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JOSÉ FERNANDES/OBSERVADOR

JOSÉ FERNANDES/OBSERVADOR

A corrida da direita que quer esvaziar o balão de Moedas

Moedas entrou na campanha apostado em bipolarizar e agregar os votos da direita que quer punir Medina. Chega e Iniciativa Liberal forçam caminhos próprios, mas têm estratégias muito diferentes.

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João Cotrim Figueiredo está pronto para começar a falar aos jornalistas. Para trás tinham ficado duas horas de passeio, na freguesia lisboeta de Alvalade, quase sempre em círculo e sem um propósito evidente. É o primeiro dia oficial de campanha, está um calor de morrer, e o candidato propriamente dito — Bruno Horta Soares — nem vê-lo. Por motivos profissionais, o consultor só se juntaria já mesmo no final da ação de campanha. Ainda assim, é o líder da Iniciativa Liberal quem rouba a cena. “O único voto útil é na Iniciativa Liberal. A cada entrevista, a cada debate, está patente para todos: [na candidatura de Moedas], não há energia, não há força, não há capacidade real de fazer oposição”, atira Cotrim Figueiredo.

Foi assim no primeiro dia e tem sido quase sempre ao longo de toda a campanha em Lisboa: Cotrim Figueiredo quase omnipresente, Moedas como alvo mais do que apetecível. A estratégia explica-se em dois pontos: a Iniciativa Liberal joga tudo na eleição de um vereador e sabe que para o fazer precisa que o rosto mais (re)conhecido do partido esteja em força na campanha; e que Carlos Moedas não consiga agregar o voto útil à direita.

Mais do que entrar em duelo direto com Fernando Medina — apesar de as críticas serem muitas, violentas e repetidas –, a IL sabe que o caminho mais direto para conseguir a reeleição é esvaziar parte da bolsa de votos de Carlos Moedas à direita.

Aliás, no debate televisivo a doze, o último desta campanha, Horta Soares fez de tudo para se distanciar de Moedas. “O nosso programa é manifestamente diferente do de Carlos Moedas”, chegou a dizer. Nessa noite, como depois, o social-democrata nunca caiu no jogo da Iniciativa Liberal.

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Manter viva a marca

De resto, a candidatura de Carlos Moedas criou um dilema à Iniciativa Liberal. Dilema que foi praticamente debatido na praça pública: ao contrário de outros possíveis candidatos da família do PSD, uma aliança com Moedas, pelo perfil do antigo comissário europeu, pelo percurso e pelo potencial de vitória contra Medina, era particularmente aliciante para uma parte do partido.

A decisão de rejeitar o dote oferecido por Carlos Moedas teve tanto de convicção como de estratégia política. Com Tiago Mayan Gonçalves, a coqueluche do partido no pós-presidenciais, acoplado a Rui Moreira na cidade Porto, a Iniciativa Liberal seria um tema praticamente inexistente no rescaldo eleitoral se faltasse à chamada em Lisboa com uma candidatura própria — é nas duas maiores cidades do país, em particular em Lisboa, que o partido é mais forte; logo, salvo casos muito particulares, é na capital que os liberais têm mais hipóteses de eleger.

Baralhando e dando de novo: vindo de dois resultados positivos — eleição de um deputado, resultado e desempenho surpreendentes de Mayan Gonçalves nas presidenciais –, na direção da Iniciativa Liberal existiu e existe a convicção de que era importante testar novamente a força do partido numas eleições com características muito particulares.

O caminho até aqui, no entanto, não foi exatamente linear. Depois da nega pública a Carlos Moedas, veio o piscodrama em torno da desistência do primeiro candidato (Miguel Quintas) e um “plano B” chamado Bruno Horta Soares. Líder e candidato passaram metade dos últimos meses a justificar os méritos da aposta e outra metade a explicar o porquê de não se terem juntado a Carlos Moedas.

Horta Soares, não sendo desprovido de faro para o circuito da carne assada, dispensa grandes conversas de circunstância. Na grande maioria das vezes, os militantes que se juntam ao candidato na rua contam-se pelos dedos até porque as atenções da IL estão noutro lado: ações de campanha diferentes (um concerto ou a futura corrida entre uma trotinete e um autocarro), cartazes provocadores, Instagram, Facebook, ClubHouse.

O facto de ter dito, em pleno debate televisivo, que o período de pandemia tinha sido “um ano de merda” valeu-lhe mais reconhecimento público do que qualquer porta-a-porta que tenha ensaiado. A campanha mais tradicional não é o tabuleiro onde a IL se queira mexer.

José Fernandes

Os riscos não são ignorados pelos dirigentes da IL. Até ver, de acordo com as sondagens, Moedas continua longe de fazer sombra a Fernando Medina. Se for assim até 26 de setembro, a eleição de um vereador é possível, acreditam os liberais. Se nos próximos dias o clima político e as sondagens apontarem para um duelo taco a taco entre Medina e Moedas, a estratégia vai por água abaixo.

Manter Cotrim Figueiredo em jogo é, por isso, de grande importância. No terreno, a marca “Iniciativa Liberal” já vai despertando algum entusiasmo (sobretudo entre os mais jovens), mas as barreiras ainda são grandes. E com Cotrim Figueiredo é uma coisa, sem o líder é outra. É ele quem arrasta as câmaras de televisões, é ele quem conduz quase todas as conversas e é ele que toma conta quase de todas as fotografias.

Nuno Graciano não se pode queixar de ausência de espaço teórico para brilhar. Antes pelo contrário: para a candidatura do Chega em Lisboa, André Ventura é uma referência sempre presente mas geograficamente distante.

