanha.

O quinto relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas publicado neste sábado reforça as principais preocupações em relação às alterações climáticas: as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) têm aumentado desde a era pré-industrial e o aumento da quantidade de dióxido de carbono na atmosfera (um GEE) tem provocado o aumento da temperatura média à superfície do planeta. Como o aumento da temperatura global do planeta pode colocar em risco tanto a natureza como as populações humanas, os autores do relatório incitam os países a diminuírem a emissão de gases com efeito de estufa até ao final do século.

Embora os cenários em relação ao aumento da temperatura global possam variar consoante os modelos usados, o relatório reitera que o aumento da temperatura global está cientificamente provado e que as alterações climáticas são uma ameaça ao desenvolvimento sustentável. Ainda assim existem decisores políticos que tendem a negar ou ignorar as alterações climáticas e o impacto que as medidas que tomam podem ter em termos globais. Canadá e Austrália são dois destes exemplos.

A falta de preocupação é generalizada no Canadá

“A maioria dos canadianos desconhece a situação”, diz ao Observador Stephen Leahy, jornalista canadiano. “Existe uma grande propaganda do governo e da indústria mostrando quão importantes são para a economia as areias betuminosas [de onde se pode extrair petróleo]”, refere o jornalista, acrescentando que o ambiente é sempre apresentado em oposição ao desenvolvimento económico. Embora seja especializado em políticas climáticas e ambiente não escreve para a imprensa nacional por falta de interesse da mesma neste tema.

“O governo conservador atualmente no poder está sedeado em Alberta, a província produtora de energia no Canadá que seria mais afetada com qualquer política relacionada com as alterações climáticas”, explica ao Observador Alex Wood, director sénior do grupo de reflexão para a promoção da economia verde no Canadá – Sustainable Prosperity. O especialista em políticas ambientais refere ainda que o partido liberal, que perdeu as eleições em 2008, também não apresentava uma alternativa viável – a mudança das políticas verdes resumia-se a taxar a emissão de carbono. Além disso, impor regras mais apertadas às empresas canadianas poderia colocá-las em desvantagem em relação às concorrentes estadunidenses.

É a expansão da exploração de gás e petróleo que coloca o Canadá numa posição tão baixa no relatório CCPI, diz Stephen Leahy – o aumento da emissão de gases com efeito de estufa deve-se não só na queima dos combustíveis, mas também ao que é libertado durante a extração. Em vez de reduzir a quantidade de GEE emitidos para atingir os objetivos propostos pelas Nações Unidas ou pela própria administração, o governo canadiano abandonou o protocolo de Quioto em 2011 e prevê-se que aumente as emissões em, pelo menos, 20% até 2020, refere o jornalista num artigo publicado no Guardian.

Apesar da falta de medidas a nível do governo federal e do aparente desinteresse da população que não traz o tema a debate público, algumas províncias têm tomado medidas, segundo Stephen Leahy: quer no aumento das taxas de carbono, quer no encerramento de centrais de carvão.

“A Austrália passou de líder mundial a retardatário”

No poder há pouco mais de um ano, o primeiro-ministro australiano Tony Abbott tomou medidas que contrariam os bons resultados que o país tinha alcançado em termos de redução das emissões de GEE e aumento da utilização de fontes de energia renovável. “O governo de Abbott aboliu a taxa de poluição que a Austrália tinha estabelecido em 2012. Em apenas 12 meses, a Austrália passou de líder mundial a retardatário”, diz ao Observador Guy Ragen, especialista em alterações climáticas na Australian Conservation Foundation. “Era um esquema económico abrangente que obrigava os maiores poluidores a pagar por cada tonelada de carbono emitida. A taxa de carbono viu as emissões do setor elétrico reduzir mais de 17 milhões de toneladas.”

Ao acabar com o Tratado das Energias Limpas (Clean Energy Act), o primeiro-ministro conservador acabou com a lei que estabelecia o limite máximo de emissões de gases com efeito de estufa e que tinha implementado o comércio de emissões (que permite aos países negociar o excedente das metas de emissões de GEE entre si), explica ao Observador Kellie Caught, reponsável nacional pelas alterações climáticas na organização World Wide Fund for Nature (WWF). “[A taxa de carbono] foi substituída por uma programa de subsídios para as empresas que reduzam as emissões, mas sem colocar nenhuma obrigação, em nenhum lado da economia, na redução das emissões”, acrescenta Guy Ragen.

O membro da Australian Conservation Foundation acusa o governo de ter acabado com a Comissão do Clima – um órgão que aconselhava o Governo sobre a ciência climática -, com o Regime de Oportunidades de Eficiência Energética – que promovia a eficiência energética junto dos grandes fabricantes – e de ter tentado abolir a Autoridade para as Alterações Climáticas – um órgão independente que aconselha o governo sobre as metas de redução de emissões. “O governo também reviu as metas para as energias renováveis (Australia Renewable Energy Target Scheme) cujo objetivo atual é chegar ao 41 mil gigawatt-hora de energias renováveis em 2020 (cerca de 24% da energia)”, acusa Kellie Caught. “O governo anunciou o plano de cortar o objetivo para 27 mil gigawatt-hora, que resultará num aumento das emissões como resultado de menos energias renováveis na rede.”

Neste momento a Austrália tem como objetivo reduzir 5% das emissões até 2020. “A Autoridade para as Alterações Climáticas argumentou que as metas deveriam ser 19% para 2020, mas o governo ignorou o conselho”, refere Guy Ragen. “De facto, com a abolição da taxa de carbono, nem podemos ter a certeza que a Austrália chegue aos 5%.” E em relação a 2030 e à proposta que será apresentada em Paris, em 2015, na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, a organização ainda não sabe quais poderão ser as intenções do governo.