“Ganhámos! Ganhámos mesmo!”. Faltam quatro minutos para as duas da manhã e Rui Rio está no palanque a responder às perguntas dos jornalistas. Os dirigentes que o ouviam na sede nacional do partido, em Lisboa, começaram a anunciar a boa nova: Carlos Moedas acabara de ser anunciado como novo presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Rio não conseguia esconder a enorme satisfação — estava a ter o seu momento Durão Barroso, o seu próprio 2001. Agora só falta que venha o pântano.

Em linhas gerais, as contas fazem-se assim: Lisboa, Coimbra, Funchal, Portalegre, Barcelos, crescimento no Porto e fim da maioria absoluta de Rui Moreira, resultados surpreendentes no Alentejo, mais capitais de distrito do que o PS, e mais 16 câmaras do que em 2017, entre autarquias recuperadas e outras perdidas, em linha com o número mágico definido pela direção social-democrata antes desta corrida autárquica. Os objetivos tinham sido cumpridos.

Com os resultados conseguidos este domingo, Rui Rio ganhou um (grande) balão de oxigénio, Carlos Moedas conquistou um lugar na história e no futuro do partido, e Paulo Rangel pode ter recebido um sinal sério: se quiser mesmo disputar a liderança do partido, arrisca-se a enfrentar um adversário reforçado. Para já, todos — Rio incluído — vão esperar até a poeira assentar. Os próximos dias servirão para se medir a vontade das estruturas e do aparelho social-democrata.

Os sinais, esses, são inequívocos: se dependesse da vontade da direção da cúpula do PSD e da leitura que foi sendo feita ao longo da noite eleitoral, Rui Rio não teria outra alternativa que não avançar com uma recandidatura à liderança do PSD. Aliás, essa garantia já era dada ao Observador quando se conheciam apenas as vitórias em Coimbra e Funchal; a derrota simbólica de Fernando Medina veio galvanizar ainda mais a direção de Rio.

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Apesar da insistência dos jornalistas, Rio nunca desfez o tabu. Não era dia para falar sobre o seu futuro à frente do partido. Mas o líder social-democrata deixou uma ideia que encerra todo um programa: “Conseguimos mais implantação e conseguimos um PSD mais forte, o que dá para deduzir facilmente que estamos em muito melhores condições de ganhar as eleições em 2023”. Baralhando e dando de novo: Rio acredita que está mais perto de chegar a primeiro-ministro e essa perspetiva é mais importante que tudo o resto para determinar a vontade de continuar ou não à frente do PSD.

Ainda assim, a vontade de Rio não será o único fator da equação. É preciso saber o que farão os seus adversários, em particular Paulo Rangel. O eurodeputado estava decidido a avançar com uma candidatura e não há indícios de que tenha mudado de plano. Os próximos dias servirão para medir o pulso às estruturas do partido e perceber quem está com quem.

Não está prevista uma decisão para breve. Curiosamente, até à hora de publicação deste artigo, a única reação pública de Rangel, no Twitter, foi para elogiar a vitória de Carlos Moedas — não houve uma única menção aos resultados globais. O copo meio vazio existe e está a ser considerado: o PSD não conquistou assim tantas câmaras em relação a 2017, perdeu autarquias médias importantes — como Guarda e Espinho — e continua sem descolar no Porto, num teórico bastião de Rio.

Além disso, mesmo a vitória de Moedas é contextualizada: mais do que uma vitória do social-democrata (que teve cerca três pontos percentuais acima do resultado combinado de PSD e CDS em 2017), a derrota foi de Medina, que perde mais de nove pontos percentuais em relação há quatro anos.

Tudo isto será analisado nos próximos dias e tudo isto servirá para clarificar o horizonte de Rangel. Antes de encerrarem as urnas, a candidatura de Rangel era uma inevitabilidade; resta saber o que fará o eurodeputado depois de auscultar a vontade do aparelho.

O mesmo vale para Luís Montenegro. O antigo líder parlamentar tem sido muito pressionado a avançar e nos últimos dias vinha dando sinais de estar a considerar seriamente a hipótese. Mas se as contas já eram difíceis de fazer — uma corrida entre Rio e Rangel torna tudo mais difícil e Montenegro não está em condições de voltar a perder –, o reforço da posição do líder social-democrata torna tudo mais complexo.

Mais: além de o PSD ter perdido a Câmara de Espinho, numa candidatura patrocinada por Montenegro, a direção de Rui Rio impôs um candidato vencedor em Barcelos contra a vontade do líder do PSD/Braga e o grande apoio de Montenegro nas últimas diretas, Paulo Cunha, que fica assim muito fragilizado no distrito.

Carlos Moedas está descartado da corrida, ainda que por motivos totalmente diferentes — agora que é presidente da Câmara não há cenário algum que o faça sequer considerar uma aventura nas eleições internas.

Ainda assim, o antigo comissário europeu ganhou a tal dimensão política que ambicionava quando decidiu entrar nestas autárquicas e um papel na definição do futuro do partido — seja esse futuro agora ou não.

E agora, Nuno Melo?

Francisco Rodrigues dos Santos também tem razões para sorrir. É verdade que o CDS se expôs muito menos nestas autárquicas — a grande maioria das candidaturas existiu em coligação com o PSD — e que estas autárquicas (como todas) não podem servir para medir a vitalidade do partido.

No entanto, Francisco Rodrigues dos Santos cumpriu todos os objetivos a que se propôs: manter as seis câmaras que o partido detém (reforçando a votação), aumentar o número de vereadores e de eleitos para as autarquias e juntas de freguesia.

Lisboa, também por isso, é um caso particular: Rodrigues dos Santos descartou Assunção Cristas, abdicou de liderar a coligação — um lugar que lhe pertencia por tradição –, despachou João Gonçalves Pereira, líder do CDS/Lisboa, das listas para a vereação, comprando uma guerra com as estruturas; e foi acusado de ter dirigido mal as negociações, ficando com candidatos a presidentes de junta que tinha poucas hipóteses de ganhar. Mas não foi exatamente assim: Arroios, por exemplo, deixou de estar nas mãos do PS e caiu ao colo dos democratas-cristãos.

O que fará Nuno Melo depois disto é ainda pouco claro. O eurodeputado estava a reunir apoios para ir a votos nas próximas eleições internas do CDS e não é ainda certo o que fará depois deste domingo. Para já, o democrata-cristão vai manter-se em silêncio até perceber se existe ou não vaga de fundo para derrubar Rodrigues dos Santos.

Ao contrário do que acontece com Rui Rio, que perdeu solidez na sua base de apoio e nas quatro principais estruturas do partido — Aveiro, Braga, Porto e Lisboa –, Francisco Rodrigues dos Santos sente que tem todas as condições no aparelho para revalidar a sua liderança. Se quiser conquistar o partido, Nuno Melo não terá pela frente uma tarefa fácil.