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Milton Cappelletti

Milton Cappelletti

7 desafios incontornáveis para 2015

Carlos Pimenta, João Marques de Almeida, Ricardo Cardoso Reis, José Milhazes, Nuno Melo, Eurico de Barros e Paulo Sande falam dos desafios de 2015, dos limites da ciência ao ISIS e à Cimeira do Clima.

Os novos horizontes do Sistema Solar
Ricardo Cardoso Reis*

Estudar a Cintura de Kuiper é como estudar os fósseis da Terra, pois os pequenos corpos gelados que a compõem são autênticos embriões de planetas, que pouco terão mudado desde que se formaram, há 4 mil milhões de anos.

Descoberto em 1930, Plutão é apenas um dos maiores objetos conhecidos nesta cintura, o que levou à sua reclassificação em 2006 como planeta-anão.

Devido à sua órbita extremamente excêntrica, Plutão chega a estar mais próximo do Sol que Neptuno. Durante algumas décadas, parte da superfície sublima, formando uma “mini-atmosfera”, que vai escapando para o espaço. Pensa-se que a atmosfera original da Terra, de hidrogénio e hélio, terá escapado para o espaço de forma semelhante. Mas conforme o planeta-anão se afasta do Sol, a sua atmosfera volta a congelar, e desaparece durante mais de um século.

Plutão acompanhado de três das suas cinco luas - Caronte, Nyx e Hidra

Getty Images

Estudar a atmosfera de Plutão é um dos grandes objetivos da sonda New Horizons, da NASA. Para a conseguir observar antes de congelar, a New Horizons teve de ser lançada à velocidade recorde de quase 60 mil km/h (mais de 60 vezes a velocidade de um avião comercial). Uma pequena ajuda da gravidade de Júpiter aumentou ainda mais a velocidade, encurtando a viagem em cerca de dois anos, que ainda assim dura quase 10 anos.

Lançada em 2006, a maior aproximação da sonda a Plutão, a pouco menos de 10 mil km, está prevista ocorrer no dia 14 de julho de 2015. Passando a mais de 54 mil km/h, a sonda terá apenas 24 horas para reunir a maior quantidade de dados possíveis sobre este planeta-anão.

Depois disso, a New Horizons segue viagem para ainda mais longe, com o próximo encontro, com um ou dois outros objetos da Cintura de Kuiper, a ocorrer entre 2017 e 2020.

divulgador de ciência no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, Universidade do Porto

Nuvens da crise ameaçam a Rússia
José Milhazes*

Não obstante as previsões otimistas do Presidente Putin para 2015, que prevê um ano difícil (“mas iremos certamente resolver todos os problemas”), a maioria dos economistas russos tenta escolher entre os maus e os muito maus cenários para a economia russa.

Um relatório da Escola Superior de Economia de Moscovo é claro nas previsões: “Em apenas um ano, o país perdeu os êxitos dos últimos cinco ou dez anos, mas o pior é que perdeu as perspetivas de recuperar esses êxitos num futuro visível”.

“A crise económica na Rússia avança. Os prognósticos apontam para uma recessão de dois ou três anos e, no melhor dos casos, anos de estagnação”, frisa-se no citado documento.

Espera-se também um endurecimento crescente da política interna do Kremlin. As perseguições contra líderes da oposição irão continuar e, no próximo 15 de janeiro, um deles, Alexei Navalnii, arrisca-se a ser condenado a uma pena de prisão de 10 anos por “desvio de fundos”.

Soldado pró-russo da região leste da Ucrânia

AFP/Getty Images

No plano externo, é de esperar que a política russa não sofra grandes alterações. Moscovo insiste na limitação da soberania da Ucrânia ao tentar impedir a sua aproximação à UE e NATO e ao apoiar a “federalização” do país, o que é visto em Kiev como um meio de desintegrar a Ucrânia e colocar, pelo menos parte, sob controlo russo.

A diplomacia chamou a si a tarefa de intermediação do conflito na Síria, convocando algumas das partes do conflito nesse país para conversações em Moscovo no mês de janeiro, o que pode não ter êxito, pois isso passa por esforços internacionais mais amplos.

Não obstante os cenários pessimistas, não é de esperar grandes ondas de contestação social, mas pode acontecer que a elite tenha de tomar decisões, nomeadamente em termos de quadros, para evitar grandes problemas para ela própria.