Viver para lá do líder

Ao contrário de Bruno Horta Soares, Nuno Graciano não tem problemas de reconhecimento na rua. Em Campo de Ourique, no arranque oficial de campanha, não faltou quem o cumprimentasse com a curiosidade natural de ver um antigo apresentador de televisão em carne, pele e osso.

Graciano corresponde com simpatia, ainda mais peixe fora d’água do que espécie autóctone. Mas a ausência de Ventura era notada e bem notada. “Alguém tem de me trazer cá o Ventura!”, chegaram a pedir-lhe nesse primeiro dia de campanha oficial. Em Alcântara, no Lumiar, em Santa Clara ou em Carnide, em dias diferentes, repetiram-se os mesmíssimos pedidos. “O Ventura está aí? Eu votei nele e vou votar nele.”

Mas André Ventura já esteve, mas não está. Se Cotrim Figueiredo tem assentado arraiais maioritariamente em Lisboa, o líder do Chega fez-se à estrada no período oficial de campanha, e está a percorrer o país todo, apostado em conseguir eleger o maior número de autarcas no maior número possível de câmaras, assembleias municipais e juntas de freguesias. Percebe-se a estratégia: neste momento, o raio de ação e a dispersão geográfica de votos do Chega são muito superiores aos da Iniciativa Liberal.

Em contrapartida, os objetivos definidos por uns e outros têm vantagens e desvantagens. Cotrim Figueiredo definiu como meta ter melhores resultados do que Bloco de Esquerda e PAN na primeira vez que foram a votos em autárquicas; André Ventura quer ser a terceira força política mais votada já nestas eleições. A estratégia dos liberais dá margem a Cotrim para se concentrar particularmente em Lisboa; a aposta de Ventura, num partido muito dependente da imagem do líder e ainda sem quadros, obriga-o a desdobrar-se em esforços por todo o país.

Chegará a vez de Ventura regressar a Lisboa e vai fazê-lo nesta reta final campanha. Mas, até ver, o caminho das pedras foi percorrido sozinho por Graciano, longe das câmaras e praticamente sem estrutura partidária. Pelo caminho, ausência de Ventura pode ter fragilizado a candidatura a Lisboa.

“O Nuno Graciano está muito apagado. Os debates foram um desastre. Não ataca os adversários, está deslocado e parece não ter qualquer tipo de motivação”, comenta com o Observador um destacado militante do Chega.

Se os liberais têm uma estratégia clara de combate político — criticar a gestão de Medina e tentar esvaziar Moedas –, Graciano tem guardado quase todas as munições. No arranque da campanha, quando parte da comitiva que o acompanhava zurzia a bom zurzir em Pedro Costa, filho do primeiro-ministro e recandidato à presidência de junta de Campo de Ourique, Nuno Graciano defendia-o perante as perguntas dos jornalistas. “Pedro Costa foi eleito democraticamente”.

Os ataques às falhas da gestão de Fernando Medina existem mas muito longe do nível de decibéis que o partido gosta de usar. E sobre Carlos Moedas, até ver, não houve sequer uma crítica mais contundente para memória futura.

Pior: já depois de Ventura ter dito que era uma “medalha de honra” ter sido excluído pela “falsa direita” que concorre em Lisboa, Graciano elogiou publicamente Moedas e disse que havia todas as “condições” para conversarem sobre um hipotético acordo no pós-eleições. “Parece um corpo estranho. Esperávamos muito mais”, reconhece ao Observador a mesma fonte do Chega.

De resto, apesar ter sido uma escolha pessoal de André Ventura, na sua primeira grande entrevista que deu como candidato à autarquia, também ao Observador, o que mais tinta fez correr fora (e sobretudo) dentro do partido foram as suas divergências. Eu sou diferente do André Ventura. O André Ventura é o André Ventura, eu sou o Nuno. O Chega é uma partido democrático: o André pode pensar uma coisa, e eu posso achar outra”, disse na altura.

Num partido onde a impressão digital do líder é tão forte, as palavras de Graciano não caíram bem e há quem aponte isso (mas não só) como fator que justifica alguma falta de mobilização do partido em torno da candidatura de Graciano.

José Fernandes

Mais do que estados de espírito, há quem, na equipa de Nuno Graciano, aponte aspetos práticos para justificar o aparente desinvestimento de Ventura nesta campanha: em Lisboa, a aritmética eleitoral não joga a favor do Chega.

Ao contrário do que acontece com a Iniciativa Liberal, a capital é tudo menos um bastião do Chega. Nas legislativas, olhando exclusivamente para os votos do concelho de Lisboa, o partido ficou atrás de PAN, IL, Livre e até da Aliança, então liderada por Pedro Santana Lopes. Já nas presidenciais, Ventura ficou atrás de Ana Gomes no distrito e também no concelho de Lisboa. O ouro do Chega pode não estar em Lisboa.

Daí que se façam contas à vida: numa campanha bipolarizada entre Moedas e Medina, e sem o poder de fogo de Ventura, é possível que o voto para penalizar o socialista voe mais depressa para o social-democrata do que para Graciano. Em contrapartida, as juntas de freguesia, onde o partido captou figuras locais com alguma capacidade de mobilização e onde o voto é mais livre, podem ser a forma de ganhar raízes no poder local da capital.

O destino dos dois partidos em Lisboa está, por isso, ligado ao desempenho de Carlos Moedas: se o social-democrata conseguir convencer parte do eleitorado de que a sua agenda corresponde, no essencial, às aspirações mais liberais, pode esvaziar a Iniciativa Liberal; se conseguir convencer a outra parte do eleitorado que só o voto nele pode impedir que socialistas, bloquistas e, eventualmente, comunistas continuem a liderar a câmara, pode esvaziar o Chega. Os próximos dias dirão se Horta Soares/Cotrim Figueiredo e Graciano/Ventura conseguem furar o balão de Moedas.

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