* jornalista

O destino de Grécia, Reino Unido, Portugal e Espanha estará em jogo em 2015
Paulo Sande*

Em 2015, haverá eleições legislativas em quatro países europeus: Grécia, Reino Unido, Portugal e Espanha, por ordem da sua realização. Todas terão resultados mais ou menos significativos a dois níveis: no processo democrático propriamente dito e no futuro da União Europeia.

Começando pela questão democrática, pode dizer-se que, num tempo de descrença e rejeição do sistema partidário e dos partidos em geral, que aliás acompanha, como quase sempre, uma crise económica profunda e duradoura, ocorrem duas tendências relevantes:

Por um lado, a emergência de partidos radicais, de extrema-esquerda ou direita, com programas que, em geral, conciliam ódio à integração europeia com políticas anti-imigração e, no plano económico, anti-austeridade. A outra tendência é o surgimento gradual de movimentos, e até de partidos, de cidadãos, de génese independente (se se mantêm assim é outra história), que levam a uma crescente participação das pessoas na coisa pública, no processo de decisão, na representação política. Para resumir, simplificando, a primeira é uma coisa má, a segunda uma coisa boa.

É em Espanha que a segunda tendência aparece mais marcada, consubstanciada no Podemos, partido fundado por um cientista político a partir de um manifesto de indignação subscrito por uma trintena de personalidades, cuja inesperada estreia – pelo sucesso eleitoral – foi nas eleições para o Parlamento Europeu, em maio. Símbolo ou não da afirmação cidadã, o partido, que se assume como de esquerda e realizou uma assembleia constituinte aberta em outubro – “si se puede” -, visa agora as eleições legislativas do próximo ano; para já, comanda as sondagens. E o Podemos apoia abertamente a reestruturação das dívidas soberanas dos países mais afetados, a começar naturalmente por Espanha.

Em nenhuma das outras eleições europeias este fenómeno é tão significativo, mas não é de excluir algo de parecido em nenhuma delas, mesmo no caso português, embora no nosso caso seja difícil dizer de onde tal surpresa poderia viria (Livre?, Marinho e Pinto?, um novo movimento?, a ver vamos).  Mas nem o UKIP inglês nem o Syriza grego ou os muitos grupos de independentes gregos parecem para já ter a mesma dimensão do Podemos espanhol.

Os partidos mais ou menos radicais, antieuropeus, anti-austeridade e anti-imigração, são sobretudo visíveis na Grécia e Reino Unido. Naquele país, o Aurora Dourada tem cariz mais extremista – com aparentes conotações racistas e até eventualmente nazis -, sendo o UKIP, no Reino Unido, de diferente natureza: o que o caracteriza é sobretudo a oposição à União Europeia, de que pretende retirar o país. E se os gregos de extrema-direita parecem ter poucas hipóteses de crescer substancialmente nas eleições de 25 de janeiro, já o mesmo não acontece com o UKIP, que pode bem vir a afirmar-se como uma força política muito relevante no panorama político do país, se é que já não o é.

Por outro lado, as consequências para a política e a economia europeias decorrentes destas quatro eleições podem ser muito significativas, em particular no caso da Grécia e do Reino Unido, sem esquecer, claro, a Espanha, onde a dimensão autonómica – e a pulsão independentista – fará natural e espera-se que não dramaticamente parte do menu eleitoral. Em Portugal não se perspetivam para já grandes tensões, com os partidos tradicionais – os do coloridamente chamado “arco da governação” – a manterem, de acordo com as previsões atuais, as preferências do eleitorado.

Pedinte junto à sede do Banco da Grécia

AFP/Getty Images

O que pode suceder se o Syriza ganhar as eleições na Grécia, como indicam as sondagens? A primeira questão é a de saber com que margem o fará e que soluções permitirão governar um país que faz da arte das alianças precárias o ómega e o alfa do sistema de governo. Caso encontre um caminho, segue-se a dúvida sobre a capacidade do Syriza (coligado ou não, e com quem?) e do seu líder Alexis Tsipras para impor a sua agenda à Europa: renegociar a dívida grega, relançar o crescimento, reduzir as políticas de austeridade. Mas negociar com quem, onde encontrar o capital para investir, como jugular o défice e a dívida (remanescente?). Interrogações a mais para uma perspetiva credível de cumprimento das promessas.

Face à perspetiva de uma vitória da esquerda mais ou menos radical que o Syriza representa, agitaram-se nos últimos dias os mercados, reagiram os líderes europeus da Alemanha a Bruxelas, tremeram eurocratas entre as paredes blindadas do Berlaymont; a ameaça, palpável, é a de um regresso aos anos dramáticos da crise das dívidas soberanas, com o euro de novo em causa. Mas até o Syriza já reconheceu a pouca conveniência de um abandono da moeda única nesta fase. Um banho de realidade talvez sirva também para frear ímpetos excessivos ou, como alguém disse algures e num tempo qualquer (que não consigo localizar): os radicais chegam a ministros, mas os ministros raramente são radicais.

Já no Reino Unido muito mais está em jogo, com a Europa em pano de fundo: uma vitória trabalhista, uma hipótese verosímil, dificilmente porá em banho-maria a promessa dos conservadores de David Cameron de organizar um referendo sobre a permanência britânica na União Europeia. Face à expectativa criada, será já difícil impedir os ingleses de se pronunciar sobre a presença do país na Europa, seja quem for que vença as próximas eleições. E é no fundo uma oportunidade para clarificar de uma vez por todas a posição do Reino Unido sobre a sua participação no projeto europeu.

Em tudo isto, nomeadamente no futuro resultado de tal referendo, muito depende também da votação que obtiver nas próximas eleições o partido antieuropeu de Nigel Farage, o UKIP. Uma votação significativa pode levar a um levantamento massivo e entusiasmado do eleitorado contra a União e a um doloroso britexit (a saída do Reino Unido). As sequelas desse cenário são para já impossíveis de prever, a ver vamos.

Em 2015, resumindo, quatro eleições nacionais podem vir a desempenhar um triplo papel de indiscutível relevância:

Na determinação da composição dos respetivos Parlamentos e soluções de governabilidade; no incremento do acesso à representação política e da participação dos cidadãos e movimentos independentes no sistema político; finalmente, na moldagem do futuro rosto do processo europeu de integração.

* professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica

O plano de Juncker salvará a Europa?
Nuno Melo*

O segundo mandato da Comissão Barroso foi marcado pela gestão da crise das dívidas soberanas, que atingiu particularmente um pequeno conjunto de países, nos quais se incluía Portugal.
Integrando a troika, a Comissão Europeia foi transformada de parceira institucional, em credora.

E o programa imposto – independentemente de classificado de austeridade, ajustamento, ou simples memorando de entendimento – teve como consequência um impacto recessivo antecipado em todas as previsões, que cedo justificou no plano político, a reivindicação de um ciclo subsequente de crescimento e emprego, naqueles países e na generalidade da UE.

O consulado Juncker marca o início deste ciclo e tenta dar resposta a essa reivindicação de muitos governos, sem contudo abandonar as exigências, que se mantêm, de consolidação orçamental, controle das dívidas públicas e realização das necessárias reformas estruturais.

Jean-Claude Juncker numa sessão no Parlamento Europeu

AFP/Getty Images

A ironia, contudo, começa no facto de muitos daqueles que à frente dos governos reclamavam políticas de investimento e emprego, serem os mesmos que representados no Conselho, recusam as dotações financeiras bastantes a um plano equivalente.

Este facto valoriza ainda mais o esforço e o empenho com que a Comissão Juncker procurou fazer alguma diferença, apesar das circunstâncias obviamente difíceis.

A começar, demonstrou politicamente a capacidade de comprometer a maioria da representação parlamentar europeia, no apoio das bancadas do PPE, socialistas e liberais. E depois traduziu o plano em números. 315 mil milhões de euros, com contribuições dos Estados-membros, do BEI, a par do recurso aos mercados e emissão de dívida, destinados a financiar projetos de investimento de empresas, em áreas selecionadas como prioritárias no nosso espaço comum.

Tudo somado, será suficiente, ou talvez não.

Mas facto é que, ao menos, assinala uma nova abordagem à frente da liderança de um projeto europeu, que terá de ser capaz de superar as suas dificuldades, mas também de concorrer com outros blocos fortemente competitivos.

No mínimo, merece que lhe seja dado o benefício da dúvida.

No mais, o futuro dirá.

eurodeputado eleito pelo CDS

A revolução em curso no Médio Oriente e no Golfo
João Marques de Almeida*

O Isis (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) não foi a causa mas a sua existência é um dos resultados da revolução em curso no Médio Oriente e no Golfo. Uma revolução que está a produzir três transformações históricas. Em primeiro lugar, estamos a assistir à fragmentação da ordem regional assente em Estados-nações, criada após a II Guerra Mundial e o fim dos protetorados britânico e francês. O Iraque e a Síria provavelmente deixaram de existir como Estados unificados. No seu lugar, estão a surgir, além do Isis, um “pequeno Iraque”, uma “pequena Síria” – ambos protegidos pelo Irão – e um Curdistão independente, apoiado pelo Ocidente.

O Líbano continua igualmente dividido e resta saber se a Jordânia resistirá a esta tendência de fragmentação. Entre as potências regionais, a Turquia sente-se ameaçada pelas alterações de fronteiras, sobretudo pela emergência de um “Curdistão independente”, tendo em conta o conflito interno com os seus curdos. A sua posição neste conflito regional será uma das questões mais importantes a seguir em 2015.

Combates na cidade síria de Kobane

Getty Images

Estamos a assistir em segundo lugar a uma redefinição das alianças regionais. O isolamento do Irão foi um dos objetivos estratégicos dos Estados Unidos, desde a Revolução iraniana de 1979. A emergência do Isis alterou a estratégia norte-americana. Mesmo que as negociações sobre o programa nuclear iraniano não terminem com um acordo, o isolamento iraniano de facto acabou. O Isis é agora o inimigo número um; e nem os republicanos conseguirão inverter o novo curso de acontecimentos. A grande questão estratégica para o próximo Presidente norte-americano será conciliar a aproximação ao Irão – mesmo limitada – com a segurança de Israel.

Finalmente, o crescimento do Isis simboliza o fim de qualquer ilusão sobre a “democracia no Grande Médio Oriente” ou a “Primavera árabe”. De Ocidente para Oriente, na Argélia e no Egito, a ordem e o radicalismo islâmico são controlados por ditaduras militares. A Líbia, o Líbano, a Síria e o Iraque estão em guerra civil e divididos. Os grandes vencedores são a teocracia iraniana e a monarquia saudita. Na região, Deus e monarcas têm mais poder que o povo e a nação.

A evolução do conflito entre o Irão e a Arábia Saudita será a questão central em 2015, incluindo para o preço do petróleo.

* ex-assessor político do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso e antigo diretor do Instituto de Defesa Nacional.

O futuro segundo o cinema do passado
Eurico de Barros*

Bob Gale, coargumentista e coprodutor da trilogia “Regresso ao Futuro”, confirmou em outubro que não haverá um quarto filme da série, nem em 2015 nem nunca, “nem versões em 3D dos outros três”, embora ele e o realizador, Robert Zemeckis, estejam a trabalhar num musical de palco baseado no filme original.

O segundo “Regresso ao Futuro”, estreado em 1989, passava-se precisamente em 2015, e a visão que nos dava do ano em que vamos entrar não podia ter passado mais ao lado da realidade. Não há, como Marty McFly (Michael J. Fox) descobre, espantado, pranchas de “surf” voadoras, muito menos automóveis a cruzar estradas aéreas; não há ténis que se abotoam sozinhos; não há motores a fusão que funcionam à base de lixo doméstico; não há publicidade a filmes com hologramas; não há um canal de televisão que só exibe bonitas paisagens; etc, etc.

Exibição de "Regresso do Futuro" num drive-in de Miami

Getty Images

O futuro, tal como os filmes de ficção científica do passado o imaginaram, raramente bate certo uma vez lá chegados. Mas de “Metropolis”, de Fritz Lang, a “Blade Runner”, de Ridley Scott, e “Gattaca”, de Andrew Niccol, passando por “2001: Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, ou “À Beira do Fim”, de Richard Fleischer, as visões do futuro pintadas pelo cinema nem por isso deixam de ser fascinantes ou inquietantes.

Mesmo as mais distópicas, caso do futuro próximo de crise meteorológica, ecológica e alimentar da humanidade mostrado este ano em “Interstellar”, de Christopher Nolan, que ninguém deseja que se venha a concretizar. Pelo menos, numa coisa “Regresso ao Futuro II” acertou. Em 2015, andamos todos com telefones portáteis – embora não sejam também óculos de sol.

jornalista

Cimeira do clima de Paris: um passo de gigante para o Ambiente?
Carlos Pimenta*

A conferência de Paris vai tentar chegar a um consenso sobre um programa para a limitação e depois a redução da emissão dos gases que provocam alterações climáticas. O CO2 é o mais conhecido, mas existem outros gases como o metano.

O instrumento que existe hoje, o protocolo de Quioto, há muito que devia ter sido aplicado com mais rigor e há muito que devia ter tido um sucessor. Temos vindo a adiar a criação de um novo instrumento de conferência em conferência. Desta vez não é possível falhar porque a acumulação de calor na atmosfera e nos oceanos ameaça provocar não apenas alterações climáticas mais ou menos previsíveis, mas fenómenos de rutura, portanto disruptivos, que ninguém sabe quando se irão produzir, mas que irão ter consequências dramáticas.

O que temos pela frente, se não fizermos nada, não é apenas um mundo mais quente (meio grau, um grau, dois graus) mas um sistema de distribuição da energia totalmente diferente no planeta. Isso pode implicar a mudança das correntes marítimas como, por exemplo, a nossa corrente do Golfo, alterações nos regimes de monções, etc.

Manifestantes defendem mais medidas dos líderes mundiais

AFP/Getty Images

Quando pensamos que o planeta tem mais de sete mil milhões de habitantes, dos quais uma percentagem muito significativa vive ao pé do mar ou em zonas de baixa altitude, é fácil de perceber que tempestades marítimas, chuvas torrenciais, ventos ciclónicos podem provocar consequências gravíssimas do ponto de vista de mortos e infraestruturas. Lembramo-nos do que aconteceu com uma pequena tempestade que assolou a cidade de Nova Iorque há poucos anos.

O mundo tem de chegar a um acordo e é um acordo difícil. A distribuição da emissão dos gases que alteram o clima é muito desigual, no presente e no acumulado histórico do passado recente.

O acordo entre o Presidente Obama e o presidente da China no horizonte para 2030 é um passo importante, mas não é ainda a chave da solução. É preciso que outros países como a Índia, a Rússia ou os países em vias de desenvolvimento e com industrialização rápida assinem e aceitem um programa quantitativo – com números de toneladas de CO2 equivalente aos gases que podem ser emitidos – e um calendário associado a esse programa quantitativo. É claro que quem mais emite CO2 e mais emitiu, mais esforço tem que fazer. Foi assim em Quioto e terá que ser assim em Paris em 2015. O que está em jogo é algo de muito mais importante do que a espuma do quotidiano que nos ocupa – crises políticas e económicas, que são graves e provocam sofrimento, mas são passageiras e conjunturais. A questão do clima é estrutural.

No fim do dia é isto que estamos a falar: quantificar a redução e fixar um determinado calendário. Se puder emitir tudo o que quero como hoje se faz em quase todo o mundo, é óbvio que ninguém é levado a substituir o automóvel, a fornaça ou a mudar o tipo de planeamento dos transportes urbanos para que tudo funcione de uma forma mais eficiente em termos energéticos e com menos consequências ambientais.

Para que as empresas, os indivíduos, as autoridades municipais, regionais e nacionais atuem, além do dever ético, tem que haver um interesse económico. E o interesse económico será porque não fazer nada custará mais caro. E só lhes custará mais caro se as emissões tiverem um custo significativo. Para isso as quotas, as quantidades que são autorizadas para emitir nas chaminés ou nos tubos de escape, têm que ser apertadas. Aí, acredito que as pessoas vão procurar novas formas de produzir ou de se deslocar ou de habitar que sejam menos poluidoras, que sejam mais amigas do ambiente, que usem menos energia. E esse é o único caminho, não há outro. De resto andámos a brincar ao clima e às reuniões.

O que tem de sobrar para Paris são os pontos críticos mais importantes, mas não o trabalho de casa. Toda a estrutura do acordo, todas as contas e instrumentos para chegar lá têm de estar feitos antes de Paris.

ex-secretário de Estado do Ambiente

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